05 de agosto, 2008 - 21h54 GMT (18h54 Brasília)
Marcia Carmo
De Buenos Aires para a BBC Brasil
Pelo menos duas pessoas morreram e 33 ficaram feridas nesta terça-feira na Bolívia depois que a polícia tentou liberar uma estrada bloqueada por mineiros que realizavam um protesto contra o governo.
As mortes ocorreram em meio a um clima de crescente tensão entre seguidores do presidente Evo Morales e seus opositores e a cinco dias da realização do referendo revogatório que decidirá a permanência ou não no poder de Morales e de oito prefeitos (governadores).
Segundo a imprensa boliviana, as mortes ocorreram durante enfrentamentos entre os mineiros e os policiais na estrada, que liga o Departamento (equivalente a estado) de Cochabamba (centro do país) aos Departamentos de La Paz e Oruro.
O vice-ministro de governo, Rubén Gamarra, disse que os mineiros teriam queimado um ônibus e dinamitado uma ponte.
Os mineiros querem mudanças nos benefícios concedidos à categoria e contam com o apoio da central sindical COB (Central Operária Boliviana), a maior da Bolívia, nos protestos nas estradas.
Viagem cancelada
Também nesta terça-feira, o chamado Comitê Cívico (órgão que reúne desde políticos a empresários e trabalhadores) do Departamento de Tarija anunciou uma greve por tempo indeterminado, além de manifestações nas ruas.
O protesto foi um dos motivos que levou Morales a pedir aos colegas da Venezuela, Hugo Chávez, e da Argentina, Cristina Kirchner, a desistissem da viagem que fariam, nesta terça-feira, a Tarija.
O pedido foi feito minutos antes do embarque de Chávez e Cristina em Buenos Aires.
"Falei com meu amigo Evo agora e ele me disse que por segurança era melhor suspendermos a viagem", disse o líder venezuelano numa entrevista na capital argentina.
Chávez disse que a idéia da viagem seria mostrar apoio a Morales no referendo. Segundo o governo argentino, os três falariam ainda de questões energéticas.
Por sua vez, Cristina Kirchner disse que espera que "a situação se normalize na Bolívia".
Divisão
Tarija é um pólo produtor de gás, de onde se exporta o produto para o mercado argentino. Esse departamento foi um dos quatro – dos nove do país – que votaram, recentemente, a favor da autonomia financeira e política do governo central.
A Bolívia, na opinião de diferentes analistas, está cada vez mais dividida entre as regiões ricas, que votaram por esta autonomia, e as regiões menos favorecidas, onde se concentram os seguidores de Morales.
Quando os Departamentos votaram pela autonomia, o presidente foi contra, dizendo que as votações eram ilegais.
Agora, a oposição que controla estas regiões critica Morales e afirma que o referendo revogatório, marcado para o próximo domingo, é inconstitucional.
Os governadores e líderes cívicos desses Departamentos, muitos deles em greve de fome, querem que o presidente reconheça o resultado dos referendos nessas regiões, que aprovaram a autonomia.
Eles também querem que o governo volte atrás na decisão de cortar verbas que eram repassadas a eles pelo governo central.
Os recursos estão sendo usados no pagamento de benefício para pessoas pobres e com mais de 60 anos. Não é a primeira vez que
líderes opositores fazem greve de fome contra o governo central.