09 de outubro, 2008 - 13h48 GMT (10h48 Brasília)
Hernando Salazar
Da BBC Mundo em Bogotá
Guerrilheiros e paramilitares colombianos continuam a recrutar menores e esta se tornou uma das principais causas do deslocamento forçado, segundo depoimentos de pais que tiveram seus filhos recrutados, o governo e organizações não-governamentais que trabalham com o tema.
Não se sabe exatamente quantas crianças engrossam as fileiras dos grupos armados ilegais que há quatro décadas se enfrentam no conflito colombiano. Mas uma coalizão contra o envolvimento de crianças e jovens nesta guerra estima que são entre 8 mil e 13 mil.
"Estimamos que 30% dos membros dos grupos armados ilegais são menores", disse à BBC Maria Clara Melguizo, porta-voz da coalizão.
Melguizo acrescenta outro fato perturbador: a idade média dos recrutas forçados diminuiu de 13,5 anos em 2002 para entre 11 e 12 anos agora.
"O fenômeno aumentou vertiginosamente por vários fatores. O enfraquecimento da guerrilha desencadeou mais pressão e recrutamentos", avalia Melguizo.
A ONG Conselho Consultivo para os Direitos Humanos e Deslocamentos Forçados (Codhes) afirma que o recrutamento forçado "por todos os atores" do conflito se tornou uma das principais causas do deslocamento na Colômbia.
Isto é confirmado por fontes oficiais. O Ministério da Defesa diz inclusive que a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) estão armando rapidamente "milicianos" (simpatizantes da causa) e levando-os a combate.
Histórias
São histórias como a de uma mulher de 40 anos que relatou à BBC como enfrentou um comandante da guerrilha para evitar que seu filho fosse parar na linha de frente da batalha.
"Tirei meu filho do barco e enfrentei o comandante guerrilheiro (das Farc). Disse: 'se quiser, me leve, mas não meu filho'. Agora, prefiro passar fome em Bogotá, mas pelo menos ter meus filhos comigo", ela relatou.
Não era a primeira vez que a mulhera desafiava as Farc. Já o havia feito quando os guerrilheiros quiseram levar seu filho mais velho e uma filha que tinha 15 anos na época.
Da última vez, porém, ela diz que sua atitude não agradou o líder da guerrilha e, assim, aumentaram as ameaças contra ela.
No passado mês de fevereiro, ela deixou a região de Meta, no leste do país, perto da fronteira com o Brasil.
Ela diz que muitos meninos concordam com o recrutamento por causa da "ilusão de poder ser comandantes" da guerrilha e na esperança de prestar ajuda econômica às suas famílias pobres.
Outra mulher da mesma região que conversou com a BBC contou ter resolvido se mudar depois que os combatentes demonstraram querer alistar o terceiro de seus filhos.
"Tenho um filho que as Farc levaram aos 17 anos e uma filha que levaram aos 15", disse a mulher, de 34 anos.
"Também quiseram levar meu filho de 12 anos. Por isso vim (para Bogotá), porque não quero perdê-lo."
Ela se queixa ao dizer que, em Bogotá, não consegue reconhecimento oficial como deslocada.
Indígenas
A coalizão contra o recrutamento infantil diz ter observado que "desde o início de 2007 tem se registrado recrutamento maciço, por exemplo, nas comunidades indígenas".
"Este ano tem havido recrutamentos nos Departamentos (Estados) de Guainia e Vaupés (também próximo do Brasil)", diz a Melguizo.
Aura Abril, diretora da Fundação Mulheres, Trabalho e Família, também disse à BBC que recebeu relatos de famílias que se mudaram para fugir dos recrutamentos forçados.
"Sabemos de vários casos de mulheres, em áreas como Tolima (ao sul de Bogotá) e Meta, que se deslocaram para impedir o recrutamento dos seus filhos", diz ela.