Lula pode 'jogar parado' com prolongamento da crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro, diz cientista político

Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente brasileiro (2019-2022) Jair Bolsonaro, fala durante uma coletiva de imprensa após Bolsonaro ter deixado o hospital DF Star, em Brasília, em 27 de março de 2026. Ela usa óculos escuros e blusa azul.

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Os impactos do caso Michelle para ela, para Flávio, para Lula e para a direita
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A decisão de Michelle Bolsonaro de deixar o PL Mulher não deve ser lida como um episódio isolado, mas como o desfecho de uma crise que já vinha se arrastando dentro da família Bolsonaro e que pode prejudicar não só a candidatura de Flávio, mas o bolsonarismo como um todo, avalia o cientista político e professor da EAESP-FGV Marco Antonio Carvalho Teixeira.

"Não é a saída do PL Mulher apenas. A saída é o desfecho da crise. Michelle Bolsonaro foi ignorada e escanteada pelos filhos [de Bolsonaro] desde o momento em que Flávio foi ungido como candidato pelo próprio Jair Bolsonaro", diz o professor.

"Acharam que a Michelle ia ficar simplesmente quieta e dada como derrotada."

A crise foi impulsionada por uma disputa local, de alianças políticas no Ceará.

Flávio disse que o pai apoia o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) no pleito para governador. Michelle criticou a decisão durante evento de lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao governo no Estado, um político bolsonarista com robusto discurso conservador.

Ela disse, à época, que "fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da direita, isso não dá".

"Michelle trouxe fortes falas do Ciro Gomes contra a família e contra Bolsonaro, sobretudo. Essa crise acabou não sendo resolvida politicamente", diz o cientista político.

No dia seguinte aos comentários da ex-primeira-dama, os irmãos Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro criticaram Michelle, e ela foi chamada de autoritária pelo hoje candidato ao Palácio do Planalto.

Ele lembra também que Michelle queria uma candidatura diferente ao Senado no Estado — a da vereadora de Fortaleza e vice-presidente do PL Mulher, Priscila Costa, que disputaria uma das duas vagas ao lado de Alcides Fernandes (PL), pai de André Fernandes (PL), deputado federal mais votado no Ceará em 2022.

Os ataques a Michelle vindos dos EUA

Para o professor, o gatilho para Michelle elevar o tom foi uma ofensiva digital coordenada contra ela, partindo do que ele chamou de "núcleo dos Estados Unidos" do partido, em referência a vozes influentes no bolsonarismo que vivem no país.

"Veio a artilharia pesada do Oswaldo Eustáquio, do Allan dos Santos e, sobretudo, do Paulo Figueiredo", afirma Teixeira.

O empresário e jornalista Paulo Figueiredo publicou vídeo em que afirmou que "mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não."

O pior desfecho, avalia, seria a saída da mulher de Bolsonaro do partido.

"Se ela sair do PL, isso seria um estrago sem precedentes para a campanha do Flávio. Por duas razões: primeiro, porque ela é praticamente dada como eleita senadora pelo Distrito Federal. Segundo: ela é uma liderança importante, além de ser madrasta dele. Para uma candidatura que fala de família, Deus, pátria, aquela coisa toda, seria um tiro de artilharia muito pesado."

Quem sai mais prejudicado?

Teixeira avalia que tanto Michelle quanto Flávio perdem na crise, embora a ex-primeira-dama tenha sido mais criticada nas redes sociais por sua postura em relação ao enteado.

"Se ela estiver fazendo cálculo político com isso, é um risco muito grande. O estrago que isso está fazendo em termos de imagem, para ela e para o Flávio Bolsonaro, é gigantesco", diz o professor.

Um caminho sem o PL e o bolsonarismo também não parece ser a melhor escolha para ela no momento, diz.

"Ela sabe que, se sair do PL, não pode se filiar a outro partido pra ser candidata. Ela estaria abrindo mão, de certa forma, da carreira política. Isso a enfraqueceria muito. Passaria a depender completamente do marido, ou seja, de como o marido a assumiria publicamente do ponto de vista do posicionamento político, do lugar que ela ocupa na política."

A crise chega num momento em que as pesquisas já não são favoráveis a Flávio.

Um levantamento da AtlasIntel/Bloomberg divulgado na quarta-feira (1/7) mostra o senador com 36,6% das intenções de voto no primeiro turno, queda em relação aos 39% registrados em abril, enquanto o presidente Lula aparece com 46,3%.

Num cenário hipotético em que Michelle substitui Flávio na disputa, a distância aumenta: Lula chegaria a 47,1%, contra 19,3% dela.

"Acredito que [a crise] seja muito mais reflexo de conflitos políticos que foram se acumulando e, sobretudo, dessa artilharia digital que jogou sobre ela questões de segurança de toda ordem, não um cálculo político para tentar se reposicionar ou valorizar."

O cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, da FGV-EAESP, em retrato com camisa social listrada

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, O cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, da FGV-EAESP

'Bolha está acostumada a não ver mulher como protagonista na política'

Teixeira avalia que a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg pode ainda não ter captado o efeito da crise no bolsonarismo.

Ainda assim, indicou uma oscilação positiva na rejeição de Flávio Bolsonaro, de 45,4% para 48,4%.

"A rejeição subiu dentro da margem de erro. Não dá pra considerar isso como um produto dessa crise. Mas nesse embate, a dificuldade que o Flávio tem em entrar no eleitorado feminino pode se agudizar ainda mais."

Ele lembra que Flávio enfrenta o problema de forma sistemática pelo histórico da família de ofensas às mulheres, como na briga de Jair Bolsonaro com a deputada federal Maria do Rosário.

"Não vai restar a ele outra alternativa senão ter uma mulher vice."

O desafio, avalia, é encontrar quem seria essa vice.

"Se for uma bolsonarista radical, como a Bia Kicis (deputada federal pelo PL-DF) ou a própria Julia Zanatta (deputada federal pelo PL-SC), como foi colocado, não teria muito a somar. O ideal seria a Tereza Cristina (senadora pelo Progressistas-MS), mas ela não quer ser vice, quer ir para o Senado. Teria de ser alguém que, além de ser mulher, dialogasse ao menos com uma parcela desse eleitorado que rejeita o bolsonarismo."

Teixeira avalia que a crise fragmenta a própria base bolsonarista.

"Essa briga divide a bolha. O grande tiro no pé da Michelle é que ela está dentro de uma bolha que não vê o protagonismo da mulher como algo positivo", diz Teixeira.

"A fala do Paulo Figueiredo é bem sintomática disso. Dificilmente ela vai ter um ganho polarizando esse debate dentro da própria bolha, Ela pode ter algum ganho com o chamado eleitor independente, que oscila a depender da notícia. O Flávio leva vantagem, porque essa bolha está assentada no patriarcado, em uma política muito mais masculina e acostumada a não ver a mulher como protagonista na política."

'Se crise se prolongar, Lula ganha jogando parado'

Na avaliação do professor, o principal beneficiário indireto da crise é o governo Lula.

Segundo ele, o episódio Michelle x Flávio tirou de cena o desgaste em torno do caso do senador Jaques Wagner.

O senador teria recebido pagamentos e benefícios em troca de apoio a medidas no Congresso que ajudariam o Banco Master, como a chamada "Emenda Master" — algo que ele nega.

"Tende a reduzir o desgaste da pauta, que não seria pequeno. Seria retomar a questão da corrupção para o PT, mesmo que o Lula não fosse diretamente envolvido."

Ele diz que, se a crise se prolongar, Lula pode "jogar parado". "É melhor ele não se meter nessa encrenca e deixar que a própria direita tenha comportamento autofágico do que chamar holofotes pra ele".

Michelle Bolsonaro, avalia, "acabou prestando um grande serviço para o Lula no momento mais agudo da crise."