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28 de janeiro, 2008 - 08h08 GMT (06h08 Brasília)

Marina Wentzel
De Hong Kong para a BBC Brasil

Recessão nos EUA pode ajudar China a desenvolver mercado interno

Uma eventual recessão nos Estados Unidos pode ajudar a China a desenvolver o seu mercado interno e a amadurecer a estrutura da economia, apesar de causar desaceleração no ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), acreditam especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

Estimativas sugerem que mesmo que o crescimento do PIB chinês seja menor em 2008, a economia testemunhará uma expansão no setor de serviços e uma queda na inflação em meio a uma forte injeção de investimentos do Estado.

“Com a desaceleração nas exportações haverá mais consumo interno. Com um iuan mais forte frente ao dólar, importações crescerão, o setor de serviços se desenvolverá e a inflação poderá dar uma trégua”, acredita Stephen Green, analista chefe do banco Standard Chartered em Xangai.

“Entretanto, esse processo de 'amadurecimento' não será livre de dores, como o Partido Comunista gostaria que fosse”, ressalta ele.

Estudo realizado pelo Standard Chartered indica que a recessão americana afetará diretamente a economia chinesa, provocando uma queda no crescimento anual do PIB de 11,4% em 2007 para 8,2% em 2008.

Consumo e Exportações

Jonathan Anderson, economista sênior do banco UBS em Hong Kong, acredita que "a demanda doméstica da China está isolada da turbulência nos Estados Unidos".

“E mais importante ainda, o país passou por mais de uma queda considerável nas exportações nos últimos 15 anos e nunca mostrou sinais de impacto negativo”, enfatiza Anderson.

De acordo com o relatório do UBS, o impacto da recessão americana na China é limitado porque a importância das exportações na economia chinesa não é tão grande quanto se pensa.

“De acordo com estatísticas de produção, as exportações contribuem para 9% do PIB por valor agregado (...) as empresas exportadoras empregam apenas 7% da mão-de-obra e correspondem a somente 5% de todo o investimento em ativos”, segundo o documento.

Ainda assim, o crescimento do PIB chinês deverá diminuir em 2008 e fechar o ano com crescimento de menos de 10%, mas a retração de 1% a 1.5% ocorrerá quase que exclusivamente no setor exportador, aponta o banco suíço.

Investimento e Commodities

Frank Gong, analista chefe para China do banco JP Morgan, diz que o forte investimento em infra-estrutura planejado pelo governo para esse ano ajudará não apenas a economia chinesa a manter-se aquecida, como poderá servir de “almofada” e absorver o impacto da recessão americana em outros emergentes.

“Com a perspectiva da recessão americana e o esfriamento global, a tendência é de queda geral no preço das commodities. Mas dado o grande investimento em infra-estrutura e o aumento no consumo, países como o Brasil terão a quem vender suas commodities como ferro e soja.”

O JP Morgan prevê crescimento de 10.5% para a China em 2008 e o consumo decorrente dessa expansão “poderá absorver o impacto da crise americana no Brasil”, sugere Gong.

Entretanto, o analista do Citibank em Pequim Sheng Minggao discorda. “É claro que a China não sofrerá demais com a recessão, mas certamente ela não poderá salvar o mundo”, conclui.