06 de dezembro, 2007 - 14h39 GMT (12h39 Brasília)
Tariq Saleh
De Beirute
As novas medidas de segurança adotadas pelo primeiro-ministro do Líbano, Fouad Siniora - que há cerca de duas semanas assumiu as funções de presidente -, mudaram os hábitos dos libaneses.
Siniora enviou tropas às ruas para garantir a segurança e tentar controlar a instabilidade e diminuir o medo crescente de confrontos entre facções políticas rivais. Nas cidades, carros civis convivem com veículos militares que patrulham um país com a Presidência vaga.
O premiê passou a desempenhar os poderes executivos depois que o presidente Émile Lahoud deixou o cargo no dia 24 de novembro, sem nomear substituto.
Uma nova tentativa de eleger um sucessor para Lahoud está marcada para esta sexta-feira, dia 7. Esta será a sexta vez que os libaneses tentam fazer a votação, já que os blocos políticos rivais ainda não conseguiram chegar a um consenso sobre um nome para assumir a Presidência.
O comandante das Forças Armadas, general Michel Suleiman, ganhou força como candidato de consenso, mas a escolha depende de uma emenda à constituição. Isso porque, de acordo com as leis libanesas, qualquer funcionário público, incluindo militares, somente pode exercer um cargo político dois anos depois de deixar o posto.
Situação
Com os políticos ainda discutindo, muitos libaneses tentam se adaptar à nova realidade sem presidente. Em uma das principais ruas de Beirute, conhecida como rua Gemayzeh, é possível perceber como a crise política do país afetou o cotidiano.
“Nós vivemos como um eletrocardiograma, temos momentos em que há movimento, mas é só acontecer algo que os clientes somem, para depois retornarem quando as coisas se acalmam um pouco”, disse o gerente de um bar na região, Kamal Aadar.
“Qualquer discurso de qualquer político, e de qualquer um dos lados, serve como um termômetro para nós. As pessoas saem às ruas dependendo dos discursos”, afirmou o barman Bashir Halabi.
A oposição acusa Siniora de atender a interesses dos Estados Unidos e seus aliados, enquanto integrantes do governo acusam a Síria de interferir nos assuntos políticos do país e de tentar minar sua maioria no parlamento.
O empresário Ali Ibrahim Ahmad disse que os políticos no país estão em um jogo perigoso e que pode acabar em desastre.
“No início apoiava um lado, mas depois comecei a ver que tudo virou um circo, e nós somos os palhaços”, disse ele. “Toda vez que tentam chegar a um acordo, algum lado exige algo mais e voltamos todos à estaca zero. Isso prova que eles não querem se entender”.
Quanto ao nome de Suleiman para a Presidência, Ahmad disse considera o general como um bom candidato. “Gosto dele porque é mais neutro, mas não sei se terá forças para agüentar a pressão que é a Presidência”.
Vácuo
O vácuo de poder no Líbano é apenas mais um capítulo de uma longa série de eventos que começou com a guerra entre o Hezbollah e Israel, em 2006. Após o conflito, de 34 dias, que matou mais de 1,2 mil libaneses (a maioria civis) e 157 israelenses (a maioria militares).
Depois da guerra, a oposição libanesa pró-Síria, liderada pelo Hezbollah, exigiu a dissolução do governo de Siniora e a formação de outro de unidade nacional. O bloco governista, anti-Síria e apoiado pelo Ocidente, negou qualquer negociação.
Desde dezembro do ano passado, militantes oposicionistas acampam ao redor do prédio do governo para exigir a renúncia de Siniora. Isso levou a um breve confronto entre militantes dos dois lados em janeiro.
Em maio a situação se agravou, quando o Exército libanês envolveu-se em conflitos com militantes radicais no norte do país,
no campo de refugiados palestinos de Nahr Al-Bared. Mais de 400 pessoas morreram durante os cerca de três meses de confrontos.