As críticas de Laura Cardoso aos rumos das novelas: 'Você não pode me cortar para fazer um close da bonitinha'

Crédito, Globo/Matheus Malafaia
- Author, Tom Cardoso
- Role, De São Paulo para a BBC News Brasil
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Morreu na noite de segunda-feira (17/08), aos 98 anos, a atriz Laura Cardoso, um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira.
Com oito décadas de carreira e mais de 60 novelas encenadas, será lembrada por papéis como Isaura, a mãe das gêmeas Ruth e Raquel em Mulheres de Areia (1993); e a médium Guiomar, em sua inesquecível interpretação em A Viagem (1994).
Na longa trajetória, Laura Cardoso, conhecida por seu forte senso crítico, sentiu as mudanças do tempo. Mais velha, criticou os impactos da tecnologia e a priorização de rostos bonitos nas novelas.
Recusou-se a submeter a tratamentos estéticos invasivos para parecer mais jovem e, com isso, ampliar as possibilidades de trabalho.
"Essa é a minha cara, feia ou bonita, é minha. Tô nem aí", declarou ao jornal O Globo em abril de 2024, a meses de completar 97 anos.
Morta por causas naturais, Laura dividia a rotina entre o apartamento no bairro de Perdizes, na capital paulista, e o sítio em Itu, interior de São Paulo.
Apesar de afastada da televisão desde 2019, ano em que fez uma participação na novela A Dona do Pedaço, da TV Globo, a atriz se dizia pronta para voltar à ativa.
"Não sou muito de férias nem de aposentadoria. Acho que, se você parar, morre alguma coisa por dentro. Trabalho é vida, faz a cabeça e o corpo funcionarem, o coração pulsar forte", disse ela ao Globo em 2017.
Para se manter atualizada, e com a cabeça trabalhando, Laura manteve o hábito de ler todos os dias.
"Ator tem que saber ler. E tem muitos que não sabem", disse à Folha de S. Paulo.
Foi a literatura, aliás, que a despertou para as artes dramáticas.
Os primeiros passos
Desde muito cedo, Laura foi estimulada a ler compulsivamente pelas professoras do colégio de freiras onde estudou, em São Paulo, e pelo pai, um comerciante apaixonado por literatura, teatro e cinema.
Ainda criança, tomou a decisão, junto com uma amiga, de transformar um romance numa peça de teatro, improvisada ali mesmo, nas ruas do bairro da Bela Vista.
"Toda noite a gente vestia a roupa, botava o chapéu, o anel, o brinco da mãe da menina, sentava na calçada e esperava o bonde. Então, a gente brincava, subia no bonde e descia correndo. Esse era o nosso teatrinho de toda noite", lembrou ela ao site Memória Globo.
Aos 14 anos, decidiu entrar para o rádio. A mãe foi contra.
"Quem fazia teatro era puta. Então, eu era puta. Sou putíssima até hoje, porque eu defendo a profissão", disse ela ao Estado de S. Paulo.
Foi o pai quem bancou a decisão de Laura, acompanhando a adolescente para um teste na Rádio Cosmos. Aprovada imediatamente, foi aconselhada a adotar o nome artístico Laura Cardoso, em vez do nome de batismo, Laurinda de Jesus Cardoso
A jovem atriz logo chamou a atenção dos diretores pela versatilidade em cena, alcançada com muita disciplina e treinamento — uma marca de seu trabalho, que permitiu que ela transitasse por todos os formatos da dramaturgia com a mesma desenvoltura.
"Eu quero ganhar. Pode ser vaidade, mas não fico feliz se isso não acontecer. Vou para a arena para sair vitoriosa, ser a melhor, senão não estou satisfeita", disse à revista Caras em 2013.
O diretor Antônio Abujamra, que dirigiu Laura em peças marcantes, como As Criadas (1968) e Volpone (1977), destacou as grandes qualidades da atriz.
"Ela é capaz a uma contínua adaptação a situações sempre novas, o que a faz sobreviver num clássico como Ben Jonson [dramaturgo inglês do século 16] ou a infinidades de textos na televisão que a obriga ter uma competência técnica".
Teatro: amor e dedicação
Laura, cria da rádio-novela, estreou tardiamente no teatro, a grande paixão.
Em 1959, aos 32 anos, encenou o espetáculo Plantão 21, montagem que projetou o grupo Pequeno Teatro de Comédia e seu diretor, Antunes Filho, conhecido por exigir muita disciplina e dedicação dos atores. Laura, igualmente perfeccionista, se entendeu bem com o então jovem e talentoso diretor.
"Passávamos 10, 12 horas dentro do teatro, onde ensaiávamos, ouvíamos palestras e exercitávamos nossa expressão corporal. Nos poucos minutos de intervalo, bebíamos cafezinho e pronto. Escutávamos o sinal da labuta", disse a atriz sobre a experiência de encenar Vereda da Salvação, dirigida por Antunes e apresentada no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em 1964.
"Narrando assim parece até um trabalho insano, mas é dessa forma que eu, Antunes e alguns colegas de profissão nos sentíamos felizes", contou ao site Itaú Cultural.
A segunda encenação de Vereda da Salvação, trinta anos depois, também dirigida por Antunes, rendeu a Laura seu segundo o Prêmio Shell de melhor atriz — o primeiro havia sido pela atuação na peça Vem Buscar-Me que Ainda Sou Teu (1990), com texto de Carlos Alberto Soffredini e direção Gabriel Villela.
A consagração na TV

Crédito, TV GLOBO/CEDOC
Uma das recordistas em participações em novelas, Laura estreou na televisão em 1952, ao pleitear, depois de muita insistência, uma ponta no programa Tribunal do Coração, na TV Tupi, escrito por Vida Alves.
"Eu passava pela Vida Alves e dizia: 'Me escala'. Passava pelo [diretor] Cassiano Gabus Mendes e dizia: 'Me deixa fazer uma vez. Se não gostar, não faço mais'. Fui escalada por Vida. Depois Cassiano me chamou para fazer Coração Sagrado na TV de Vanguarda. E ganhei meu primeiro prêmio na televisão. E nunca mais parei, graças a Deus", contou em 2015 ao programa Persona em Foco, da TV Cultura.
Na TV Tupi, conheceu o ator Fernando Baleroni, com quem se casou e teve três filhos, Fátima, Fernanda e José — bebê que morreu três dias após o nascimento.
Em 1980, uma nova tragédia: a morte precoce de Baleroni, aos 57 anos.
Laura conseguiu reunir forças para superar a perda do marido e criar duas filhas, além de conciliar tudo isso com a dura rotina de atriz, contando com a ajuda da mãe para isso.
"É uma carreira sacrificada, você tem que renunciar a uma porção de coisas. Às vezes, penso que poderia ter ficado mais perto das meninas. Mas não me arrependo. Não é fácil uma mulher sozinha, que trabalha e tem filhos, dedicar-se inteiramente à família. Mas tive sorte de minha mãe ser excepcional e me ajudar a cuidar delas", disse à revista Caras.
Numa de suas atuações mais marcantes na televisão, vivendo Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, protagonistas da novela Mulheres de Areia (1993), a atriz, envolvida emocionalmente com a personagem, chegou a receber cartas de protesto dos telespectadores por supostamente proteger apenas a vilã, Raquel, e não Ruth, a filha boazinha.
Na época, Laura justificou :"Ela [Isaura] tinha paixão pelas duas. Só que a Raquel precisava mais de mim".
Laura nunca negou um papel.
"Eu nunca rejeitei o personagem. Aceito todos", disse ela.
Também sempre adorou trabalhar com atores mais jovens.
"Amo trabalhar com a juventude. Eles trazem ideias novas, é uma troca muito boa: do que eu sei e do que eles querem saber. É um aprendizado dos dois lados. A troca é sempre maravilhosa".
Descaracterização das novelas

Crédito, Globo/César Alves
A atriz foi uma crítica ferrenha da descaracterização das novelas brasileiras, que, para ela, determinou a queda de qualidade e, consequentemente, da audiência.
Para Laura, muitos fatores contribuíram para isso. Primeiro, os processos seletivos, que, além de menos exigentes, passaram a buscar profissionais sem a menor bagagem em dramaturgia.
"Para ser atriz hoje basta ser loirinha, bonitinha e ter um belo sorriso", disse ela, em 2012, ao portal Cineclick.
Nada comparado com o que ela chamou de "excesso de ingerência das novas tecnologias", que, segundo Laura, mudaram radicalmente o jeito de se fazer novelas, tornando tudo menos espontâneo.
"Não gosto de tecnologia. Enche o saco. Tudo que é técnico é frio. Gosto mais do normal, do natural. Gosto de representar quando a vontade vem, quando o gesto vem, quando a fala vem. Eu prefiro [as novelas] no meu tempo porque era difícil de se fazer", desabafou a atriz à Folha.
O posicionamento, sempre crítico, lhe rendeu alguns embates com diretores da nova geração.
"Um dia estava fazendo uma cena dramática e, de repente, a diretora parou a cena. Eu disse: 'Por que parou?'. Eu que estou inteira aqui. Você não pode me cortar para fazer um close da bonitinha. Eu sou importante. Deixa eu terminar. Importa o texto que estou dizendo e não a moça loura. Eu sou feia, mas estou inteira aqui", relatou ao Persona em Foco em 2022.
Mesmo cética quanto ao futuro das novelas brasileiras, nunca jogou a toalha — achava que ainda tinha muito a contribuir e que talvez até conseguisse reverter essa tendência de pasteurização dos folhetins nacionais.
"Gosto de estar com a minha gente. Em um estúdio, nada me cansa. Quero morrer trabalhando."
























