Bets causam prejuízo ao PIB cinco vezes maior do que tarifaço de Trump, aponta estudo

Idoso usando um celular. Ele veste camisa listrada azul clara e o celular tem capinha azul, seu rosto é visto apenas da metade para baixo

Crédito, Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Legenda da foto, Apostas retiraram mais de R$ 120 bi da economia do país em 2025, calcula pesquisador da UFRJ
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Além dos riscos de vício, impactos sobre a saúde e sobre o endividamento e a situação financeira de milhares de brasileiros, as apostas têm um efeito maior, que ultrapassa suas consequências sobre o orçamento doméstico das famílias.

Para mensurar esse efeito, o economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), calculou o impacto das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país), a arrecadação do governo e a desigualdade.

Segundo o estudo inédito, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano.

"Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 [que foi de 2,3%] e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro", compara Klein, no estudo.

Em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda estimou o potencial impacto da tarifa de importação de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros em 0,2 ponto percentual do PIB entre agosto daquele ano o final de 2026.

Em julho, esse tarifaço foi prorrogado por mais um ano e os EUA anunciaram tarifas adicionais de 25% e 12,5% neste ano.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidades representativas do setor de bets, reconhecem "a importância de aprofundar o debate sobre os impactos econômicos e sociais das apostas", mas afirmam que os resultados "devem ser interpretados com cautela".

O custo econômico das bets

Para calcular o efeito das bets sobre o PIB, Klein parte de uma estimativa de transferência líquida de recursos das famílias para as plataformas de apostas.

"Estamos falando basicamente da diferença entre o que é gasto pelas famílias em apostas e o que elas recebem de volta", diz o economista.

"Porque, pela própria natureza do jogo, obviamente o que as pessoas vão receber, em média, é menor do que o que elas pagam."

Mão segurando celular com um site de apostas esportivas aberto na tela

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Estudo recente estima que brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões para bets em 2025

Um estudo recente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central, estima essa transferência líquida de recursos em R$ 62,5 bilhões em 2025.

Esse valor importa, explica Klein, porque cada R$ 1 "perdido" para apostas representa menos dinheiro disponível para o consumo.

A partir desse dado, o pesquisador busca estimar como essa transferência de recursos está distribuída entre as diferentes faixas de renda.

"As pessoas de renda menor gastam proporcionalmente mais da renda delas com consumo", observa Klein.

"Porque a pessoa que ganha pouco acaba tendo que gastar tudo com aluguel, alimentação, vestuário e assim por diante. Então, levamos isso em conta para entender esse efeito agregado."

Com base em outras pesquisas já publicadas, o economista constrói então dois cenários: um em que a maior parte do gasto com apostas vem da faixa de menor renda (até 2 salários mínimos, ou R$ 3.036 em 2025), e outro em que o gasto é mais concentrado nas faixas de renda mais alta.

De posse desses dois cenários, o economista aplica um multiplicador — uma estimativa de quanto R$ 1 a mais ou a menos no bolso das famílias se converte em mais ou menos consumo na economia..

"Fazendo esse cruzamento, chegamos a um efeito entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões — um valor bem importante, porque é quase 1% do PIB", observa.

"O contrafactual, que é o que teria acontecido [sem as apostas], é sempre difícil de fazer em economia, mas esse montante é basicamente metade de todo o crescimento que a gente teve em 2025."

Klein observa que, mesmo levando em conta a estimativa de empregos diretos e indiretos gerados pelas plataformas de apostas — cerca de 15,5 mil, segundo um estudo da LCA Consultores para a ANJL e IBJR, cuja massa salarial poderia gerar até R$ 1 bilhão de renda total na economia — esse impacto negativo pouco muda.

Mulher comprando roupas em loja de rua no Rio de Janeiro

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Cada R$ 1 perdido para apostas representa menos dinheiro disponível para o consumo, diz Guilherme Klein, professor da UFRJ

Um outro estudo, realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e publicado em abril deste ano, estimou que o avanço da inadimplência severa, parcialmente atribuída aos gastos com bets, retirou R$ 144 bilhões nas vendas do comércio entre 2024 e 2025.

Segundo a CNC, o impacto somente no comércio é equivalente às vendas de "dois Natais", principal data do varejo brasileiro, cujas vendas anuais giram em torno dos R$ 70 bilhões.

"As bets não representam apenas entretenimento; configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo", destaca a confederação.

Menos arrecadação, mais desigualdade

A partir da estimativa da queda do PIB, Klein calcula o impacto para a arrecadação do governo.

"Isso ocorre basicamente via tributos indiretos, porque cada real gasto com consumo paga imposto", explica Klein.

Ele cita como exemplos o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o Imposto Sobre Serviços (ISS) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), com a reforma tributária, que começou a ser implementada este ano.

No estudo, Klein estima que uma queda de 1% no PIB provoca uma perda de 0,8% a 1,2% na arrecadação.

Como a carga tributária bruta foi de cerca de 32,4% do PIB em 2025, a redução da atividade econômica causada pelas bets implicaria uma perda líquida de R$ 22 bilhões a R$ 46 bilhões da arrecadação, descontados os R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com os impostos cobrados das plataformas de apostas.

O economista observa que esse dado é importante, porque as apostas muitas vezes são colocadas como algo que está gerando arrecadação para o governo. Mas, devido à perda de consumo, esse efeito pode ser, na verdade, negativo, quando as duas coisas são colocadas "na ponta do lápis".

"E isso sem nem entrar na questão dos gastos gerados, como as despesas com saúde devido ao vício", destaca o professor da UFRJ.

Painel do Impostômetro no centro de São Paulo

Crédito, Divulgação ACSP

Legenda da foto, Pesquisador estima que a redução da atividade econômica causada pelas bets implica numa perda líquida de R$ 22 bilhões a R$ 46 bilhões da arrecadação

Por fim, para estimar o potencial impacto das apostas sobre a desigualdade, Klein também elabora dois cenários: um que considera que a perda de R$ 62,5 bilhões com bets se concentra nos 99% da população fora do 1% mais rico, e outro que considera que não só isso acontece, como que esse valor é transferido ao 1% mais rico (um cenário extremo, pois é sabido que parte das empresas de apostas são estrangeiras, então uma parte desses recursos vai, na verdade, para fora do país).

Nesses dois cenários, o aumento da concentração da renda no topo (esse 1% mais rico) varia de 0,5% a 2,1%, algo relevante num país que é ainda hoje um dos mais desiguais do mundo.

Para Klein, o que os resultados sugerem é que o Brasil deveria, no mínimo, aumentar a tributação das bets. "A taxação tem que ser ampliada, para que, pelo menos, tenhamos um aumento da arrecadação líquida", defende o economista.

"Não faz sentido nenhum permitir uma atividade que reduz a arrecadação, que aumenta a desigualdade num país já tão desigual, e causa uma série de outros problemas sociais e de saúde, que são o que a gente em economia chama de externalidades", observa.

O pesquisador cita o exemplo dos cigarros, que causam doenças que oneram o sistema público de saúde, e por isso são altamente taxados.

"Faz todo o sentido ter uma tributação alta o suficiente para, no mínimo, cobrir esses custos a mais que essa atividade gera."

O que dizem as associações representativas das bets

Questionada sobre os resultados do estudo, a ANJL afirmou em nota à BBC News Brasil que "tais estimativas devem ser analisadas com cautela antes de serem divulgadas como verdadeiras e robustas".

Segundo a entidade, o exercício é "fortemente dependente das hipóteses adotadas, e não uma estimativa causal do efeito das bets sobre o PIB".

A ANJL considera que o multiplicador adotado por Klein no estudo é desproporcional, que o valor de R$ 62,5 bilhões em perdas estaria superestimado, e que a análise ignora que apostas são bem de lazer e substituem outros gastos de entretenimento, como cinema, teatro, streaming e futebol.

A associação refuta ainda a comparação com o crescimento de 2025, observando que as bets já existiam em 2024.

"Para avaliar quanto sua expansão teria reduzido o crescimento do PIB em 2025, seria necessário estimar principalmente o efeito incremental entre 2024 e 2025, e não comparar todo o suposto efeito de nível existente em 2025 com a variação do PIB naquele ano", pondera.

Já o IBJR destaca que os resultados "partem de uma estimativa contrafactual de R$ 62,5 bilhões, e não de perdas efetivamente observadas nas operadoras"; questiona algumas das pesquisas escolhidas por Klein como base para o estudo; e a premissa de que os recursos destinados às apostas seriam integralmente redirecionados ao consumo.

"O estudo também não mensura, com metodologia equivalente, o valor adicionado pelo setor regulado, incluindo aspectos como geração de empregos, cadeia de fornecedores, tecnologia, publicidade, patrocínios, investimentos e arrecadação tributária", observa o IBJR.

"Ressaltar essas limitações não significa desqualificar o estudo, mas contribuir para uma avaliação mais ampla e consistente dos seus resultados", diz o instituto.

"Em uma questão de tamanha relevância econômica e social, é necessário que a análise dos impactos considere a qualidade das bases utilizadas, os critérios metodológicos adotados e o conjunto das evidências disponíveis."