06 de dezembro, 2007 - 09h48 GMT (07h48 Brasília)
Claudia Jardim
De Caracas
O alto comando militar da Venezuela negou que tenha pressionado o presidente Hugo Chávez a reconhecer e aceitar a derrota no referendo que rejeitou, no domingo, sua proposta de reforma constitucional.
Durante uma entrevista coletiva convocada nesta quarta-feira, o ministro da Defesa, Gustavo Rangel, disse que "o presidente é ‘impressionável’, ou seja, ninguém o pressiona”.
A reação veio depois que o jornal El Nacional publicou um artigo com o título Um Chávez revoltado se negava a admitir a derrota, em que dizia que um grupo de militares ligado ao ex-ministro da Defesa Raúl Isaías Baduel teria pressionado o líder venezuelano a acatar a derrota ainda no domingo, antes mesmo do fim da apuração dos votos.
Com 90% das urnas apuradas, o Conselho Nacional eleitoral divulgou que 50,7% dos votos eram a favor do “Não” e 49,29% a favor do “Sim”.
Na madrugada da segunda-feira, quando admitiu a derrota, Chávez disse que se fosse esperar os quatro dias de apuração das urnas do exterior e de alguns outros Estados, o país estaria incendiado com protestos, e, por isso, resolveu admitir a derrota no domingo mesmo.
Decisão coletiva
O ex-general de Divisão, Alberto Müller Rojas, confirmou à BBC Brasil que no domingo o presidente se reuniu com o alto comando militar.
“Houve uma decisão coletiva em que se determinou que não seria prudente esperar a contagem de todos os votos para reconhecer a derrota. Não houve pressão”, reitera Müller Rojas, que até poucos meses ainda atuava nas Forças Armadas .
Para Müller Rojas, a polêmica teria como objetivo “construir uma visão junto à opinião pública de que as Forças Armadas são contrárias ao projeto socialista de Chávez, o que não é verdade”, afirmou.
Focos de preocupação
No país, cuja história é marcada por golpes de Estado e rebeliões militares, o tema das Forças Armadas sempre gera focos de preocupação, explicou à BBC Brasil o sociólogo Javier Biardeau.
Ele acredita que isso ocorre porque, historicamente, os militares são utilizados como elementos de sustentação política tanto pelo governo como pela oposição.
Um dos exemplos disso é o papel do ex-ministro de Defesa Raúl Isaías Baduel, que há um mês se retirou da base de apoio chavista por qualificar a reforma de “golpe constitucional”. Chávez o chamou de “traidor”.
Baduel atualmente figura como um dos opositores de Chávez e estima-se que ainda mantenha influência em um setor das Forças Armadas. De acordo com o El Nacional, teria partido dele a pressão para que Chávez admitisse a derrota.
Mas, ao contrário, do que se pensa, avalia o sociólogo, Chávez não necessita dos militares para se manter no poder.
"Chávez mantém relações personalizadas com os militares por ser um militar e não porque dependa das Forças Armadas para governar", afirmou.