23 de novembro, 2007 - 00h22 GMT (22h22 Brasília)
Claudia Jardim
De Caracas
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse "lamentar muito" a decisão do governo colombiano de dar por encerrada sua mediação com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em busca de um acordo humanitário para a libertação de reféns.
Depois de um dia de silêncio, Chávez falou pela primeira vez sobre a decisão do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, em um ato público com trabalhadores, reallizado em Caracas na noite desta quinta-feira.
“Por uma razão não estou de acordo: o governo colombiano decidiu de maneira unilateral, sem consultar-nos, suspender o trabalho. Eu lamento muito, não por mim, porque eu não tenho nenhum interesse, mas sim pela Colômbia”, disse o presidente venezuelano.
O governo da Colômbia anunciou na noite de quarta-feira que decidiu "dar por encerrada" a mediação realizada por Chávez com as Farc porque o presidente venezuelano teria desrespeitado um acordo em que havia se comprometido em não falar diretamente com o alto comando militar colombiano a respeito da questão dos reféns.
Poucas horas antes das declarações de Chávez, a chancelaria venezuelana já havia divulgado um comunicado no qual classificava a decisão do governo colombiano de "lamentável" e afirmava a aceitaria "com frustração".
"A Venezuela aceita esta decisão soberana do governo da Colômbia, mas manifesta sua frustração, já que desta maneira se aborta um processo que se vinha levando com pulso firme em meio a grandes dificuldades, havendo obtido importantes avanços em apenas três meses”, dizia o comunicado.
Prova de vida
Em sua primeira declaração pública sobre o assunto, Chávez disse que foi surpreendido na madrugada desta quinta-feira com a decisão de Uribe e disse ainda estar “disposto a ir para a selva para ver se libertamos essa gente”.
Desde agosto, Chávez vinha atuando como mediador entre o governo da Colômbia e as Farc na busca de um acordo humanitário que permitisse que 49 reféns fossem soltos em troca da libertação de cerca de 500 integrantes do grupo guerrilheiro que estão presos.
O presidente venezuelano disse que se estava abrindo um caminho que poderia levar a um acordo de paz na Colômbia. Chávez indicou que, apesar da decisão de Uribe, não está descartada a possibilidade de que as Farc lhe enviem a prova de que a senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, uma das reféns, está viva.
“Ainda estou esperando que as Farc me mandem a prova de vida. Manda-me Marulanda”, disse Chávez, referindo-se ao principal comandante das Farc, Manuel Marulanda.
Ao reiterar que as negociações avançavam bem, o presidente venezuelano disse que “Uribe aceitou o que nenhum outro governo haveria aceitado: a possiblidade de um encontro meu com Marulanda”.
O presidente colombiano havia autorizado um encontro entre Chávez e Marulanda se as Farc libertassem um grupo de reféns.
“Dá tristeza depois de tanto esforço (...). Mas estou seguro que Marulanda aceitaria libertar um grupo (...), talvez Ingrid Betancourt. Marulanda, se você decidir libertar este grupo, apesar do que passou, eu te recebo aqui”, disse Chávez.
Uribe
Um assessor do presidente colombiano disse que seu governo não vai voltar atrás na decisão.
Uribe disse nesta quinta-feira que continuará em busca de uma troca de prisioneiros com as Farc, mas sem que isso coloque em risco a luta contra a guerrilha.
"Há que fazer todos os esforços pela paz e o acordo humanitário, mas levando em conta que não se pode colocar em risco a segurança democrática, que é o que finalmente vai nos trazer a paz e acabar com os seqüestros que tanto têm afetado nosso país”, disse Uribe, durante um ato público realizado em Bogotá.
O governo francês também se pronunciou nesta quinta-feira sobre a decisão colombiana. "Continuamos pensando que a gestão Chávez é a melhor opção para a libertação dos reféns”, disse o porta-voz do presidente Nicolas Sarkozy, David Martinon.