Coronavírus na China: a escritora que relatou a vida em Wuhan e despertou a ira dos nacionalistas

Fang Fang

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Escritora Fang Fang escreveu em seu diário desde os desafios que enfrentaram nos primeiros dias até o impacto mental da quarentena
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Tempo de leitura: 5 min

Foi o ponto de partida da crise que abalou o mundo e Fang Fang forneceu uma visão única do que aconteceu por lá.

A aclamada escritora de 64 anos, cujo nome verdadeiro é Wang Fang, escreveu um diário digital de Wuhan, a cidade chinesa onde a covid-19 foi detectada pela primeira vez, em dezembro do ano passado.

Seus textos relatando os primeiros dias de confinamento rígido ganharam rapidamente a atenção local e seu diário acabou traduzido para o inglês, o que provocou uma onda de críticas na internet, e também a fúria da imprensa estatal chinesa.

Alguns até a chamaram de "traidora", pois acreditam que sua história servirá como argumento para os críticos do país em meio à crescente guerra retórica entre os Estados Unidos e a China sobre o coronavírus.

A autora, que recebeu o prêmio literário de maior prestígio na China em 2010, considerou essas acusações "infantis".

"Não há tensão entre o país e eu", disse Wang em entrevista publicada pela prestigiada revista chinesa Caixin, na qual critica o contínuo cyberbullying que sofreu nos últimos meses.

Diário digital

Quando o governo chinês impôs o confinamento em Wuhan no fim de janeiro, Fang Fang começou a documentar o que era visto como uma crise local, até então.

No início deste ano, Wuhan se tornou o primeiro lugar no mundo a confinar sua população, algo que depois se tornou realidade em diversas outras cidades ou até países inteiros no mundo.

Em seu diário, a autora relatou os desafios da vida cotidiana e o impacto psicológico do isolamento forçado.

Mas ela também abordou aspectos mais delicados no país, onde a censura prevalece nas publicações na Internet e na mídia: Fang Fang falou do caso do médico Li Wenliang, repreendido pela polícia por alertar seus colegas sobre uma "doença desconhecida". "Ele morreu devido à covid-19, buscando apontar responsabilidades pelo que aconteceu."

Os textos de Fang Fang foram amplamente lidos na China, oferecendo a milhões de cidadãos sua perspectiva sobre o que estava acontecendo no epicentro da doença.

À medida que o confinamento aumentava, a popularidade de Fang Fang cresceu e seu tradutor, Michael Berry, sugeriu que ela trabalhasse em uma versão em inglês do diário, como ela própria explicou na entrevista publicada pela revista.

Apesar de sua relutância em fazê-lo inicialmente devido à delicada situação em Wuhan, Fang concordou quando a cidade superou o pior da crise e começou a entrar na "nova normalidade".

A editora HarperCollins, que encomendou a edição no exterior, diz que "deu voz aos medos, frustrações, raiva e esperanças de milhões dos compatriotas (de Fang Fang)".

"Ela também se manifesta contra a injustiça social, abuso de poder e outros problemas que dificultam a resposta à epidemia e acabam envolvidos em polêmicas online sobre o assunto."

Rua em Wuhan

Crédito, AFP

Legenda da foto, Wuhan começou a voltar ao normal após dias de quarentena rigorosa

Críticas

O "cibernacionalismo" é um fenômeno comum nas redes sociais na China.

Milhares de usuários estão prontos para atacar toda vez que a China é criticada, humilhada ou submetida a qualquer forma de insulto. E Fang Fang não é a primeira a sofrer com isso.

Nesse caso, como o vírus continuou a se espalhar pelo mundo, também aumentou a cobrança de uma resposta da China à epidemia, principalmente dos Estados Unidos.

Isso fez com que muitos usuários ficassem na defensiva, em linha com a imprensa estatal.

De acordo com o site de notícias especializadas What's on Weibo, "foi então que a opinião pública deu as costas a ela, ao saber que uma edição internacional de seu diário estava sendo oferecida na pré-venda pela Amazon ".

"Aos olhos de muitos usuários chineses, uma tradução do testemunho crítico de Fang Fang sobre o que aconteceu em Wuhan durante a epidemia servirá apenas para dar mais munição aos oponentes da China", afirmou o portal.

A autora sofreu fortes críticas, com algumas até considerando que "ela estava usando sua fama para capitalizar uma tragédia ".

"Ela está aproveitando esse momento de crise nacional e está lucrando. Isso é desprezível", disse um usuário da rede social Weibo.

A raiva contra a escritora é alimentada pelo fato de o livro ter sido publicado pela editora americana HarperCollins, em um momento de crescente tensão entre Washington e Pequim.

Testes para covid-19 em Wuhan

Crédito, AFP

Legenda da foto, Autoridades chinesas implementaram medidas muito rígidas e usaram ferramentas tecnológicas controversas para controlar infecções.

A imprensa estatal chinesa também deixou bem clara sua posição sobre Fang Fang.

"Sua ascensão global alimentada pela mídia estrangeira levantou temores na China de que a escritora poderia simplesmente se tornar outra ferramenta útil para o Ocidente sabotar os esforços do povo chinês", disse uma nota no jornal oficial Global Times.

"O diário dela mostra apenas o lado sombrio de Wuhan, ignorando os esforços dos cidadãos locais e o amplo apoio em todo o país", acrescenta.

'Nem tudo é conspiração'

Fang Fang não se deixou abalar pelas críticas.

"Se as pessoas com segundas intenções no exterior quiserem usar o livro dessa maneira deliberadamente, o farão de qualquer maneira. Devemos deixar de publicá-lo simplesmente porque alguém quer usá-lo de maneira inadequada?", questionou ela.

"Nem tudo é uma conspiração. Sou idosa e não consigo nem ler em outros idiomas. Se as pessoas no exterior quiserem criar uma trama, seria melhor se elas conspirassem com outra pessoa mais forte, certo?"

A autora lamentou a atitude que encontrou no meio da crise que afetou Wuhan e o mundo inteiro. "Quando um registro tão moderado não pode ser tolerado e desperta o ódio de tanta gente, isso faz com que inúmeras pessoas fiquem em um estado de medo."

Uma passageira em Wuhan

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Wuhan foi onde tudo começou

Como o livro foi avaliado?

Ainda é difícil saber o que críticos e especialistas pensam, uma vez que o livro foi publicado na sexta-feira passada.

O jornal americano The New York Times destacou sua "honestidade crua", dizendo que "ela pôde ter vivido com resignação durante a quarentena, mas escreve frases corajosas".

A emissora de rádio americana NPR ressalta que o diário é "um documento sobre o trivial, trágico e absurdo em Wuhan durante os 76 dias de confinamento", mas lamenta que a tradução em inglês seja incapaz de "capturar a multidimensionalidade" presente na publicação original em chinês.

Na Amazon, no entanto, o livro recebeu várias críticas negativas, uma das quais diz que o texto oferece "informações totalmente falsas".

Por outro lado, um usuário elogiou a obra, dizendo que "ela fornece uma janela para ver como era viver em uma cidade que estava sendo observada em todo o planeta".

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