30 de agosto, 2007 - 12h37 GMT (09h37 Brasília)
Um estudo publicado pelas Nações Unidas, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Secretaria Nacional de Justiça do Brasil revelou que os goianos estão entre os brasileiros que mais são deportados ou barrados em aeroportos no exterior.
Durante o período de um mês, os pesquisadores entrevistaram 73 pessoas que voltaram ao Brasil pelo aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP), depois de terem sua entrada recusada em outros países ou de terem sido deportados por causa de uma estada irregular no exterior.
O objetivo era descobrir mais sobre a dinâmica dos processos migratórios dos brasileiros e suas vinculações com o tráfico internacional de pessoas, traçando um perfil socioeconômico deste grupo de imigrantes.
A pesquisa também buscava saber mais sobre os motivos pelos quais eles realizaram a viagem e as condições em que foram mandados de volta ao Brasil.
Segundo relatos dos entrevistados, Inglaterra e Irlanda estão entre os principais destinos dos brasileiros, mas os caminhos para se chegar ao objetivo final podem ser tortuosos, com vôos indiretos para tentar driblar as autoridades de imigração.
Entre as pessoas abordadas durante a pesquisa, 16 chegavam do Reino Unido, 15 da França e 14 da Itália. Entre as que declararam estar viajando para trabalhar no exterior, a maioria citou os baixos salários como motivação para a viagem.
"Os árabes fugindo da guerra, os africanos da fome e os brasileiros da pobreza. Aqui (no Brasil), eu como, mas o que eu ganho não dá para fechar o mês", disse um jovem brasileiro, de 28 anos, que foi barrado quando tentava entrar na França.
Mais da metade dos entrevistados disseram ter renda entre um e três salários mínimos no Brasil.
Receio
Muitos relutaram em responder as perguntas dos pesquisadores por causa do desânimo em estar de volta ao Brasil, freqüentemente depois de passar por situações difíceis.
"Mais um casal de jovens chegava barrado da Inglaterra. Pareciam muito perdidos e assustados. O rapaz estava muito abatido. Estava passando mal, não comia fazia 24 horas e tinha vomitado a viagem inteira", dizem os relatos de uma das pesquisadora.
De acordo com as informações do estudo, o "ar de simplicidade e pobreza" muitas vezes contribui para que as autoridades de imigração impeçam a entrada de brasileiros no exterior.
"Na percepção das pessoas entrevistadas, a 'aparência' é um critério utilizado para impedir o ingresso de brasileiros no exterior, particularmente na Europa,
atingindo inclusive pessoas que viajam para fazer turismo", diz a pesquisa.
Tratamento
O estudo ressalta que as pessoas que tiveram a entrada recusada disseram ter sido mais mal tratadas no exterior do que aquelas que foram deportadas.
Segundo os pesquisadores, "pessoas que não cometeram infração alguma são submetidas a tratamentos particularmente duros nos relatos de detenções nos aeroportos da França, Inglaterra e Irlanda, envolvendo revistas sem roupa, falta de alimentação durante períodos extremamente prolongados, desaparição de dinheiro, impossibilidade de comunicação, detenção durante alguns dias em albergues/prisões específicos e até em prisões comuns".
Entre o grupo de pessoas deportadas, grande parte teve de voltar ao Brasil antes de completar um ano no exterior.
Enquanto a maioria dos que voltaram dos Estados Unidos disse ter sido descoberta durante controles no trânsito, muitos dos que tiveram que deixar a Europa disseram ter sido detidos em blitze policiais em lugares públicos.
"Eles me pegaram nesses alertas vermelhos. Esses negócios de bomba. Muita gente está sendo deportada com isso. Eu estava saindo da estação (de metrô). A estação é muito grande e a polícia estava lá. Aí bateram lá e me levaram", disse um homem que trabalhava em Londres como garçom.
Um estudo anterior sobre tráfico de pessoas, também realizado em Cumbica, em 2005, estimou que mais de 15 mil brasileiros que chegaram ao aeroporto naquele ano haviam sido deportados ou não admitidos no exterior.