09 de março, 2008 - 23h29 GMT (20h29 Brasília)
Cláudia Jardim
De Caracas para a BBC Brasil
O governo da Venezuela anunciou neste domingo a normalização imediata das relações diplomáticas com a Colômbia, colocando um fim à crise enfrentada por Equador, Colômbia e Venezuela.
O governo venezuelano expulsou do país o embaixador colombiano no dia 4 de março, alegando “defesa da soberania, da pátria e da dignidade do povo venezuelano”.
O reatamento foi anunciado dois dias depois que os presidentes equatoriano, Rafael Correa, colombiano, Álvaro Uribe, e venezuelano, Hugo Chávez, selaram uma trégua simbólica com um aperto de mão na reunião do Grupo do Rio, realizada na República Dominicana na sexta-feira.
“Animado pela vitória da paz e soberania obtida no Grupo do Rio (...) onde se demonstrou a importância da união latino-americana para a superação dos conflitos, decidimos reestabelecer o normal funcionamento das relações diplomáticas com o governo da República da Colômbia”, diz uma nota emitida pela chancelaria venezuelana neste domingo.
O ministério de Relações Exteriores também anunciou a reabertura imediata da sua embaixada em Bogotá, e se dispôs a receber o corpo diplomático colombiano na capital, Caracas, “no mais breve prazo”.
No Grupo do Rio, Chávez assumiu o papel de conciliador na crise entre Equador, Colômbia e Venezuela, chamando à “paz na América Latina” e amenizando a tensão que marcou uma crise sem precedentes na região andina.
O secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), José Miguel Insulza, disse no sábado que a intervenção de Chávez durante a reunião foi decisiva para solucionar a crise.
"Na verdade (Chávez) me surpreendeu gratamente. A intervenção (na reunião) do presidente Chávez foi muito importante, porque o tom que ele aplicou foi muito distinto (do usado antes). Foi um tom reflexivo, conciliador, que era uma coisa necessária e fundamental neste momento", disse Insulza ao jornal chileno El Mercurio.
Tropas na fronteira
A contenda teve início no sábado passado, quando o Exército da Colômbia invadiu o território equatoriano para bombardear um acampamento do grupo rebelde Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). A incursão militar resultou na morte de 25 guerrilheiros, entre eles, o porta-voz da guerrilha, Raúl Reyes.
Chávez já havia ordenado que as tropas enviadas à fronteira com a Colômbia fossem retiradas do local, restabelecendo assim as relações comerciais nas pontes fronteiriças.
O Equador, por enquanto, se mantém cauteloso. O presidente Rafael Correa, disse que seu país não vai restabelecer imediatamente as relações diplomáticas com a Colômbia, e que será elaborado um “cronograma” para um novo diálogo.
Durante a crise, Correa reivindicou que a OEA condenasse a Colômbia por violação de sua soberania territorial.
Investigação
Apesar da “trégua” selada na sexta-feira, o presidente da OEA, José Miguel Insulza, disse que ainda falta “fechar bem a crise” entre os países andinos.
"Acredito que ainda é necessário fazer uma quantidade de trâmites e fechar bem esse processo”, disse Insulza, logo após reunião com o presidente equatoriano para dar início aos trabalhos de uma comissão que investigará a incursão militar colombiana.
A comissão integrada pelos embaixadores de Brasil, Argentina, Bahamas, Panamá e Peru deve viajar na segunda-feira ao local onde o Exército colombiano bombardeou o acampamento das Farc para produzir um relatório que será discutido na reunião de chanceleres da OEA, no dia 17.
"É importante concluir bem este processo e para isso é importante saber e ter a opinião coletiva de como ocorreram as coisas”, disse o secretário-geral da OEA, que viaja nesta terça-feira para Bogotá.
Insulza disse que depois de superada a crise, espera que o fato ocorrido seja “reparado” e sirva “para uma adequada interpretação das normas que regem o direito interamericano e a convivência entre os países”.
Rafael Correa agradeceu a Insulza o acolhimento de seu pedido para que a OEA “ratificasse a inviolabilidade de territórios e de soberania dos Estados”.
Esta é a segunda vez desde que assumiu o poder que o presidente equatoriano queixa-se com Álvaro Uribe por violação a seu território.
Em 2007, no início de seu mandato, Correa teve um mal estar diplomático com Uribe devido a fumigações que governo colombiano realizou com o agrotóxico glifosato na fronteira com o Equador, alegando ser parte de seu plano de erradicação das plantações de coca na região.
As fumigações resultaram na contaminação de dezenas de camponeses equatorianos e na perda de milhares de hectares de plantação e produção agropecuária.