04 de outubro, 2007 - 12h15 GMT (09h15 Brasília)
Uma substância encontrada na pimenta pode ter efeitos anestésicos sem causar a perda de movimentos ou da sensação do toque, sugerem pesquisadores americanos.
As anestesias locais convencionais afetam todas as células nervosas, enquanto a capsaicina, substância química encontrada na pimenta, age apenas nos receptores da dor.
Os pesquisadores da Universidade de Harvard fizeram uma experiência usando a molécula QX-314, que funciona como anestésico, mas é grande demais para penetrar nas células nervosas para bloquear a dor.
Os cientistas combinaram a molécula com a capsaicina – substância que faz a pimenta ter o gosto ardido - e que pode abrir um canal na parede das células nervosas, de tamanho suficiente para permitir a penetração da QX-314.
Os cientistas observaram que a molécula agiu apenas nos neurônios receptores da dor e não em todas as células nervosas, o que poderia afetar sensação do toque e movimentos.
Peridural
Nas experiências feitas com ratos, uma injeção de QX-314 e capsaicina bloqueou a sensação de dor sem causar outros efeitos.
Na prática, isto significaria que se uma mulher em trabalho de parto, por exemplo, receber a anestesia peridural feita à base da capsaicina, não perderia o movimento das pernas e ainda sentiria o nascimento do filho.
A falta da sensação é um dos efeitos colaterais das anestesias convencionais, que bloqueiam não apenas as terminações nervosas que causam a dor, mas também todas as outras que respondem à sensação do toque.
Os pesquisadores acreditam que as descobertas têm o potencial para “mudar profundamente os tratamentos para a dor” antes e durante milhões de operações que ocorrem mundialmente a cada ano.
Para Story Landis, diretor do Instituto Nacional de Desordens Neurológicas e Derrame Cerebral, nos Estados Unidos, pacientes com dores crônicas também poderiam se beneficiar do tratamento.
“O objetivo das técnicas para tratamentos da dor é eliminar o sofrimento sem prejudicar o raciocínio, lucidez e coordenação. Esta técnica promete futuros benefícios para milhões de pessoas”, acredita Landis.
Joan Hester, presidente da Sociedade Britânica da Dor, diz que a capasaicina tem sido usada há anos no tratamento de dores crônicas, mas que os pacientes reclamam que a substência provoca uma sensação desagradável de queimação.