15 de agosto, 2008 - 08h25 GMT (05h25 Brasília)
A questão energética e a presença dos brasiguaios podem colocar as relações entre o Brasil e o Paraguai "à prova", afirma uma matéria publicada na edição desta sexta-feira do jornal francês Le Monde.
De acordo com o diário, a energia é, ao lado da pobreza, um dos principais desafios do novo presidente paraguaio, Fernando Lugo, que toma posse nesta sexta-feira em Assunção.
"Ao reivindicar a 'soberania energética' de seu país, Lugo pede uma revisão do tratado que rege a hidrelétrica de Itaipu, que o Paraguai compartilha com o Brasil", diz o jornal.
Segundo o Le Monde, os paraguaios utilizariam apenas 12% da energia produzida pela hidrelétrica binacional, mas teriam "a obrigação de vender o excedente aos brasileiros a um preço bem inferior ao do mercado".
O diário destaca ainda a posição das autoridades brasileiras, que estariam dispostas a discutir o preço da eletricidade, mas rejeitam uma revisão do tratado antes de 2023.
O Brasil paga ao Paraguai cerca de US$ 45 por megawatt hora. Na composição do preço estão incluídos itens como juros da dívida, royalties e custos de operação. Do total, aproximadamente US$ 2,80 correspondem à compensação pela cessão de energia não utilizada pelo Paraguai. É esse valor que os paraguaios querem aumentar.
'Causa nacional'
O jornal paraguaio ABC Color também destaca a reivindicação do governo paraguaio pela revisão do tratado de Itaipu em um editorial publicado na edição desta sexta-feira.
O artigo afirma que "Itaipu é uma causa nacional" e que a reforma do acordo é um "forte apelo para pôr fim a atual exploração imperialista e indigna a que o Brasil submete o Paraguai neste empreendimento".
Além de Itaipu, o jornal cita ainda o acordo entre o Paraguai e a Argentina sobre a usina hidrelétrica binacional de Yacyretá.
Segundo o diário, Lugo deve aproveitar a visita do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e da líder argentina, Cristina Kirchner, por ocasião de sua posse, para lembrá-los que seus países "têm roubado" os recursos que o Paraguai necessita para seu desenvolvimento econômico e social.
"Os presidentes do Brasil e da Argentina devem saber que a exploração maldosa a que submeteram o Paraguai nas últimas décadas deve acabar porque é uma ofensa à dignidade do povo paraguaio e que o novo governo está disposto a recorrer a todos os recursos necessários para, com a força da razão, fazer valer nossos direitos claros, justos e irrenunciáveis sobre nossa soberania energética", conclui o texto.