09 de outubro, 2007 - 22h09 GMT (19h09 Brasília)
Sarah Rainsford
De Istambul
A morte de mais soldados turcos em um confronto com membros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo) fez aumentar a pressão sobre o governo da Turquia para que realize uma ofensiva através da fronteira com o Iraque, para acabar com bases do grupo separatista em território iraquiano.
As mortes dominam os meios de comunicação no país e provocam manifestações pedindo que o governo tome alguma atitude.
Com a pressão aumentando, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan autorizou as autoridades do país, inclusive os militares, a fazer tudo o que for necessário para acabar com o que ele chamou de uma "organização terrorista em um país vizinho", inclusive operações militares através da fronteira.
Até algumas semanas atrás, o governo vinha reiterando sua determinação em lutar contra o grupo, mas não por meio de uma ação militar no Iraque – uma medida à qual se opõem Bagdá e Washington.
"Loucura"
Sahin Alpay, um colunista do jornal turco Zaman, disse que os ataques do PKK estão "certamente criando uma atmosfera na qual há pedidos para a adoção de duras medidas de repressão, possivelmente impulsionando uma intervenção militar".
"Mas isso realmente seria uma loucura", disse. "Todo mundo sabe que a maior parte do PKK está baseada dentro da Turquia. É uma distorção fingir que esse problema é importado do exterior."
O general da reserva Haldun Solmazturk, que durante anos participou de missões na fronteira turco-iraquiana, é um dos que defendem a ofensiva no Iraque.
"Essa emboscada (do último domingo) indica que os militares precisam rever inteiramente sua estratégia no sudeste", disse.
Mas o general reconhece que "ação militar, apenas, não é suficiente", mas "é necessário encarar os fatos".
"Se o PKK pode andar por aí matando 12 ou 13 pessoas, então há um problema sério. Um com o qual é necessário lidar."
O governo de Ancara acredita que cerca de três mil militares do PKK estão baseados no norte do Iraque.
Parlamento
Formado nos anos 70, o PKK é um grupo banido na Turquia e considerado uma "organização terrorista" tanto pela União Européia quanto pelos Estados Unidos.
Ele originalmente surgiu como uma organização marxista com o objetivo de criar um Estado independente para os curdos.
Depois de 15 anos de atividade do PKK, durante os quais 37 mil pessoas foram mortas, em 1999, o líder da organização, Abdullah Ocalan, foi preso.
Nos dois anos seguintes, houve uma diminuição da violência, mas ela voltou a aumentar neste ano.
Muitos acreditam que o PKK, também acusado de praticar contrabando, está tentando sabotar os esforços das autoridades para levar um clima de normalidade à fronteira com o Iraque, pois isso pode representar um risco a seus interesses ilegais.
Outros acham que a organização está sendo usada por grupos que se opõem à democratização da Turquia e à entrada do país na União Européia.
O PKK, por sua vez, insiste que seu objetivo é lutar pelos direitos políticos e culturais dos curdos.
Neste ano, pela primeira vez em 15 anos, políticos que defendem os direitos dos curdos, membros do partido DTP, assumiram cadeiras no Parlamento turco.
A novidade despertou esperança de que a questão curda possa ser resolvida de maneira democrática e pacífica, mas as mortes recentes em Sirnak representam uma ameaça a isso – ainda mais porque o DTP se recusa a classificar os membros do PKK como "terroristas".