28 de agosto, 2007 - 22h04 GMT (19h04 Brasília)
As ambições políticas de Abdullah Gul, eleito pelo Parlamento turco para a Presidência, há muito vêm provocando desconforto em setores da elite do país, que defendem a separação entre religião e Estado.
Gul, um ex-ativista islâmico, é o primeiro político com esse antecedente a se tornar chefe de Estado no país desde a fundação do Estado Turco moderno, em 1923.
Durante sua trajetória política, Gul pertenceu a um partido que defendia que os preceitos islâmicos guiassem a política.
Mas hoje o presidente eleito diz ter rompido suas ligações com esse passado militante e promete governar para todos os turcos, respeitando o secularismo – uma das bases do Estado turco idealizado por seu fundador, Mustafa Kemal Ataturk.
Ainda assim, muitos temem que Gul tenha uma agenda de governo pró-islâmica oculta.
Boicote e crise
O temor levou secularistas a boicotarem, em abril, uma votação no parlamento para escolher o presidente do país, na qual Gul era candidato. Isso provocou um impasse político que acabou levando à realização de novas eleições parlamentares, no mês passado.
O partido governista AKP, que Gul ajudou a fundar, saiu vitorioso do pleito e, com o respaldo das urnas, decidiu indicar de novo Gul como candidato a presidente.
Após três votações no Parlamento, Gul finalmente foi eleito. Mas a oposição a ele continua forte como nunca.
Os militares – que se consideram defensores do estado laico turco – já advertiram que poderiam intervir se o secularismo for colocado em risco.
No dia 27 de agosto, o chefe das Forças Armadas, general Yasar Buyukanit, advertiu que existem “centros do mal” tentando sabotar o Estado. Muitos interpretaram isso como um recado endereçado a Gul.
O fato de a mulher de Gul usar o véu islâmico, um poderoso e controverso símbolo do Islamismo no país, também desagrada muitos secularistas.
Hayrunisa Ozyurt é a primeira mulher de um chefe de Estado turco a usar o véu, mas não está claro ainda se ela terá que respeitar a proibição do uso da indumentária em prédios oficiais da Turquia, como o Palácio Presidencial.
Com relação à polêmica, Gul disse que o uso ou não do véu é uma questão de preferência individual e que todos devem respeitar essas opções.
Chipre
A seu favor, o presidente eleito tem o fato de ser um político experiente, primeiro-ministro em 2002 e 2003, e a fama de ser um diplomata habilidoso.
Desde que se tornou ministro do Exterior, em 2003, ele tem liderado as negociações para que a Turquia se torne membro da União Européia.
No campo da política externa, porém, Gul tenta há anos resolver a questão de Chipre – um dos principais obstáculos à adesão da Turquia ao bloco europeu.
A Turquia se recusa a abrir seus portos e aeroportos ao Chipre, a menos que a União Européia submeta a uma revisão o embargo imposto à República Turca do Norte do Chipre.
Durante um breve período como primeiro-ministro, o político disse que essa era uma de suas prioridades, mas até hoje não houve avanços.
No ano passado, Gul chegou a dizer que Chipre está “envenenando” o processo de adesão da Turquia à União Européia.