A epidemia de violência contra professores no Brasil: 'Fui ameaçada de morte pelo pai de um aluno de 6 anos'

Uma professora escreve com giz na lousa as letras do alfabeto em letras de forma

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Mais de 65% dos professores brasileiros dizem já ter sofrido alguma forma de agressão na sala de aula ou ambiente escolar, diz pesquisa
  • Published
  • Tempo de leitura: 12 min

A professora Marta não consegue esquecer o que ela descreve como a situação mais agressiva pela qual passou em seus 50 anos de vida e 26 de magistério. Em março de 2023, ela foi ameaçada de morte pelo pai de um aluno do 1º ano do ensino fundamental.

"Ele ligou na escola e falou que 'ia matar aquela vagabunda'", lembra a professora de uma escola municipal da Zona Oeste de São Paulo, que preferiu ter seu nome verdadeiro preservado nesta reportagem.

"Como onde trabalhamos é uma comunidade, essas coisas não podem ser negligenciadas, porque a lei ali é diferente."

Ela conta que o pai do aluno era conhecido por "ter um certo cartaz na comunidade" (ou seja, ter envolvimento com o crime, ela explica) e estava insatisfeito com a performance escolar do filho, que, com 6 anos, tinha dificuldade para entender a lição de casa e não estava se adaptando bem à transição do ensino infantil para o fundamental. A família culpava a professora pelos problemas.

Marta soube da ameaça de morte pela coordenadora da escola, quando estava já em seu segundo emprego, em outra escola da região. Naquela noite, ela conta que fez um boletim de ocorrência na polícia, acompanhada apenas pelo marido.

"Passei a noite na delegacia e me senti muito sozinha, não teve ninguém da gestão junto comigo", relata a professora.

"No dia seguinte, eu não podia voltar à escola, então fui ao médico. Contei todo o ocorrido à psiquiatra, e ela me afastou imediatamente."

Com medo, Marta optou por não representar criminalmente contra o agressor. A Prefeitura a afastou da escola onde ocorreu o fato, e ela completou o ano letivo em outra unidade.

"Então, minhas perdas não foram tantas, mas meu problema psicológico foi horroroso, porque eu não sabia com quem eu estava lidando", diz a professora, que mora próximo à comunidade onde fica a escola.

"O meu quarto tem uma vidraça na frente, e eu cheguei a pedir para meu marido para trocar de quarto, porque achava que poderia sofrer alguma agressão. Fiquei com pânico de dormir."

O caso da professora paulistana não é um fato isolado. Uma pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 professores revela que 65% dos entrevistados afirmam já ter sofrido algum tipo de agressão em sala de aula ou no ambiente escolar.

A violência verbal é a mais comum, representando 71% das agressões, seguida pela psicológica e moral (58%), a institucional (27%) e a física (19%).

O Brasil também lidera o ranking de violência contra professores em levantamento feito em 2024 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que ouviu 280 mil professores e diretores de escola de 55 países.

No país, 47% dos professores relatam ser intimidados ou abusados ​​verbalmente por alunos como uma fonte de estresse, ante uma média global de cerca de 18%.

O tema da violência contra educadores voltou ao debate público após o caso da professora Michele Ramos, de São José dos Campos, que registrou um boletim de ocorrência depois de alunos colocarem uma lâmina de vidro em seu copo de água durante a aula em uma escola municipal.

A BBC News Brasil procurou a Secretaria de Educação e Cidadania de São José dos Campos para saber as providências tomadas em relação ao caso, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Capturas de tela de vídeo gravado pela professora Michele Ramos. Ela tem cabelos ruivos e usa óculos grandes. Aparece chorando nas imagens

Crédito, Reprodução/Instagram

Legenda da foto, A professora Michele Ramos, de São José dos Campos, registrou um boletim de ocorrência após alunos colocarem uma lâmina de vidro em seu copo de água

Múltiplas formas de violência

A psicóloga Renata Paparelli, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), trabalha com o atendimento clínico de professores vítimas da violência da rede municipal de São Paulo.

Ela afirma, a partir de sua experiência, que os professores estão sujeitos a múltiplas formas de violência em seu cotidiano. "Costumamos dizer que tem a violência da escola, a violência na escola, e a violência contra a escola", diz Paparelli.

A violência da escola, explica a psicóloga, é a que resulta de políticas públicas pouco afeitas às características da população a ser atendida.

"Elas vêm de cima para baixo, incorporando projetos sem oferecer as mínimas condições para a realização deles", diz a psicóloga.

"Um dos exemplos, na maior parte das escolas ou em muitas escolas, são os projetos de inclusão dos PCDs [pessoas com deficiência] nas salas de aula regular. Longe de ser contra essa ideia, mas sabemos todos que é preciso que haja condições para essa implantação."

A violência na escola é a mais conhecida e que, com alguma frequência, chega ao noticiário, diz Paparelli. "São os alunos contra os educadores, e também a gestão pouco aberta ou impotente diante das demandas dos educadores", exemplifica.

Por fim, a violência contra a escola abrange as depredações do patrimônio escolar e a desvalorização da escola como instituição importante para a educação de crianças e adolescentes. "A escola e seus educadores vêm ganhando cada vez menos espaço prestigiado [na sociedade]", observa.

O Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es da Universidade Federal Fluminense (Onve-UFF) tem ainda acompanhado nos últimos anos o avanço da perseguição contra professores, uma forma de violência que se expressa em práticas como censura, tentativas de intimidação, exposição nas redes sociais e assédio jurídico.

Segundo estudo realizado pelo grupo com mais de 3 mil educadores, 61% dos professores da educação básica e 55% do ensino superior dizem já ter passado por esse tipo de violência.

Criança autista com o cordão colorido que indica a condição colorindo com canetinhas

Crédito, Prefeitura de Belém

Legenda da foto, Falta de estrutura adequada para atender alunos com deficiência é apontada por especialista como uma das formas de violência nas escolas públicas

Soco no peito e dedo decepado

Citada pela professora da PUC-SP como uma das formas de violência no ambiente escolar, a falta de estrutura e pessoal suficiente para atender aos alunos com deficiência na educação regular pública está no centro de alguns dos episódios de violência física vivenciados por professores.

Pedro, de 40 anos e professor em uma escola municipal no bairro de Santana, na Zona Norte de São Paulo, foi agredido com um soco por um aluno com autismo.

O caso ocorreu em 2024, em um dia em que o grêmio da escola realizava uma atividade sobre o Dia do Orgulho LGBTQIAP+.

"Era um aluno com deficiência, mas que tinha esses acessos de agressão, e não sabemos exatamente, mas parece que ele frequentava esses fóruns de extrema direita, e tinha muito ódio quando se falava sobre questões como feminismo, orgulho LGBT, etc", conta Pedro, que teve sua identidade preservada nesta reportagem.

"Ele foi para cima das alunas que estavam realizando a atividade, eu intervi para evitar que elas fossem agredidas, e acabei tomando um soco", lembra o professor. "Os alunos e inspetores depois ajudaram a contê-lo."

"Quando cheguei em casa e fui tomar banho, vi a marca da mão dele no meu peito. Eu fiquei bem, bem triste."

Pedro fez um relato do episódio à escola e recebeu a opção de se afastar com uma Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), documento enviado ao INSS para informar sobre doenças ocupacionais e acidentes de trabalho.

"Mas eu pensei 'não, vou encarar e voltar'. Porque, muitas vezes, quando acontecem esses casos de colegas que são afastados por essas situações, fica difícil voltar depois."

Pessoas caminham sobre faixa de pedestre pintada com as cores da bandeira LGBT

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Atividade sobre o Dia do Orgulho LGBTQIAP+ gerou reação de aluno autista e resultou em agressão contra professor em escola na Zona Norte de São Paulo

A professora Michelle Bernardes está nesse momento afastada há quase três meses, após um episódio ainda mais grave do que o de Pedro, e também envolvendo um aluno com deficiência.

Educadora em uma escola municipal na Zona Leste de São Paulo, ela teve o dedo médio da mão direita parcialmente decepado em sala de aula, enquanto tentava organizar a turma em que um aluno com deficiência intelectual passava por uma crise de desregulação emocional, atirando carteiras e cadeiras ao chão.

"Para protegê-lo e proteger os estudantes que estavam na sala, e os estudantes que estavam fora, no corredor, eu fui para a porta da sala de aula segurar, ficar ali, e orientar os estudantes", contou Michelle, em vídeo publicado no Instagram.

Em meio à confusão, o estudante chutou a porta da sala de aula, que bateu na mão da professora, resultando na amputação de um de seus dedos.

"Eu pensei, 'caramba, quebrei meu dedo'. Mas não foi só uma quebra, ele foi de fato decepado. Não sei como não desmaiei, mas estava preocupada com o estudante que precisava de regulação e com os demais, que estavam apavorados", relatou a professora.

"Uma estudante conseguiu pegar o resto do dedo no chão e me deu, fomos para a UBS do lado da escola, que me atendeu com todo cuidado", completou.

Agora, Michelle se recupera após passar por duas cirurgias e aguarda que o dedo ferido cicatrize para poder começar a fisioterapia e devolver alguma funcionalidade ao que restou do membro parcialmente amputado.

"Então, passo por uma dor individual, que estou tendo que trabalhar comigo, e uma dor coletiva, pois não desejo que nenhum estudante e nenhum educador passe pelo o que eu estou passando", diz a professora, à BBC News Brasil.

Michelle Bernardes fotografada do pescoço para baixo, com o dedo enfaixado após incidente que resultou na amputação parcial do membro. Ela veste uma camiseta preta onde se lê em letras brancas "Lute como uma garota"

Crédito, Reprodução/Instagram

Legenda da foto, A professora Michelle Bernardes teve um dedo decepado após um aluno com deficiência que passava por uma crise de desregulação chutar a porta da sala de aula

"O estudante não tem culpa por ter se desregulado, é um estudante com deficiência", afirma.

"Mas precisamos urgentemente de políticas públicas que incentivem e auxiliem com qualidade a presença de todos os estudantes nas escolas, inclusive os estudantes com deficiência, os estudantes autistas, os estudantes neurodivergentes."

Questionada sobre como responde aos casos de violência contra professores, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo afirmou que "promove a cultura de paz e a prevenção das violências nas unidades educacionais por meio de iniciativas como o Programa Entre Nós, as Comissões de Mediação de Conflitos (CMCs) e ações formativas em parceria com o Instituto Vladimir Herzog".

Quanto às críticas à falta de estrutura nas escolas para atendimento aos alunos com deficiência, a pasta disse em nota que "fortalece a educação inclusiva com a ampliação de professores especializados e de apoio à inclusão nas 13 Diretorias Regionais de Educação (DREs)". E que o número de Auxiliares de Vida Escolar (AVEs, profissionais que prestam apoio a alunos com deficiência) aumentou 144% na rede a partir de abril deste ano, somando atualmente 2.937 profissionais.

Os efeitos da violência na saúde mental dos professores

Renata Paparelli, da PUC-SP, observa que os professores sujeitos à violência sofrem de problemas de saúde mental diversos, como burnout (esgotamento em resposta ao estresse crônico no ambiente de trabalho), depressão e transtorno do estresse pós-traumático.

"O transtorno do estresse pós-traumático está relacionado com a violência e com a ameaça continuada de violência, ou com a violência explícita nessa violência física", afirma.

"São muitos casos que recebemos de educadoras que sofreram violência de alunos, quer seja mordida, arremesso de materiais, ameaças explícitas, ameaças veladas, bem como ameaças de familiares ou da gestão da escola", relata.

"A violência psicossocial continuada — a bronca, o grito — também pode desencadear quadros de estresse pós-traumático e está relacionada com casos de burnout, na medida em que o professor é colocado numa situação muitas vezes na rede pública, em que ele tem que dar conta de tudo, em instituições em que tudo falta. É a violência da falta de condições de trabalho."

Professora em sala de aula vazia

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Professores vítimas de violência sofrem com burnout, depressão, ansiedade e transtorno do estresse pós-traumático

A psicóloga observa que, não à toa, os professores estão entre as categorias profissionais que mais se afastam do trabalho por problemas de saúde mental.

Números obtidos pelo Centro do Professorado Paulista referentes apenas aos professores estatutários (aqueles aprovados em concurso público para a carreira do magistério) da rede estadual de São Paulo revelam que, em 2024, foram concedidas mais de 42 mil licenças por transtornos mentais e comportamentais para professores, ou mais de 115 por dia.

Em 2025, até o mês de setembro, foram mais de 25 mil licenças por problemas de saúde mental, segundo os dados da Secretaria de Gestão e Governo Digital do Governo do Estado de São Paulo.

Paparelli diz que a trajetória dos professores vítimas de violência em geral começa com afastamentos por períodos curtos.

"Mas, depois, esses afastamentos já não dão mais conta. Aí começam os afastamentos mais prolongados, até o quadro de readaptação funcional", observa.

A readaptação funcional é um direito do professor que, por algum problema de saúde, não pode mais trabalhar em sala de aula, passando a exercer outras funções dentro da escola.

"Mas é muito comum que essas pessoas não tenham nada para fazer. A pessoa está mal de saúde mental e é condenada ao isolamento e à humilhação cotidiana de não fazer nada", diz a psicóloga.

Em relação à saúde mental dos professores, a Secretaria Municipal de Gestão de São Paulo afirma que realizou 55 grupos de avaliação entre 2025 e 2026, com a participação de 1.043 servidores.

Ainda segundo a pasta, "no mesmo período, o Programa de Orientação e Proteção em Saúde Mental dos Servidores (Rede Somos) acolheu 720 servidores e promoveu 2.228 ações de saúde."

'É preciso estreitar laços entre escola e comunidade'

Diante desse quadro, as soluções para o problema da violência contra professores dividem representantes da categoria.

O Centro do Professorado Paulista, por exemplo, defende uma atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para que alunos possam ser responsabilizados em casos de violência.

"Temos que entender que o ECA é de 1990, e a criança e o adolescente de 1990 são diferentes da criança de hoje", argumenta Ana Carolina Soares, advogada do CPP.

"Tem que existir algum tipo de limite para o aluno dentro da unidade escolar, em proteção do professor", diz Soares, que defende ainda a corresponsabilização dos pais.

Roberto Guido, presidente interino da Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), vê a proposta de mudança do ECA com descrença e avalia que, para reduzir a violência, é preciso melhorar as condições de trabalho dos educadores e estreitar laços entre escola e comunidade.

Roberto Guido, um homem de meia idade, vestindo um boné de couro e jaqueta, ambos na cor marrom, com uma camiseta laranja por baixo. Ele sorri para a câmera e tem uma barba rala grisalha

Crédito, Reprodução/Facebook

Legenda da foto, 'A ausência de diálogo com as comunidades contribui muito com o aumento da violência nas escolas', diz Roberto Guido, presidente interino da Apeoesp

"A escola não é uma ilha, portanto, a violência que assistimos no conjunto da sociedade também está presente na escola", diz Guido.

"A ausência de diálogo com as comunidades contribui muito para o aumento da violência nas escolas. Quando você tem uma escola integrada na comunidade, esses problemas de violência e indisciplina são minimizados."

Renata Paparelli, da PUC-SP, tem avaliação similar. "Uma escola precisa de equipe e de condições de trabalho, precisa de uma quantidade razoável de alunos por sala, com professores que possam também ter uma jornada de trabalho razoável e não indecente, para que consigam estabelecer relações com a comunidade, e possam pactuar não violência com a comunidade", afirma.

"O que a gente vê, dadas as condições extremamente precarizadas de trabalho docente, é uma estrutura escolar que alimenta esse abismo entre os educadores e a comunidade — tanto as famílias, quanto os estudantes. Uma escola que vai perdendo sentido para os estudantes."

Ela alerta ainda que a violência contra professores não é uma exclusividade da escola pública.

"Na escola particular não temos muitos dados, porque você não entra nas escolas particulares para fazer pesquisa. Mas precisamos evitar a impressão de que a rede pública é complicada e a rede privada é uma maravilha — só não temos muitos dados da rede privada por conta dessa característica."