Marcia Carmo
De Buenos Aires
Na contagem regressiva para entregar o cargo, o presidente argentino Nestor Kirchner prepara a casa para sua mulher e sucessora, a presidente eleita Cristina Fernández de Kirchner, que toma posse na próxima segunda-feira.
Antes de deixar o poder, o governo Kirchner anunciou ajustes de cerca de 20% para passagens de trens, metrô e ônibus e aumentou os impostos de exportação para os setores agrícola e petroleiro, ampliando o caixa do Estado. Além disso, Kirchner ainda garantiu a aprovação, no Congresso Nacional, do orçamento de 2008.
“Kirchner é um maridão. Ele está assumindo várias medidas antipáticas para aliviar o caminho para Cristina”, disse, nesta quarta-feira, o repórter de economia Willy Kohan, em seu programa “Somos Nosotros”, da rádio América.
Mais tarde, numa entrevista, nesta quarta-feira, ao programa “A Dos Voces”, da TV TN (Todo Noticias), Kirchner declarou: “Assumimos um país no inferno (...) e entrego a Cristina um país quase normal”.
Últimas medidas
A medida mais polêmica, no entanto, é o pedido de prorrogação, até dezembro de 2008, da chamada “lei de emergência econômica”, enviado ao Congresso. Essa lei autoriza o governo a adotar diferentes medidas sem precisar do aval dos legisladores.
A iniciativa gerou polêmica entre opositores ao governo, como o ex-candidato presidencial Ricardo López Murphy. Para a oposição, a lei foi adotada há seis anos, quando a Argentina vivia sua pior crise econômica e hoje, relembra a oposição, o país cresce a taxas recordes de mais de 8% ao ano.
A prorrogação foi aprovada esta semana na Câmara dos Deputados, mas nesta quarta-feira não houve quórum no Senado para sua votação.
Caberá a Cristina esperar pela sessão marcada para a semana que vem, poucos dias após sua posse.
Reajuste de preços
Para o economista Orlando Ferreres da consultoria Ferreres e Associados os ajustes de tarifas dos transportes eram necessários porque hoje a economia argentina sofre uma série de distorções.
“Os preços vinham sendo mantidos com subsídios do Estado. Agora, a expectativa é de que o próximo governo descongele as tarifas dos serviços públicos privatizados”, disse ele.
Segundo especulações de especialistas políticos, uma das propostas analisadas pelo próximo governo seria a de aumentar de modo diferenciado estes preços, protegendo os setores mais pobres.
Para o especialista em economia Willy Kohan, antes de deixar o governo, Kirchner também “ajudou” Cristina com a mudança recente na fórmula de cálculo da inflação que a manteria, oficialmente, menor do que a indicada pelas consultorias privadas. “É um maridão mesmo”, insistiu o especialista.
Kirchner assumiu a Presidência em maio de 2003, um ano e cinco meses depois da histórica crise de dezembro de 2001. Ele deixa o governo com expansão econômica inédita e queda nas taxas de pobreza e desemprego.