EUA ataca Venezuela e captura Maduro: confira a cobertura completa em tempo real da BBC de momento histórico para a América Latina
Ação militar inédita do governo Trump marcou auge da escalada de tensão entre os dois países e foi duramente criticada pela comunidade internacional. Entenda como tudo se desenrolou e seus possíveis desdobramentos.
Por Rafael Barifouse, Flávia Marreiro, Julia Braun, Giulia Granchi, Camilla Veras Mota, Leandro Prazeres, Mariana Schreiber, Mariana Alvim e Rute Pina
Exército venezuelano declara apoio à presidente interina Delcy Rodríguez
O ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino, afirmou em um pronunciamento que o exército manifesta seu apoio à vice-presidente Delcy Rodríguez para que ela assuma como presidente interina da Venezuela.
Crédito, Reuters
Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha publicam nota conjunta criticando ação dos EUA: 'Precedente extremamente perigoso'
Em nota conjunta divulgada neste domingo (04/01), Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha criticaram a "gravidade dos eventos ocorridos na Venezuela" após a intervenção dos EUA no país sul-americano — embora esse fato não seja diretamente citado no comunicado.
O texto repudia "as ações militares executadas unilateralmente no território da Venezuela", as quais iriam de encontro a "princípios fundamentais do direito internacional" consagrados pela Carta das Nações Unidas — mais especificamente a proibição da ameaça e do uso da força e o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados.
"Essas ações criam um precedente extremamente perigoso para a paz, para a segurança regional e colocam a população civil em risco", diz a nota conjunta.
Os países pedem que a situação na Venezuela seja resolvida de forma pacífica e sem interferências externas, respeitando "a vontade do povo venezuelano".
O texto também critica de forma indireta os acenos dos EUA em relação ao petróleo venezuelano.
"Manifestamos nossa preocupação com qualquer tentativa de controle governamental, administração ou apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos, o que é incompatível com o direito internacional e ameaça à estabilidade política, econômica e social da região", conclui o comunicado.
‘Se não tomarem as decisões certas, os EUA pressionarão’, diz Marco Rubio sobre diálogo com políticos venezuelanos
Em
entrevista à emissora CBS News, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, fez
novas declarações neste domingo (04/01) sobre as expectativas dos EUA em
relação à presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez.
No sábado
(03/01), após a captura do presidente Nicolás Maduro, Rodríguez declarou que o
líder venezuelano é o mandatário legítimo do país e criticou o que chamou de "sequestro
ilegal" dele pelos EUA.
Perguntado
pela CBS se Rodríguez seria alguém com quem os EUA poderiam trabalhar, Rubio
respondeu que seu país não vai basear suas decisões em declarações, e
sim em ações.
“Vamos
fazer uma avaliação com base no que eles fizerem, não no que disserem
publicamente nesse ínterim, nem no que fizeram no passado, em muitos casos, mas
sim no que farão daqui para frente”, disse o secretário.
“Se não
tomarem as decisões certas, os Estados Unidos manterão diversas ferramentas de
pressão para garantir que nossos interesses sejam protegidos, incluindo a
quarentena do petróleo que está em vigor, entre outras coisas.”
Perguntado sobre o papel futuro de María Corina Machado, líder da oposição a Maduro, Rubio respondeu apenas ter uma "tremenda admiração por ela" e por Edmundo González (que disputou com Maduro a eleição de 2024), deixando de indicar algum papel para os dois na intervenção dos EUA no poder venezuelano.
No sábado, Trump afirmou que Corina Machado teria dificuldades em governar a Venezuela.
Rubio abordou neste domingo a fala de Trump, defendendo que ainda é cedo para dar respostas definitivas.
"Acho que o que o presidente apontou é óbvio (...) é preciso um pouco de realismo aqui", disse o secretário de Estado. "Eles tiveram esse regime. Eles tiveram esse sistema do chavismo no poder por 15 ou 16 anos, e todo mundo pergunta: por que 24 horas depois da prisão de Nicolás Maduro, não há eleições marcadas para amanhã? Isso é absurdo."
Crédito, EPA
Os principais pontos da fala do secretário de Estado dos EUA
Aqui estão principais pontos das declarações do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que falou com veículos da imprensa americana nesta manhã:
Segundo ele, a situação “não é uma guerra contra a Venezuela” — afirmação feita após os ataques ao país no sábado e a retirada de seu presidente, Nicolás Maduro.
Rubio disse que os Estados Unidos irão julgar a Venezuela pelo “que fizerem a partir de agora” e acrescentou que Washington manterá “múltiplas alavancas de pressão” para proteger seus interesses.
Falando à ABC, Rubio afirmou que não foi necessária autorização do Congresso antes da operação “porque isso não foi uma invasão”.
Ele disse esperar que a saída de Maduro leve a “uma Venezuela melhor”, mas acrescentou que o “objetivo número um é a América”.
Questionado se considera a presidente interina Delcy Rodríguez como a legítima presidente da Venezuela, Rubio afirmou que os Estados Unidos não acreditam que o regime seja legítimo.
Por que os EUA não prenderam mais integrantes do regime de Maduro
Em uma entrevista à CBS, o o secretário de Estado Marco Rubio foi questionado sobre por que os Estados Unidos não prenderam outros membros do regime de Maduro.
A jornalista Margaret Brennan observou que o ministro do Interior, Diosdado Cabello, tem uma recompensa de “US$ 25 milhões por sua captura”, enquanto o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, tem uma recompensa de “US$ 15 milhões”.
“É muito simples”, respondeu Rubio. “Você não entra para sair prendendo todo mundo.”
Segundo ele, é possível “imaginar os protestos” que os EUA enfrentariam se tivessem permanecido no país por mais tempo para capturar mais pessoas.
“Nós conseguimos o alvo prioritário”, afirmou.
Crédito, Getty Images
Legenda da foto, Marco Rubio durante conferência no dia 3 de janeiro
Marco Rubio: EUA não estão em guerra com Venezuela
Perguntado pela emissora americana NBC se os EUA estão em guerra com a Venezuela, o secretário de Estado respondeu que não.
"Não é uma guerra", disse Marco Rubio.
"Estamos em guerra contra as organizações de narcotráfico, não contra a Venezuela".
O secretário afirmou que a apreensão de barcos que supostamente transportam drogas para os EUA continuará, assim como o monitoramento de violações de sanções ao petróleo.
EUA são 'objetivo número um', diz Marco Rubio
O secretário Marco Rubio prossegue, dizendo que Maduro "não é o presidente legítimo" da Venezuela e "alguém com quem não conseguimos trabalhar".
Ele afirma ter "esperança" de que haja pessoas no poder venezuelano que levem a "uma Venezuela melhor".
"Mas nosso principal objetivo é a América", acrescenta, dizendo que não quer "mais drogas" nem gangues.
Rubio afirma que "ordens judiciais" legitimam ação na Venezuela
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, está falando à imprensa na manhã deste domingo (04/01).
Rubio afirmou que os EUA querem que a Venezuela tenha uma indústria petrolífera cuja riqueza vá "para o povo". Disse ainda que o país sul-americano está "ficando sem capacidade de armazenamento" e terá que começar a bombear petróleo em algumas semanas, "a menos que faça mudanças".
Questionado sobre a autoridade legal os EUA têm para interferir nisso, ele respondeu:
"Temos ordens judiciais – um tribunal não é uma autoridade legal?".
Perguntando se os EUA estão governando a Venezuela, o secretário afirmou que seu país está "direcionando o processo" para que as coisas avancem.
Linha do tempo dos principais acontecimentos até a captura de Maduro
Reunimos alguns dos momentos-chave desde a ascensão de Nicolás Maduro à presidência da Venezuela até sua captura pelos EUA no sábado (03/01).
2013: Maduro, ex-motorista de ônibus e líder sindical, assume a presidência após a morte do líder de esquerda Hugo Chávez
2020: Durante o primeiro mandato de Donald Trump, os EUA acusam Maduro e 14 membros de seu círculo íntimo de narcoterrorismo, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e corrupção. Oferecem também uma recompensa de US$ 15 milhões por informações que levem à prisão de Maduro.
2024: Maduro é declarado vencedor da eleição presidencial, embora a apuração dos votos realizada pela oposição sugira que seu candidato, Edmundo González, venceu com folga. Países como o Brasil não reconhecem a vitória de Maduro e pedem a divulgação plena de atas eleitorais pelo governo venezuelano.
2025: Em janeiro, os EUA aumentam a recompensa por informações que levem à prisão de Maduro para US$ 25 milhões. Essa recompensa foi dobrada pelo governo Trump em agosto, chegando a US$ 50 milhões.
Fevereiro de 2025: Donald Trump afirma, em uma publicação na rede Truth Social, que a Venezuela concordou em receber de volta migrantes que entraram nos Estados Unidos irregularmente.
Setembro de 2025: Os EUA lançam ataques no Caribe e no Pacífico contra o que alegam serem barcos usados pelo narcotráfico. Entre setembro e dezembro, mais de 100 pessoas foram mortas nos ataques.
Outubro de 2025: Trump autoriza a CIA (Agência Central de Inteligência) a conduzir operações secretas dentro da Venezuela. Maduro se dirige ao "povo dos Estados Unidos" em um pronunciamento televisionado, dizendo: "Não à guerra, sim à paz".
Janeiro de 2026: Os EUA atacam a Venezuela e capturam Maduro e sua esposa, Cilia Flores. O casal é levado para um centro de detenção em Nova York, onde são acusados de crimes relacionados a armas e drogas. Maduro já havia negado ser o líder de um cartel de drogas.
Papa Leão 14 afirma que bem-estar dos venezuelanos deve prevalecer
Um dia após a captura do presidente Nicolás Maduro por forças americanas, o Papa Leão 14 pediu que as necessidades dos venezuelanos sejam colocadas em primeiro lugar.
Em discurso para uma multidão no Vaticano após a oração de domingo, o Papa – que passou cerca de duas décadas como missionário no Peru – disse: "O bem do amado povo venezuelano deve prevalecer sobre qualquer outro fator".
Leão 14, o primeiro Papa dos Estados Unidos, ressaltou a importância de "garantir a soberania" da Venezuela e disse estar acompanhando a situação com "muita preocupação".
O pontífice acrescentou ser necessário que as nações "respeitem os direitos humanos e civis de cada pessoa e trabalhem juntas para construir um futuro pacífico de colaboração".
Crédito, MASSIMO PERCOSSI/EPA/Shutterstock
A retirada de Maduro por Trump é legal — e ele realmente pode governar a Venezuela?
A repórter Katie Williams perguntou a Marc Weller, diretor do programa de direito internacional do think tank Chatham House, sobre a legalidade da retirada de Maduro e se os Estados Unidos podem, de forma legal, “governar” a Venezuela — termo usado por Donald Trump ontem.
Segundo Weller, a posição dos EUA é a de que o país pode reivindicar jurisdição sobre crimes de tráfico de drogas e aplicar sua legislação penal, mesmo que o ato tenha sido cometido por um estrangeiro no exterior.
A questão, segundo ele, é se essa jurisdição foi “contaminada” pela forma como Maduro foi capturado, descrevendo a operação de ontem como uma “invasão armada”.
A posição americana, diz Weller, é a de que não importa como o suspeito é levado a julgamento, mesmo que isso ocorra por “meios internacionalmente ilegais”, como uma “abdução a partir de uma jurisdição estrangeira”.
A posição do direito internacional é diferente.
No direito internacional, afirma Weller, “não há justificativa legal para o uso da força”, seja para “prender um suspeito de tráfico de drogas” ou para “promover a democracia na Venezuela”. A única justificativa possível seria um mandato da ONU — que não foi concedido — ou a legítima defesa, acrescenta.
Enquanto isso, Weller classifica como “muito estranha” a proposta de que os EUA passem a governar a Venezuela. “É difícil encontrar uma categoria jurídica que descreva esse tipo de arranjo”, afirma. Por ora, segundo ele, não parece se tratar de uma ocupação armada, mas sim de uma “interferência política contínua”, respaldada pela “ameaça de uso adicional da força americana”.
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China pede libertação de Maduro em comunicado oficial
A China voltou a se manifestar neste domingo (4) e pediu que os Estados Unidos libertem imediatamente o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.
Em nota oficial, o governo chinês afirmou que a integridade física de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, deve ser garantida e cobrou de Washington o fim das ações para derrubar o governo venezuelano. “A China pede que os Estados Unidos garantam a segurança pessoal do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, os libertem imediatamente, parem de derrubar o governo da Venezuela e resolvam as questões por meio do diálogo e da negociação”, diz o comunicado, que classifica a operação americana como uma violação do direito internacional.
Essa foi a segunda reação formal da China desde o anúncio feito no sábado pelo presidente Donald Trump, que disse que Maduro e sua mulher haviam sido retirados do país. Na sexta-feira, Pequim já havia criticado os EUA por “condutas hegemônicas” e pelo “uso aberto da força”, defendendo o respeito à Carta da ONU.
'Situação está calma em Caracas, mas queremos viver sem medo', Shaun Ley, da BBC News
Uma moradora de Caracas, capital da Venezuela, disse à BBC News que as pessoas do país "querem só viver sem medo"
A mulher, que pediu para não ser identificada, disse ao programa Newshour, da BBC, que o clima nas ruas da cidade era de calma no sábado, "sem a presença visível de polícia ou Exército nas ruas".
Ela disse que havia um sentimento de "incerteza, mas sem quaisquer celebrações ou protestos".
A mulher entrevistada pela BBC afirmou ainda que o importante "não é o petróleo, mas a liberdade da Venezuela e um futuro melhor para nós".
"Ninguém teria escolhido esse caminho para uma transição política, mas algo precisava acontecer", disse ela.
Onde está Maduro agora e o que acontecerá com ele?
Após sua prisão na Venezuela, Nicolás Maduro foi levado de Caracas em um helicóptero até o navio da Marinha americana USS Iwo Jima, onde ele foi mostrado em uma foto postada pelo presidente Donald Trump em sua rede Truth Social.
Crédito, @realDonaldTrump/Reuters
Legenda da foto, Maduro a bordo de navio americano em foto postada por Donald Trump
Ele foi levado então a Nova York via Cuba, onde os EUA mantêm a base de Guantánamo.
Após chegar a Nova York, ele foi levado aos escritórios da agência antidrogas americana (DEA). O vídeo abaixo mostra ele chegando aos EUA escoltado por agentes da DEA.
Legenda do vídeo, Maduro aparece algemado em vídeo postado pela Casa Branca
Maduro foi então transferido para o centro metropoliano de detenção, no bairro do Brooklyn.
O presidente venezuelano deve aparecer em um tribunal para responder por acusações relacionadas a drogas e armas. Espera-se que isso possa acontecer já na segunda-feira.
Maduro negou ser líder de um cartel de narcotráfico, como acusam os Estados Unidos.
Petróleo será chave para o futuro da Venezuela, Marc Ashdown, repórter de Negócios da BBC News
Donald Trump deixou claro que quer acesso dos Estados Unidos aos campos de petróleo da Venezuela.
As reservas venezuelanas de petróleo são estimadas em mais de 300 bilhões de barris - as maiores do mundo.
As reservas são de petróleo pesado, mais caro e difícil de extrair, mas ainda assim a Venezuela permanece como o quinto maior exportador mundial da commodity.
Mesmo com um número cada vez maior de embarcações da Marinha americana estacionadas no Caribe, quase um milhão de barris por dia foram enviados no mês passado para a China, ao sul da Europa e aos Estados Unidos.
A produção foi abalada nos últimos anos pela instabilidade política. E por décadas, a empresa petroleira estatal, a PDVSA, foi abalada por greves e acusações de padrões de segurança falhos.
Os Estados Unidos acusaram o presidente Nicolás Maduro de usar o dinheiro do petróleo para financiar o tráfico de drogas. Maduro acusou o governo americano de querer controlar as reservas de petróleo venezuelanas.
Os campos de petróleo parecem ter escapado de quaisquer danos pelos ataques aéreos americanos até agora, mas o que quer que o futuro reserve para a Venezuela, sua indústria do petróleo deve desempenhar um papel chave.
Crédito, EPA / Shutterstock
Legenda da foto, Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo
Imagens de satélite mostram estragos em complexo militar em Caracas
Novas imagens de satélite capturadas pela empresa Vantor e analisadas pelo BBC Verify, serviço de verificação da BBC, mostram danos a uma série de edificações em um importante complexo militar de Carcas após a ação americana na madrugada do sábado (03/01).
As imagens permitem comparar a situação do Forte Tiuna entre o dia 22 de dezembro e o sábado.
Ao menos seis estruturas dentro do complexo parecem ter sofrido danos extensos.
Em uma das imagens, que mostra o lado norte do complexo, é possível ver fumaça saindo de uma grande estrutura com telhado vermelho, com três edificações próximas mais ao sul totalmente destruídas.
Crédito, Vantor
Legenda da foto, Imagem mostra lado norte do Forte Tiuna antes da ação americana
Crédito, Vantor
Legenda da foto, Imagem mostra lado norte do Forte Tinua após o ataque
Outra imagem, que mostra o lado oeste do complexo, indica danos a dois edifícios, com fumaça negra saindo do local.
Você pode conferir nas duas imagens abaixo.
Crédito, Vantor
Legenda da foto, Imagem mostra o lado oeste do Forte Tiuna antes do ataque
Crédito, Vantor
Legenda da foto, Imagem mostra o lado oeste do complexo depois da ação americana
O Forte Tiuna é um dos maiores complexos militares venezuelanos e abriga várias organizações importantes responsáveis pela defesa do país.
Análise: 'Mudança de rumo brusca para Trump', Anthony Zurcher, correspondente da BBC News para a América do Norte
Com seu ataque à Venezuela, Donald Trump parece estar se envolvendo no negócio de construir países.
Em sua chamativa entrevista coletiva neste sábado, disse que uma equipe formada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, em colaboração com venezuelanos, tomaria o controle da Venezuela.
"Vamos governar o país até que possamos promover uma transição segura, adequada e criteriosa", afirmou.
Não está claro o que significa exatamente "governar o país", mas esta promessa supõe uma mudança brusca de rumo para Trump.
Um presidente que fez campanha contra as "guerras eternas", que criticou duramente os esforços americanos do passado para mudar regimes estrangeiros e que prometeu implementar uma política externa baseada no lema "EUA em primeiro lugar", agora está apostando suas fichas na reconstrução com sucesso de uma nação sul-americana cuja economia está em ruínas e cuja estabilidade política está abalada.
Ele também se negou a descartar o envio de tropas americanas à Venezuela. "Não temos medo de enviar tropas terrestres... ontem já as enviamos", disse.
Trump, um vigoroso crítico da invasão americana ao Iraque, agora terá que prestar atenção às palavras de um dos artífices da guerra do Iraque, o ex-secretário de Estado Colin Powell (morto no ano passado): "Se você quebra, você paga".
Crédito, EPA/Shutterstock
Legenda da foto, Donald Trump, ao lado do secretário de Estado, Marco Rubio, durante entrevista coletiva sobre ação na Venezuela
Espaço aéreo do Caribe é reaberto
As restrições de voo sobre o espaço aéreo do Caribe foram levantadas à 0h da costa leste dos Estados Unidos (2h de Brasília), segundo o secretário de Transportes americano, Sean Duffy.
Os EUA haviam limitado o acesso ao espaço aéreo sobre o Caribe no sábado (03/01), após os ataques em grande escala à Venezuela, provocando o cancelamento de centenas de voos.
"As companhias aéreas estão informadas e atualizarão rapidamente seus horários. Por favor, continuem lidando com suas companhias se seu voo foi afetado pelas restrições", escreveu Duffy em postagem nas redes sociais,
American Airlines, Delta, Spirit Airlines e JetBlue Airways estiveram entre as companhias afetadas pelas ordens da agência federal americana de aviação.
No Brasil, a Latam e a Azul haviam anunciado suspensão de voos para Curaçao e Aruba após os ataques.
A Gol também reiterou que seus voos entre São Paulo e Caracas, paralisados desde dezembro, continuarão suspensos por tempo indeterminado.
Como é o centro de detenção em NY onde estaria Maduro
Vários meios de comunicação americanos afirmaram que o presidente venezuelano Nicolás Maduro chegou na noite do sábado (03/01) ao Centro de Detenção Metropolitano (CDM) do Brooklyn, em Nova York, após ser capturado por forças americanas.
Entende-se que ele permanecerá detido ali até começar a ser julgado por acusações relacionadas com narcotráfico e tráfico de armas na corte federal de Manhattan a partir da próxima semana.
Não se sabe ainda se a mulher de Maduro, Cilia Flores, capturada ao seu lado na operação americana, também foi levada ao CDM do Brooklyn.
O CDM é a única prisão federal da cidade de Nova York e é conhecida por abrigar a muitos dos protagonistas de casos de grande repercussão midiática, como o rapper R. Kelly, a namorada de Jeffrey Epstein, Ghislaine Maxwell, e mais recentemente o também rapper Sean "Diddy" Combs.
A prisão também é conhecida por suas duras condições e várias denúncias de violência e supervisão inadequada. Entre as acusações, estão a de um acusado que supostamente não recebeu atendimento médico após receber múltiplas facadas, mas permaneceu ferido em sua cela por 25 dias.
Crédito, Reuters
Legenda da foto, Venezuelano celebra captura de Maduro em frente ao CDM do Brooklyn
Governo Lula vê cenário incerto no comando da Venezuela em meio a novo ultimato dos EUA à vice de Maduro
O governo Luiz Inácio Lula da Silva disse reconhecer a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, como atual governante do país após a captura de Nicolás Maduro pelos EUA.
A declaração foi feita por Laura da Rocha, Secretária-Geral das Relações Exteriores, após reunião com o presidente Lula e outros integrantes do governo no Itamaraty para discutir a situação no país vizinho.
Lula, que condenou a ação contra Maduro, participou virtualmente da conversa, pois está no Rio de Janeiro, onde passou a virada do ano.
Nos bastidores, no entanto, o Planalto ainda tenta coletar informações sobre a situação atual na cúpula de poder da Venezuela e diz que Delcy Rodríguez tenta negociar com Washington e que dessa negociação depende sua permanência no poder.
"Ela só fica [no poder] se der o que eles [EUA] querem", disse à BBC News Brasil uma fonte que acompanha as discussões do tema.
Segundo essa fonte, as negociações continuam, mas se sabe que os EUA fizeram pedidos considerados "inaceitáveis" a Caracas.
Para um diplomata brasileiro que também acompanha a situação da Venezuela, não estaria claro para o Palácio do Planalto qual é o plano dos Estados Unidos para a Venezuela sem Maduro, apesar das declarações oficiais.