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Como a Austrália, conhecida por sua fauna exuberante, tornou-se o epicentro das extinções no planeta
- Author, Tiffanie Turnbull
- Reporting from, Dryandra, Western Australia
- Published
- Tempo de leitura: 12 min
"Olhos bem abertos." Esta á a ordem que vem do banco da frente do carro.
Obedecemos e examinamos troncos e galhos, procurando entre a vegetação rasteira e as flores silvestres de cores vívidas algum sinal das listras do animal ou de um movimento rápido.
Estamos à procura do mirmecóbio, também conhecido como numbat, um raro marsupial australiano que parece uma mistura de esquilo com tamanduá.
Os numbats já foram numerosos em toda a parte sul do continente, mas a floresta de Dryandra, no sudoeste da Austrália, é um dos poucos lugares onde eles ainda vivem.
Enquanto avançamos lentamente pelas trilhas em meio à mata, os pesquisadores explicam como essa expedição anual ajuda a acompanhar a sobrevivência da espécie.
Classificados como animais ameaçados de extinção até este mês, os numbats vêm se recuperando. O trabalho da equipe que acompanhamos contribuiu para que fossem retirados da lista vermelha internacional de espécies ameaçadas, um raro sinal de esperança em um país que enfrenta uma crise de extinção.
Esta região da Austrália está no centro dessa crise: é um dos últimos refúgios de muitos animais levados à beira da extinção por espécies invasoras, doenças, expansão urbana, destruição de habitats e mudanças climáticas.
Em determinado momento, uma cacatua-negra-de-Carnaby, ameaçada de extinção, sobrevoa nosso carro. Em uma ilha próxima à costa está uma das últimas populações do marsupial mais raro do mundo, o potoroo de Gilbert. Nas águas azul-safira ao redor da ilha mergulha o leão-marinho-australiano, cada vez mais raro.
A Austrália há muito é celebrada como um santuário da natureza, lar de algumas das espécies de plantas e animais mais singulares do mundo. Mais de 80% delas não existem em nenhum outro lugar.
Mas o país pode ter se tornado a capital mundial da extinção, com a perda de cerca de quatro espécies por década, e a situação só piora.
Voluntários dedicados e conservacionistas com poucos recursos têm conseguido conter parte das ameaças crescentes. Ainda assim, especialistas temem que, sem medidas urgentes e coragem política, a biodiversidade que a Austrália diz valorizar caminhe para uma devastação.
"Nem é preciso imaginar. Isso está acontecendo diante dos nossos olhos", diz o professor Euan Ritchie à BBC News.
As ameaças que levam à extinção
Se já é difícil avistar um animal raro na natureza, o numbat complica ainda mais a tarefa: do tamanho de um esquilo, ele é especialista em camuflagem, explica o biólogo Tony Friend, uma referência na conservação no estado da Austrália Ocidental.
"Hoje eles resolveram dormir até mais tarde", brinca Rob McLean, presidente da Numbat Taskforce, grupo de voluntários que torna possível boa parte do trabalho de Friend, feito com recursos limitados.
Durante duas semanas a cada primavera, quando os filhotes começam a sair das tocas, a equipe percorre diariamente o mesmo trajeto e registra cada numbat avistado. Anota as coordenadas de GPS, mede a distância até a estrada e usa uma equação complexa para estimar a densidade dos animais nessa floresta e, a partir daí, avaliar a situação da população como um todo.
Uma pessoa permanece em silêncio, concentrada, junto a cada janela. Outra vai na parte de trás da caminhonete, abaixando-se de vez em quando para desviar dos galhos das árvores ao redor.
Entre os troncos, às vezes vemos as áreas agrícolas desmatadas que cercam esse trecho de floresta protegida. À margem de uma das trilhas, uma máquina detecta gatos ferais e raposas e os borrifa com veneno, mais um sinal dos riscos enfrentados pelos numbats.
"Este ano tem sido de fartura", admite McLean.
Durante horas, seguimos pelas trilhas e vemos papagaios, wallabies australianos (da mesma família dos cangurus), um lagarto-monitor e dois equidnas (mamíferos espinhoso australianos), mas nenhum numbat.
Friend chegou a Dryandra na década de 1980 e encontrou uma população de menos de 50 numbats. Muitos dos fatores responsáveis por esse declínio eram os mesmos que continuam levando espécies à extinção em todo o país hoje.
Grandes áreas de habitat essencial estão sendo desmatadas para dar lugar a empreendimentos ou atividades como agricultura, mineração e exploração de madeira.
Espécies introduzidas também deixam um rastro de destruição: formigas-de-fogo, sapos-cururu, coelhos, raposas e gatos ferais.
Plantas invasoras, como a lantana, sufocam a vegetação nativa australiana. A clamídia levou coalas à beira da extinção em grande parte do país, enquanto o fungo quitrídio, que ataca a pele, já causou a extinção de sete espécies de sapos.
As mudanças climáticas estão criando condições inabitáveis para algumas espécies, como as raposas-voadoras nativas, que caem das árvores aos milhares por causa das temperaturas extremas.
Para outras espécies, elas eliminam suas fontes de alimento ou destroem seus habitats. As mudanças climáticas também intensificam desastres naturais que, com uma frequência cada vez mais alarmante, queimam e inundam plantas e animais.
Os devastadores incêndios florestais do chamado "Verão Negro", em 2019 e 2020, mataram três bilhões de animais. Nos anos seguintes, enchentes recordes atingiram áreas tão extensas que é impossível estimar o impacto sobre a vida selvagem.
Muitas espécies que antes eram abundantes em todo o continente hoje estão restritas a áreas cada vez menores e isoladas umas das outras. Cada novo impacto se soma aos anteriores e as deixa ainda mais vulneráveis ao próximo.
Há iniciativas pequenas, mas determinadas, para tentar frear esse declínio.
No zoológico de Perth, enquanto um jovem numbat devora o café da manhã — um creme com "granulado de cupim" —, uma funcionária explica como a futura soltura desse macho em Dryandra ajudará a aumentar a diversidade genética.
"Quando você recebe a notícia de que os filhotes dos seus filhotes nasceram, é muito gratificante", diz Vicki Power.
Programas de reprodução como esse também permitiram criar novas populações de várias espécies ameaçadas.
Mas muitas não conseguem sobreviver em ambientes totalmente abertos, onde o controle de predadores em larga escala continua sendo uma batalha constante. Por isso, acabam sendo levadas para reservas cercadas, que também exigem manejo intensivo e enfrentam problemas como endogamia, cruzamento entre indivíduos aparentados, e superpopulação.
Projetos de proteção e recuperação de habitats vêm aumentando, mas ainda não acompanham o ritmo da destruição, especialmente nas áreas mais importantes.
Os cientistas também tentam combater doenças, embora esse seja um trabalho caro e demorado que, para a maioria das espécies, apenas adia o problema. Outros pesquisadores preservam material genético para o caso de, algum dia, descobrirmos como trazer espécies extintas de volta à vida.
Cem espécies perdidas — e a conta só aumenta
Cientistas concordam que estamos vivendo a sexta extinção em massa do planeta, a primeira causada pelos seres humanos. Mas a Austrália está na linha de frente desse processo.
O país lidera o mundo em extinções de mamíferos e também está entre os que mais perderam espécies de outros grupos.
"Apesar de a Austrália ser um dos países mais ricos do mundo em renda per capita e ter muitos cientistas de excelência, nosso histórico de conservação de espécies é realmente péssimo", afirma Ritchie. "E as coisas não estão melhorando."
A lista oficial de espécies extintas do governo australiano tem 67 registros, mas pesquisadores estimam que pelo menos cem espécies de plantas e animais já tenham desaparecido para sempre. Eles suspeitam que o número real seja muito maior. O país ainda descobre espécies que já foram extintas.
Embora o ritmo de extinções na Austrália tenha se mantido estável, em cerca de quatro por década, o número de espécies ameaçadas continua aumentando rapidamente, e a situação de muitas delas piora cada vez mais depressa.
Especialistas alertam que essa trajetória pode ter efeitos graves na cadeia. A biodiversidade da Austrália "sustenta tudo", afirma o ecólogo Jack Pascoe.
Isso inclui a produção de alimentos, o turismo e a construção civil, que representam boa parte da economia do país. Possíveis avanços científicos também podem ser prejudicados, em áreas como medicina, agricultura e até adaptação às mudanças climáticas. Para os povos originários da Austrália, esse declínio também ameaça a cultura.
"Nós nos vemos como guardiões de toda a vida na Terra, então há um sentimento de perda muito mais pessoal e coletivo quando essas espécies estão em dificuldade ou desaparecem para sempre", afirma Pascoe, membro do povo aborígene yuin.
Décadas de fracassos
Embora a proteção ambiental seja responsabilidade dos estados, o governo federal supervisiona questões de importância nacional.
O Partido Trabalhista da Austrália chegou ao poder em 2022 com a promessa de que nenhuma nova espécie seria extinta durante seu governo e buscou fazer da proteção da natureza uma das marcas de seu segundo mandato.
"É reconhecido que a natureza enfrenta muitos desafios no mundo hoje, tanto na Austrália quanto no exterior. Estamos perdendo biodiversidade em um ritmo alarmante", afirmou o ministro do Meio Ambiente, Murray Watt, em nota à BBC.
Seu partido ampliou significativamente os esforços para reduzir as emissões de carbono e impulsionou projetos de energia renovável. Também recebeu elogios por medidas que ajudaram a afastar alguns mamíferos criticamente ameaçados de extinção. Além disso, a aprovação de uma reforma das leis ambientais no ano passado foi apresentada como a mudança mais importante em uma geração.
O país também estabeleceu a meta ambiciosa de interromper e reverter a perda de biodiversidade até 2030.
Mas há pouco otimismo de que isso represente uma verdadeira virada.
As novas leis são apenas a estrutura inicial da mudança. O conteúdo ainda está sendo definido, por meio dos Padrões Nacionais Ambientais e da criação de um órgão federal de fiscalização para aplicá-los.
Muitos no setor dizem que o problema não é tanto a falta de instrumentos regulatórios, mas a falta de vontade política para usá-los.
Ao longo dos últimos 30 anos, sucessivos governos não conseguiram proteger adequadamente o meio ambiente, afirmou Watt, o ministro do Meio Ambiente que há mais tempo ocupa o cargo na Austrália.
Isso inclui o próprio governo do qual ele fez parte. "Nós também deveríamos ter feito mais", afirma Robert Hill, que liderou a última grande reforma, em 1999, durante a coalizão conservadora do então primeiro-ministro John Howard.
Muitos dos desafios daquela época ainda assombram os líderes de hoje.
A riqueza do país foi construída, em grande parte, com base em seus recursos naturais — muitas vezes às custas do meio ambiente. Essas riquezas continuam sustentando a economia e ajudando a financiar gastos públicos em áreas essenciais, como saúde e moradia.
Há também a pressão adicional exercida pelos setores econômicos e os interesses concorrentes dos estados. A participação deles nas regras de controle ambiental torna menos clara a divisão de responsabilidades e aumenta os entraves burocráticos.
Essas disputas desgastam até os defensores mais firmes do meio ambiente dentro dos governos.
No ano passado, por exemplo, o governo do primeiro-ministro Anthony Albanese aprovou às pressas leis para proteger a criação de salmão, após pressão de autoridades da Tasmânia, abafando a oposição interna e ignorando recomendações de seu próprio departamento sobre o impacto dessa indústria, avaliada em A$ 1,4 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões), na sobrevivência da raia-de-maugean, uma espécie ameaçada.
"Quando há uma alternativa econômica, é o meio ambiente que acaba cedendo", afirma Hill. "Mesmo que [o governo federal] queira agir, ainda precisa ter força política para transformar suas ambições em realidade."
Também há quem considere que apenas aumentar a regulamentação terá pouco efeito.
Segundo profissionais do setor, hoje grande parte do trabalho de conservação depende de doações de filantropos e do empenho de voluntários, enquanto muitas outras iniciativas seguem paradas por falta de recursos.
O governo federal gasta diretamente cerca de A$ 700 milhões (aproximadamente R$ 2,5 bilhões) por ano com proteção da natureza, uma fração dos A$ 33 bilhões (cerca de R$ 119 bilhões) — ou 1% do PIB (soma de todas as riquezas produzidas) — que os conservacionistas afirmam ser necessários.
Paul Elton reconhece que o valor é alto, mas defende que é razoável. Segundo sua pesquisa — contestada pelo governo —, mais de A$ 26 bilhões (cerca de R$ 94 bilhões) ainda são gastos em subsídios a atividades como mineração, agricultura intensiva e combustíveis, apesar de a Austrália ter assinado compromissos internacionais para reduzi-los.
"Para cada dólar que o governo gasta em ações positivas de conservação da biodiversidade, A$ 26 são destinados a subsídios que prejudicam a natureza", disse ele à BBC News. "É um desequilíbrio bastante evidente."
Watt, ministro do Meio Ambiente, não respondeu diretamente às perguntas sobre as reivindicações dos conservacionistas, mas afirmou: "Continuamos comprometidos com a recuperação ambiental de longo prazo, em parceria com governos estaduais e locais, comunidades e grupos ambientalistas."
Embora a opinião pública esteja mudando, há ceticismo de que o governo vá priorizar o meio ambiente diante de outras demandas e de crises que se acumulam, a menos que os eleitores o pressionem a fazer isso.
"A população diz que deveríamos gastar bastante dinheiro com o meio ambiente. Mas, quando você pergunta: 'Bem, do que vocês estão dispostos a abrir mão para garantir esses recursos?', o interesse desaparece", afirma Hill.
Diante de tantos desafios e do que consideram poucos avanços, defensores da conservação admitem que é difícil manter a esperança.
"Sabemos quais são os problemas e como enfrentá-los. Sabemos que, quando investimos no meio ambiente, o retorno é muitas vezes maior", afirma Ritchie, ecólogo especializado em mamíferos. "É como ser médico, ver tantas pessoas doentes na comunidade, saber como tratá-las e, ainda assim, ninguém deixar você fazer isso."
Numbat é a esperança
Pequenas vitórias, como a recuperação do numbat, ajudam a manter vivo o trabalho de conservação.
Hoje, há cerca de 3 mil numbats em todo o país, e a população deles em Dryandra aumentou dez vezes. Recentemente, o animal saiu da lista internacional de espécies ameaçadas e passou a ser classificado como quase ameaçado.
De volta ao carro, foram necessárias cinco horas, mas, enfim, gritos de entusiasmo vieram ao mesmo tempo do motorista e da parte de trás da caminhonete. Um numbat estava imóvel e atento na ponta de um tronco oco.
"Não é uma competição", diz McLean, da Numbat Taskforce. Rindo, aponta para o outro observador: "Mas vi primeiro, por um segundo."
Depois disso, os avistamentos se multiplicaram. Em pouco tempo, vimos oito numbats, incluindo dois pares de filhotes, que nos observavam sob a luz fraca do entardecer.
Mais tarde, Friend me contou que a contagem completa deste ano foi uma das melhores até agora. "Mas eu sempre lembro as pessoas de que eles ainda não estão a salvo", afirma Friend.
A recuperação do numbat traz alívio, mas também preocupação: a melhora pode dificultar a obtenção do financiamento e do apoio necessários para garantir que a espécie continue se recuperando.
O woylie, também conhecido como bettong-de-cauda-de-escova, serve de alerta. A espécie apresentou uma pequena recuperação e saiu da lista de ameaçadas, mas voltou a ser incluída dez anos depois, em situação ainda pior.
"Não podemos simplesmente ir embora e dizer: 'Não, está tudo bem com eles', sabe?", diz Friend. "É preciso reconhecer que o trabalho contínuo é necessário para manter esse animal no planeta."