Aura ou carma: de onde vêm a veneração e o temor inspirados pelo número da camiseta na Seleção

Criança pinta a bandeira do Brasil na rua, parte da decoração para Copa do Mundo

Crédito, Marcelo Camargo/Agência Brasil

    • Author, Luiz Antônio Araújo
    • Role, De Porto Alegre para a BBC News Brasil
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A camiseta mais famosa do futebol brasileiro estará ausente do jogo de estreia da Seleção na Copa do Mundo, diante do Marrocos, neste sábado (13/6), às 19h, no Metlife Stadium, em Nova Jersey.

Confirmado no dia 29 de maio como portador da camisa 10 até o final da Copa, o atacante Neymar estava afastado dos gramados desde o dia 17 com lesão na panturrilha direita.

O jogador do Santos usou o número mítico da Seleção pela última vez há exatos dois anos e oito meses.

Na ocasião, em 17 de outubro de 2023, o Brasil foi derrotado por 2X0 para o Uruguai em partida válida pelas eliminatórias da Copa.

Desde aquela terça-feira em Montevidéu, a dezena verde-amarela vinha sendo ostentada por Vini Jr., atacante do Real Madri, a quem agora caberá o número 7.

A aura — e o carma — associados à numeração de camisetas são daqueles detalhes que fazem o futebol assumir às vezes ares de esoterismo de chuteiras.

Apresentadora do programa Balanço da Copa, do SBT, Carol Barcellos afirma que o número da camisa da Seleção traz mais força do que peso a quem a veste.

"Ter a chance de vestir uma camisa que tem um encanto, é mágica, para pouquíssimos seres vivos, é uma grande oportunidade. E para a gente, vai ter sempre muita magia", diz a jornalista à BBC News Brasil.

Mais do que exigência regulamentar, os algarismos exibidos nas costas dos uniformes tornaram-se substantivos comuns utilizados até por quem nunca assistiu a um jogo.

Em português, camisa 10 é sinônimo de protagonismo, maestria, alta performance — ou, no mínimo, elevada expectativa.

Afinal, essa foi a peça vestida por Pelé nas três primeiras Copas do Mundo conquistadas pela Seleção Brasileira — em 1958, 1962 e 1970.

Inspirados no rei do futebol, seleções nacionais e times passaram a reservar o número aos melhores atletas.

Entre eles, estão Diego Maradona e Lionel Messi, da Argentina, Michel Platini e Zinedine Zidane, da França, Roberto Baggio, da Itália, além dos brasileiros Zico, Raí, Ronaldinho Gaúcho e Kaká.

A par de seus múltiplos talentos e diferenças, todos esses jogadores lendários tiveram em comum o número 10.

"O número da camisa pesa de jeitos diferentes, conforme o olhar de cada um", opina o jornalista e escritor Juca Kfouri à BBC News Brasil.

"Pesa muito para quem olha a camisa 10 e identifica nela o melhor do time desde que o rei Pelé a ressignificou, por acaso."

Por azar, a Seleção Brasileira de 1958 cometeu um escorregão burocrático e não enviou com antecedência os nomes e números dos jogadores ao comitê organizador da Copa na Suécia.

O incidente, que tinha tudo para se resumir ao ridículo — o goleiro Gilmar entrou em campo com a camiseta número 3, o ponta-direita Garrincha, com a 11 —, ascendeu ao sublime ao brindar o então adolescente Edson Arantes do Nascimento com o número 10. O resto é história.

Jogador Vini Jr durante lance de jogo de futebol entre Brasil e Colômbia válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo

Crédito, Bruno Peres/Agência Brasil

Legenda da foto, Hoje com a camisa 7, Vini Jr. vinha vestindo a 10 desde 2023

História, pondera Kfouri, que pode ser distinta a depender da perspectiva nacional.

"O holandês dirá que bom mesmo é quem usa a 14, de Johan Cruyff", lembra.

O futebol teria sido outro se a numeração de jogadores não tivesse surgido no início do século passado como forma de facilitar a identificação dos atletas em um esporte que se massificava.

"Em 1911, houve uma inovação sensacional em uma partida local de 'Futebol Australiano' em Sydney quando os jogadores dos dois times vestiram um número diferente às costas", afirma a Federação Internacional de História e Estatística do Futebol.

Mesmo essa primazia, entretanto, é controversa: imagens de um jogo entre Fitzroy e Collingwood, da Austrália, mostram jogadores usando números em maio de 1903.

Em 1939, a Liga de Futebol britânica decretou que todos os times deveriam usar camisas de 1 a 11, mas a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o fechamento dos estádios adiou a implantação da norma.

Nos primeiros tempos, a ordem da numeração variava. O goleiro invariavelmente era identificado com o número 1. A partir dele, a distribuição dos algarismos prosseguia entre os jogadores de linha, da esquerda para a direita (do ponto de vista oposto ao do goleiro), até o ponta-esquerda, a quem era atribuído o 11.

Mudanças na forma de jogar complicaram o esquema inicial. A formação clássica tinha dois zagueiros, três meio-campistas e cinco atacantes (o famoso 2-3-5).

Quando o antigo centro-médio, com o número 5, recuou para se tornar zagueiro central, posicionando-se entre os números 2 e 3, a sequência embaralhou-se para sempre.

Na primeira Copa do pós-Segunda Guerra, a de 1950, a numeração começou a ser adotada, mas os critérios variavam de país para país. Nos seis jogos da Seleção Brasileira no Mundial, a única sequência de jogadores e números repetida foi a da semifinal e final: Barbosa (1), Augusto (2), Juvenal (3), Bauer (4), Danilo Alvim (5), Bigode (6), Friaça (7), Zizinho (8), Ademir Menezes (9), Jair da Rosa Pinto (10) e Chico (11).

A numeração fixa dos 22 jogadores titulares e reservas só passou a valer na Copa seguinte, a de 1954, na Suíça, quando o 10 ficou com José Lázaro Robles, o Pinga.

Jair da Rosa Pinto, com 22 gols pela Seleção, e Pinga, com 10, foram exímios jogadores, mas não a ponto de imortalizar o número da camisa.

Com o seu próprio 10 na biografia — o número de Copas que cobriu nos países-sede de 1982 a 2022 —, Kfouri aponta outro fator capaz de desequilibrar a balança dos números das camisetas: a história clubística.

"Memphis Depay (atacante do Corinthians) fez questão de tomar a 10 de Rodrigo Garro, o argentino que cultiva o número da camisa de Diego Maradona e Lionel Messi (atacantes da Seleção da Argentina), mas acabou com a 8 do Doutor Sócrates, muito mais importante que a 10 de Roberto Rivellino para o corintiano", diz o comentarista.

Zagallo está sentado em uma cadeira de rodas e posa em frente a sua estátua de cera inaugurada no Museu da Seleção Brasileira, na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Rio de Janeiro, em 2022

Crédito, Divulgação

Legenda da foto, Zagallo tinha forte apego ao número 13

Para o redator-chefe da revista Placar, Luiz Felipe Castro, o critério da numeração nos clubes — ou a falta dele — deveria ser levado mais a sério pelos clubes.

"Recentemente, vimos bons jogadores como Gabigol, então no Flamengo, e Rony, no Palmeiras, herdarem o número que, por uma série de razões, não lhes convinha (o 10), e não aguentarem essa pressão", argumenta.

Autor de Além das quatro linhas (2016), Democracia Fútbol Club (2019) e Um outro futebol (2026) o jornalista e escritor Roberto Jardim afirma que o holandês Ajax chegou a aposentar a camisa 14 para celebrar os 60 anos de seu eterno titular, Cruyff.

A medida pode proteger jovens da pressão da comparação com ídolos consolidados.

"Não lembro, por exemplo, de nenhum camisa 5 ou 9 do Internacional que tenha tido o desempenho ou a qualidade de Falcão ou Fernandão, respectivamente, depois deles", explica.

"O mesmo vale para a 7 do Grêmio, imortalizada por Renato Portaluppi. A 10 do Flamengo só encontrou similaridade com Zico em Petkovic e, agora, de Arrascaeta."

Outro veterano em coberturas de Copas — esteve na Argentina, em 1978, pelo Jornal do Brasil, e na Espanha, em 1982, pela Folha da Tarde —, o jornalista Nilson Souza diz que todas as camisetas pesam.

"Algumas pesam alguns gramas, outras pesam quilos, e a número 10 pesa toneladas pela quantidade de jogadores talentosos que já a vestiram", afirma.

Não há camiseta que compense a falta de qualidade do atleta, alerta Souza, utilizando o exemplo do volante gaúcho Claiton.

"Ele usou a camisa 5, de Falcão, no Internacional, a camisa 7, de Garrincha, no Botafogo, e a camisa 10, de Pelé, no Santos. Só vestiu camisas pesadas, e pesaram tanto que ele nunca se destacou."

Um mergulho na cabala das camisas seria incompleto se não incluísse a 9, que na Seleção foi de Zózimo (1958), Coutinho (1962), Tostão (1970), Zinho (1994) e Ronaldo Fenômeno (1998, 2002 e 2006), recaindo hoje sobre Matheus Cunha.

"E tem a 7", acrescenta Kfouri, lembrando que a camiseta vestiu "Mané Garrincha, o mais irreverente gênio da História do futebol, e veste Cristiano Ronaldo, o mais perfeccionista".

"Mas, veja: Zagallo usou a 7 em 1958, na Suécia, embora jogasse na ponta-esquerda", complementa.

"Depois a 21, em 1962, no Chile, múltiplo de sete. No Flamengo e no Botafogo usou a 11, mas ficou ligado ao 13, embora não votasse no PT..."

Se fosse vivo (faleceu em 2024), o supersticioso Zagallo talvez lembrasse de um detalhe que une as Copas de 1958 e 2026: em ambas, a Seleção estreou sem o 10 (na Suécia, lesionado, Pelé ficou no banco até o terceiro jogo, contra a União Soviética).

E não esqueceria de ressaltar que "Estados Unidos" tem 13 letras, e a bandeira do país, 13 listras.