14 de fevereiro, 2008 - 17h37 GMT (15h37 Brasília)
Marina Wentzel
De Hong Kong para a BBC Brasil
A China lamentou nesta quinta-feira a decisão do cineasta norte-americano Steven Spielberg de abandonar a posição de consultor artístico dos Jogos Olímpicos.
O diretor que se opõe à postura chinesa em relação ao conflito de Darfur, no Sudão, anunciou a decisão na terça-feira, com o argumento de que a sua consciência não lhe permitiria participar da organização da Olimpíada.
O Ministério das Relações Exteriores chinês disse que Spielberg poderia ter “outros motivos” por trás da crítica que fez à ligação da China com o país africano, mas não especificou quais seriam esses motivos.
Em meio à polêmica, o jornal londrino The Independent publicou na capa da edição desta quinta-feira uma carta assinada por 80 laureados do prêmio Nobel e ex-atletas olímpicos pedindo que a China tome mais providências para ajudar a acabar com o conflito.
Observadores avaliam que esta foi a crítica mais forte que os Jogos Olímpicos sofreram até o momento.
Armas e milícias
A China compra petróleo e vende armamentos ao Sudão. Cerca de dois terços das exportações sudanesas do combustível têm como destino o parceiro asiático.
Ativistas dizem que as armas chinesas acabam parando na mão das milícias supostamente protegidas pelo governo e acusadas de matar rebeldes e civis na região de Darfur.
O governo do Sudão nega que apóie a milícia Janjaweed, responsável pelas atrocidades cometidas em Darfur e diz que o sofrimento das minorias está sendo exagerado.
Organizações não governamentais ameaçam boicotar a Olímpíada, para pressionar Pequim a fazer mais pela paz no país africano.
Discurso vazio
Ao comentar a decisão de Spielberg, o porta-voz do Ministério do Exterior, Liu Jianchao, disse que “discursos vazios” não vão ajudar a resolver o problema e defendeu o papel da China, ressaltando que o país já mandou tropas de paz e um enviado especial à região.
“A China também está preocupada com a situação humanitária em Darfur (mas) discursos vazios não vão adiantar. Esperamos que as pessoas sejam mais pragmáticas”, disse Liu à imprensa.
“É compreensível que algumas pessoas não entendam a política do governo chinês para Darfur, mas eu temo que algumas pessoas possam ter outros motivos e isso é inaceitável”, afirmou em referência à desistência de Spielberg.
Pelo menos 200 mil pessoas morreram e dois milhões foram forçadas a deixar suas casas por causa do conflito que já dura cinco anos.
Países membros das Nações Unidas tentam aprovar resoluções no Conselho de Segurança da instituição para pressionar o Sudão a acabar com o conflito, mas esbarram na oposição da China, que tem poder de veto no conselho.
Crimes em andamento
Steven Spielberg anunciou que deixaria de participar como conselheiro artístico das cerimônias de abertura e encerramento dos jogos na terça-feira.
“O governo do Sudão carrega a maior parte da responsabilidade pelos crimes em andamento, mas a comunidade internacional, e particularmente a China, deveria estar fazendo mais”, disse Spielberg.
Spielberg não está sozinho nas críticas. A carta publicada pelo jornal londrino The Independent pede que a China aproveite a oportunidade que tem e ajude ativamente a acabar com o conflito de Darfur.
A carta, divulgada pela ONG Crisis Action no dia 12, diz que “o atual fracasso em responder a essa responsabilidade resulta, no nosso ponto de vista, em dar apoio a um governo que continua a perpetrar atrocidades contra seu próprio povo”.