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26 de junho, 2008 - 09h44 GMT (06h44 Brasília)

Lucas Mendes
Colunista da BBC Brasil

Inderrai

Em inglês, In the Heights. Em inglês latino, Inderrai. Nossos irmãos hispânicos são letrófagos, devoram letras. Nós também, mas temos apetites diferentes.

Para eles, penthouse é penrrau. Club sandwich é clusanduih. E a melhor: Lower East Side, o bairro, é loisada.

In the Heigths este ano ganhou o prêmio Tony de melhor musical da Broadway e pouca gente nos Estados Unidos e até mesmo de Nova York sabe onde fica o bairro.

O mapa da cidade é preciso: começa na rua 155, em Manhattan, e vai até o Fort Tyron Park, o ponto mais ao norte da ilha, mas os turistas quando vão ao museu do Cloister's, de arte medieval, não sabem que estão no Inderrai.

O bairro é grande, longo, dividido pela avenida Broadway. O lado leste é latino de classe média baixa. Um apartamento de um quarto vale US$ 100 mil. O lado oeste é mais diversificado e mais afluente. O mesmo apartamento vale pelo menos US$ 250 mil.

Os dois lados estão quentes no mercado imobiliário, mas a peça fervendo na Broadway, premiada com Tony de melhor musical, foi inspirada no lado pobre. Lin Manuel Miranda tem 28 anos e escreveu a peça quando estava na faculdade.

Levou sete anos para juntar dinheiro e foi às alturas com o primeiro musical ou peça latina, da concepção ao elenco, na Broadway. Só o diretor, também muito jovem, é gringo.

In the Heights é uma mininovela com hip hop, salsa e jazz, uma típica salada de Nova York, e o criador recebeu o prêmio com um rap que, entre outras coisas, homenageava Stephen Sondheim: "Look mr. Sondheim, I made a hat where there was never a hat and it's a Latin hat at that". Sabe tudo de musical.

O sucesso da peça chamou atenção para o bairro, que não faz nenhuma questão de ser famoso. Pelo contrário. O anonimato, combinado com a proximidade do Harlem, mantém os preços baixos.

A história do bairro é rica. Foi palco da guerra pela independência no século 18. No começo do século 20 foi invadido pelos irlandeses, holandeses, italianos e alemães que moravam no sul de Manhattan e tinham suas guerras eles e com os negros do Harlem na fronteira sul do bairro.

No fim dos 30 e 40 foi ocupado por judeus alemães e austríacos, logo em seguida por negros do sul dos Estados Unidos, em seguida por porto-riquenhos, cubanos e dominicanos.

A maioria dos brancos caiu fora e os que tinham dinheiro ocuparam a parte mais cara, mais alta e mais afastada dos latinos e negros, Hudson Heights. No lingo local, Rassonrai.

Mais brutal do que todas etnias, na década de 80 veio a invasão a crack cocaína e de uma agulhada para outra o crime do bairro explodiu. Em 91, 119 homicídios, um dos recordistas da cidade.

Rudolph Giuliani ainda era promotor e Alphonse D'Amato ainda não era senador quando foram ao bairro provar a facilidade de comprar drogas. Câmeras de televisão escondidas documentaram a ação dos dois "repórteres".

Foi uma agulhada na opinião pública. A polícia criou um distrito policial no meio do bairro e despejou 200 policiais nas ruas. Havia uma prisão por drogas em cada hora e meia.

O bairro tem seis pontes e três auto-estradas que facilitam entradas e saídas rápidas de traficantes, mas os resultados apareceram em pouco tempo. O crime despencou.

Ano passado, Inderrais só teve cinco homicídios. O Upper East Side, um dos bairros com maior renda per capita do país, teve 10.

In the Heights está nas alturas.