03 de novembro, 2007 - 21h45 GMT (19h45 Brasília)
O presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, declarou estado de exceção e suspendeu a constituição do país.
Com cada vez menos popularidade e enfrentando problemas com militantes islâmicos, o presidente foi reeleito em outubro – o que não trouxe maior estabilidade ao país.
No mês passado, uma série de explosões matou mais de 120 pessoas na cidade de Karachi – um acontecimento que Musharraf usou como exemplo para demonstrar que o país estaria em risco se ele não tomasse a decisão.
A BBC preparou uma série de perguntas que ajudam a entender o significado das medidas anunciadas pelo presidente.
Por que o presidente anunciou o estado de exceção?
Ele suspendeu a constituição sob a alegação de que o país enfrenta perigos. Ele disse que a violência sem precedentes no país nos últimos meses é culpa de militantes extremistas, mas, segundo analistas, o principal objetivo do presidente ao anunciar a medida foi atingir o Judiciário – a quem Musharraf acusa de interferir com o governo e de enfraquecer a luta contra os extremistas.
A Suprema Corte recentemente anunciou várias medidas contra o governo. Mas um elemento crucial é o fato do tribunal estar analisando recursos contra a reeleição do presidente em outubro. Havia o temor de que a Suprema Corte anunciasse uma decisão contra ele, cancelando sua reeleição.
As eleições parlamentares estavam marcadas para janeiro, mas agora, com o estado de exceção, não está claro se elas serão realizadas como estava previsto.
Como o estado de exceção foi recebido?
Como era esperado, a medida foi universalmente condenada pelos rivais políticos de Musharraf no Paquistão, que acusam o presidente de desrespeitar a constituição.
Fora do país, a reação também foi negativa, mas mais sutil.
Tanto os Estados Unidos quanto os Estados Unido manifestaram preocupação com os desdobramentos, afirmando que gostariam de ver eleições livres e limpas no Paquistão.
Mas os dois governos também acham que Musharraf ainda é a melhor aposta para combater os extremistas no país, e de acordo com analistas, é improvável que isso mude no momento.
Qual é a posição dos Estados Unidos?
Washington tem uma grande influência sobre o Paquistão, pois vem injetando no país milhões de dólares desde que Musharraf se juntou à chamada “guerra contra o terror”, lançada pelos Estados Unidos depois do 11 de Setembro.
Mas os Estados Unidos têm dado sinais de preocupação com a instabilidade política no Paquistão, com os fracassos das forças do governo na luta contra militantes islâmicos e com as contínuas alegações de que militantes usam o Paquistão como base para atacar soldados americanos e de outros países que estão no Afeganistão.
Alguns analistas acreditam que a preferência de Washington é que Musharraf continue em controle das operações militares no Paquistão dentro de um governo liderado pela ex-primeira-ministra Benazir Bhutto.
Quais são os rivais políticos de Musharraf?
Benazir Bhutto retornou ao Paquistão no dia 18 de outubro depois de um exílio voluntário de oito anos prometendo restaurar a democracia e liderar seu partido, o PPP (Partido do Povo do Paquistão) nas eleições parlamentares previstas para janeiro.
O PPP vem negociando com assessores de Musharraf, e alegações de corrupção contra Bhutto foram arquivadas – um passo vital para que ela possa vir a ser primeira-ministra de novo.
Tanto Bhutto quanto Nawaz Sharif serviram como primeiro-ministro em dois mandatos.
Sharif permanece no exílio. Ele tentou voltar ao país em dez de setembro, mas foi acusado de corrupção e lavagem de dinheiro logo ao chegar e rapidamente deportado para a Arábia Saudita.
O ex-premiê contestou a deportação na Suprema Corte do Paquistão, que havia antes decidido que ele tinha o direito de voltar ao seu país.
Quem mais ameaça Musharraf?
O ex-presidente da Suprema Corte Iftikhar Chaudhry, afastado do cargo no mesmo dia em que o presidente impôs estado de exceção, já provou ser uma pedra no sapato de Musharraf, anunciando vários veredictos contra ele.
Musharraf tentou suspendê-lo em março, mas a decisão provocou uma onda de protestos de advogados e partidos de oposição. A Suprema Corte determinou que ele fosse reencaminhado ao cargo.
Chaudhry e outros juízes consideraram ilegal o estado de exceção.
Os militantes pró-Talebã que atuam especialmente no nordeste do país também são um problema para o presidente. Eles têm dado sinais de estarem se fortalecendo e estão enfrentando o Exército em áreas na fronteira com o Afeganistão.
Eles também são acusados de uma série de ataques em outras partes do país, incluindo a capital, Islamabad.
Musharraf provocou a ira de militantes e de partidos islâmicos de linha dura quando determinou que as forças de segurança invadissem em julho a Mesquita Vermelha – um foco de fundamentalismo em Islamabad. A operação terminou com um saldo de mais de cem mortos.
A invasão levou a uma onda de atentados suicidas.