17 de janeiro, 2008 - 12h40 GMT (10h40 Brasília)
Anelise Infante
De Madri para a BBC Brasil
A proposta de uma letra para o hino nacional espanhol foi rejeitada após uma polêmica envolvendo o teor de seus versos.
A composição ganhadora de um concurso realizado na semana passada agradou os jurados, mas foi altamente criticada pelos espanhóis e acabou descartada.
Desde que foi divulgada pela imprensa, a letra foi taxada de "boba, poesia de criança, ridícula" e foi associada ao regime do general Francisco Franco.
A música desagradou tanta gente que deputados como Carmem Calvo, ex–ministra da Cultura, e celebridades como o piloto Fernando Alonso, bicampeão mundial de Fórmula 1, afirmaram que não cantariam um hino como aquele.
Escrita pelo engenheiro desempregado Paulino Cubero, de 52 anos, a letra venceu outras 300 na final e foi escolhida por um júri composto por membros do Comitê Olímpico Espanhol (COE), músicos e intelectuais.
Festa cancelada
A letra seria formalmente apresentada durante uma festa de gala no próximo sábado para personalidades da cultura, política e do esporte e cantada ao vivo pelo tenor Plácido Domingo.
Durante a cerimônia, o Comitê Olímpico espanhol esperava conseguir 500 mil assinaturas de apoio à letra antes de levá-la ao Parlamento para a votação final.
"Tivemos que cancelar tudo porque a letra provocou muita polêmica para não dizer muito rechaço", admitiu o presidente do Comitê Olímpico, Alejandro Blanco, organizador do concurso.
A maior crítica era sobre a abertura do hino: Viva España, que foi considerada fascista porque lembrava uma antiga saudação do ditador Francisco Franco.
"Minha intenção era mostrar o orgulho de ser espanhol", disse Paulo Cubero. "É a pátria que eu entendo. Pensei nas pessoas que pegam o metrô para ir trabalhar. Se não gostaram, eu realmente me sinto um perdedor."
"Um hino tem que unir, e esse provocou o contrário", disse o presidente do comitê olímpico.
"Sem consenso fica impossível. Nos sentimos frustrados, como disse Plácido Domingo, mas continuamos com a idéia de ter uma letra", acrescentou. "Nossos atletas nunca têm o que cantar quando ganhamos uma medalha."
A Espanha tem um hino sem letra desde 1761. De autoria desconhecida, a música tem origem em uma marcha militar. Quando o rei Carlos 3º a escolheu para ser usada em eventos oficiais, em 1770, ganhou o apelido de Marcha Real.
Sob a ditadura de Franco, foi criada uma letra para acompanhar a música, mas os versos foram abolidos após a morte do ditador, em 1975, por causa da associação com o regime.