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'Toy Story 5': o filme mais traumático do ano — para os pais
- Author, Nicholas Barber
- Role, BBC Culture
- Published
- Tempo de leitura: 5 min
A nova animação da Pixar, Toy Story 5, deveria ter sua própria classificação exclusiva: não recomendado para pais.
Qualquer pessoa que tenha uma criança em idade escolar encontrará tantos gatilhos no filme que, se não houver algum tipo de alerta, seus lamentos poderão obscurecer a melancólica canção de Taylor Swift dos créditos finais.
A mais recente continuação da franquia Toy Story gira em torno de Bonnie (com voz em inglês de Scarlett Spears).
Ela tem cerca de oito anos de idade e gosta de brincar com Jessie (Joan Cusack), Buzz Lightyear (Tim Allen) e seus outros brinquedos. Mas Bonnie é muito tímida e se sente desconfortável para fazer amigos de carne e osso.
Seus pais decidem comprar para ela, mesmo contrariados, um tablet chamado Lilypad (Greta Lee). Assim, ela poderá ter acesso aos jogos online que reúnem as meninas da sua aula de dança.
Esta é uma decisão preocupante para os brinquedos. Eles receiam que a tecnologia digital os tenha deixado obsoletos.
E a nova situação é ainda mais estressante para os pais de Bonnie. Eles receiam estar expondo a menina ao risco de abusos online, mas também não querem que ela seja socialmente marginalizada.
O roteiro é incrivelmente oportuno, já que o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, anunciou no dia 15 de junho a proibição de redes sociais para menores de 16 anos no país, a partir de janeiro de 2027.
O Reino Unido segue os passos da Austrália, o primeiro país a transformar a proibição em lei, no ano passado.
As animações da Pixar levam anos para serem escritas e produzidas. Por isso, elas normalmente não são tão atuais.
E, se você tiver filhos, como eu, poderá se sentir pessoalmente atacado pelo roteiro.
Por isso, esqueça Obsessão e Backrooms: Um Não Lugar. O filme de terror mais apavorante do ano é Toy Story 5 — pelo menos, para os pais.
O tema favorito da Pixar
Não que esta seja uma guinada radical para o estúdio. Afinal, as dificuldades de ser criança — e de ser um adulto que cuida daquela criança — são o tema favorito da Pixar.
Seja com um pai preocupado com o primeiro dia do filho na escola (Procurando Nemo, 2003) ou com uma menina perplexa com a sua mudança para uma nova cidade (Divertida Mente, 2015), vários dos melhores filmes da Pixar parecem ter sido elaborados precisamente para fazer os pais se sentirem culpados e inadequados.
É por isso que o estúdio tem o poder de nos atingir direto no estômago, algo de que seus concorrentes não chegam nem perto.
A diferença em relação a Toy Story 5 é que seus principais personagens são seres humanos comuns.
A maioria dos filmes da Pixar usa entidades mágicas como substitutos para os pais hostilizados, como as emoções em Divertida Mente e os brinquedos nos filmes anteriores de Toy Story. Ou eles amenizam a carga emocional, mostrando pais que são peixes (Procurando Nemo) ou super-heróis (Os Incríveis, 2004).
Especificamente na série Toy Story, as crianças tendem a ser personagens menores, que levam a vida alegremente, enquanto os brinquedos têm crises existenciais porque ninguém mais brinca com eles.
A propósito, existe muito disso em Toy Story 5. Talvez esteja na hora de Jessie parar de reclamar e seguir com a própria vida.
Mas este é o único desenho da Pixar que se detém por tanto tempo em crianças humanas comuns que vivem uma solidão esmagadora, enquanto seus pais se desesperam para descobrir como poder ajudar.
A cena chave vem logo no início, quando Bonnie pergunta aos seus pais: "Por que ninguém quer ser meu amigo?"
Talvez eu precise assistir a algo mais relaxante para me recuperar desta tomada. Um filme como Extermínio: O Templo dos Ossos, por exemplo.
Provocador
Isso não significa que Toy Story 5 seja o melhor episódio da franquia.
Em comparação com a inigualável trilogia inicial (1995-2010), a nova produção não traz as mesmas brincadeiras hilárias e sequências vertiginosas. E ainda se arrasta com personagens em excesso e um roteiro complicado.
Existe uma sequência inteira, com cerca de 50 Buzz Lightyears idênticos viajando juntos pelo país, que poderia ter sido facilmente excluída. Talvez se tenha decidido que, sem algumas bobagens alheias à história central, a angústia de Bonnie seria insuportável para os espectadores — especificamente para os adultos, na verdade.
O que sobra é um fracasso fascinante. Toy Story 5 é um dos filmes mais confusos da Pixar e não consegue condenar totalmente as redes sociais e os dispositivos digitais.
Com tantos aplicativos e videogames da Disney no mercado, seus roteiristas podem ter sido cautelosos para não serem tão negativos. Mas, ao abordar abertamente as dores e inseguranças dos jovens, esta pode ser a produção mais provocadora da história do estúdio.
Talvez esteja na hora da Pixar deixar de lado os bonecos, figuras de ação e outras coisas de criança e fazer uma animação simplesmente sobre seres humanos.
Toy Story 5 está em cartaz nos cinemas brasileiros.
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.