'Estamos juntos, Cabo Verde': o país que nasceu de um vulcão e incendeia a Copa do Mundo

    • Author, Atahualpa Amerise
    • Role, BBC News Mundo
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  • Tempo de leitura: 7 min

Até poucas semanas atrás, Cabo Verde era conhecido por muitos brasileiros apenas como um pequeno arquipélago africano de praias paradisíacas e língua portuguesa.

Agora, o país de pouco mais de meio milhão de habitantes — população semelhante à de Florianópolis — se tornou uma das grandes histórias da Copa do Mundo de 2026.

A seleção cabo-verdiana, apelidada de "Tubarões Azuis", disputa seu primeiro Mundial e já chamou a atenção ao arrancar um empate sem gols com a Espanha, atual campeã da Europa. Seu goleiro de 40 anos, Vozinha, virou herói nacional, emocionou torcedores ao chorar após a partida e se transformou em um fenômeno das redes sociais.

Mas o interesse despertado por Cabo Verde vai além do futebol. Localizado a cerca de 600 quilômetros da costa oeste da África, esse pequeno país insular tem uma história singular: foi um importante entreposto do tráfico transatlântico de escravizados, possui uma das democracias mais estáveis do continente africano, não tem rios permanentes nem fontes naturais significativas de água doce e é o berço da morna, gênero musical eternizado pela cantora Cesária Évora.

O país também é muito lembrado pela cultura que valoriza a união, o orgulho nacional e a solidariedade do povo das ilhas e da sua vasta diáspora, características celebradas pela famosa expressão "Nu sta djunto, Kabu Verdi".

Em crioulo cabo-verdiano, a frase significa "Estamos juntos, Cabo Verde", e vem sendo usada pelos torcedores locais — e simpatizantes do futebol ao redor do mundo — para apoiar o time.

Reunimos seis fatos que ajudam a entender por que Cabo Verde, o azarão simpático desta Copa, conquistou a imaginação do mundo.

1. Era habitado apenas por morcegos até a chegada de Portugal

Com uma superfície total de 4 mil quilometros quadrados, Cabo Verde é formado por dez ilhas, das quais nove são habitadas.

Sua única espécie endêmica de mamífero é o morcego-de-orelhas-cinzentas, que durante muito tempo dominou o arquipélago sem conviver com outros mamíferos até a chegada dos primeiros humanos, no século XV.

Após desembarcarem em 1456, segundo registros históricos, os portugueses fundaram Ribeira Grande, na ilha de Santiago. Hoje, a cidade se chama Cidade Velha e fica a poucos quilômetros de Praia, a capital e cidade mais populosa do país.

Portugal deu às ilhas o nome de Cabo Verde em referência ao ponto mais próximo do continente africano: a península homônima onde hoje está localizada Dakar, capital do Senegal.

O arquipélago se divide em dois grupos:

Ilhas de Barlavento: Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Sal e Boa Vista.

Ilhas de Sotavento: Maio, Santiago, Fogo e Brava.

Dessas, apenas Santa Luzia permanece desabitada e constitui uma reserva natural.

2. Foi um importante entreposto do tráfico de escravizados entre África e América

Por sua posição estratégica entre a África e a América, Cabo Verde se consolidou, no século XVI, como um dos principais centros do tráfico transatlântico de escravizados, atividade que perdurou por mais de 300 anos.

Estima-se que cerca de 3 mil escravizados vindos do continente africano fossem vendidos anualmente em Cabo Verde com destino à Europa e às Américas.

Alguns permaneceram no arquipélago, trabalhando nas minas de sal e nas primeiras plantações de algodão voltadas para Portugal.

A herança da escravidão marcou profundamente a demografia do país. A população é majoritariamente mestiça, resultado da mistura entre africanos e europeus — sobretudo portugueses —, algo confirmado por estudos genéticos.

Embora o idioma oficial seja o português, os habitantes também falam o crioulo cabo-verdiano, uma mistura do português com línguas africanas, que possui nove variantes, uma para cada ilha habitada.

A influência colonial também se reflete na religião: 72,5% da população é católica, segundo o anuário The World Factbook, da CIA.

3. Tem apenas 500 mil habitantes, menos da metade do número de turistas que recebe por ano

A grande distância entre as ilhas, o território reduzido — menor que um quinto da área de El Salvador, o menor país da América Latina — e o fato de apenas cerca de 11% da superfície ser cultivável, em meio a extensas áreas de rocha vulcânica, limitaram o crescimento populacional de Cabo Verde ao longo dos últimos cinco séculos e meio.

O Banco Mundial estimou a população em 524 mil habitantes em 2024.

Isso representa menos da metade dos 1,2 milhão de turistas que visitaram o arquipélago no mesmo ano, segundo dados oficiais.

O turismo é, de fato, o principal motor da economia cabo-verdiana, representando aproximadamente um quarto do Produto Interno Bruto (PIB), segundo diversas fontes, incluindo o Departamento de Comércio dos Estados Unidos.

Os cabo-verdianos que vivem fora do país também superam os que vivem no arquipélago. O governo estimou em 2023 uma diáspora de cerca de 2 milhões de pessoas, principalmente em Portugal e nos Estados Unidos, embora esse número seja debatido por falta de estudos mais abrangentes.

4. É uma das democracias mais estáveis da África

Portugal transformou Cabo Verde de colônia em província ultramarina em 1951, mas a mudança não satisfez as crescentes aspirações por autonomia dos cabo-verdianos.

Nas décadas de 1950 e 1960, líderes como Amílcar Cabral uniram-se à luta de independência da Guiné-Bissau em uma guerra sangrenta contra Portugal.

O processo culminou com a independência de Cabo Verde, em 5 de julho de 1975.

O país viveu sob um sistema de partido único até 1990, quando surgiu o Movimento para a Democracia (MPD), abrindo caminho para o multipartidarismo e para as primeiras eleições democráticas em janeiro de 1991.

Desde então, Cabo Verde mantém uma vida política pacífica e estável, com alternância de poder e instituições consolidadas, incluindo presidente eleito, primeiro-ministro, Assembleia Nacional e Supremo Tribunal de Justiça.

Essa alternância foi reforçada em 2021, quando o atual presidente, José Maria Neves, de centro-esquerda, venceu as eleições após uma década de governo do MPD, partido de centro-direita.

5. Não possui rios nem fontes de água doce, mas abriga um vulcão ativo

Com clima extremamente seco, Cabo Verde não possui rios, lagos ou fontes significativas de água doce.

Toda a água potável distribuída às residências vem de usinas de dessalinização.

As chuvas são escassas e as secas, frequentes, podendo durar anos, o que afeta a agricultura e já provocou crises alimentares no passado.

As ilhas, formadas por atividade vulcânica, apresentam paisagens áridas e acidentadas.

Algumas são planas e cobertas por dunas, como Sal, Boa Vista e Maio. Outras se destacam pelos penhascos e relevos montanhosos, como Santo Antão e São Nicolau.

O ponto mais alto do país é o Pico do Fogo, com 2.829 metros de altitude.

Trata-se do único vulcão ativo do arquipélago.

Sua erupção mais recente, a mais longa em dois séculos e meio, ocorreu entre novembro de 2014 e fevereiro de 2015.

Ela destruiu vilarejos inteiros, obrigou a evacuação de cerca de mil pessoas e provocou prejuízos superiores a US$ 50 milhões.

6. Possui gêneros musicais próprios: a morna de Cesária Évora e o funaná

A música faz parte da vida cotidiana em Cabo Verde e está presente tanto em festas populares quanto em celebrações familiares.

O gênero mais representativo é a morna, reconhecida pela UNESCO em 2019 como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Com ritmo lento e tom melancólico, a morna expressa a saudade — da terra natal ou de pessoas queridas —, especialmente entre os cabo-verdianos que vivem no exterior.

Sua instrumentação inclui violão, cavaquinho, violino e percussão leve.

A grande embaixadora da morna foi a cantora Cesária Évora (1941-2011), que levou o gênero aos principais palcos do mundo.

O outro grande gênero musical de Cabo Verde é o funaná, caracterizado por um ritmo rápido e dançante, marcado pelo acordeão e pelo ferrinho.