23 de agosto, 2007 - 07h55 GMT (04h55 Brasília)
Três Irmãos de Sangue estreou com prêmios e boas críticas. O documentário de Angela Reiniger sobre os irmãos Betinho, Henfil e Chico Mario levou o prêmio do júri popular do 5º Cine Fest Petrobras de Nova York semana atrasada e estreou com ótimas críticas no Brasil.
Os três eram hemofílicos, contraíram o HIV em transfusões de sangue e morreram de Aids.
Tive alguns encontros com o Betinho e uma convivência mais íntima com o Henfil.
Em Belo Horizonte éramos vizinhos de idade e de bairro. Ele, em Santa Efigênia, eu, no São Lucas.
Nosso colégio era o Arnaldo. Às vezes íamos matar aula no parque municipal, mas depois de remar, fumar e roubar umas revistas não tinha muita coisa para adolescente fazer em BH. Dava vontade de voltar pro colégio.
Corria a maldade que o padre prefeito colocava os alunos no colo para olhar no telescópio da sala dele. Quando Henfil queria insultar ou debochar de alguém espalhava que ele tinha visto o telescópio do padre prefeito.
Nós sentávamos na mesma cadeira, daquelas largas para dois alunos, na última fila.
Na primeira prova parcial de português nós dois tinhamos cola. Quando o professor chegou perto, jogamos fora os papéis, mas o do Henfil caiu debaixo de mim. O professor pegou minha prova, a cola, me deu uma bronca e um zero.
Zero em primeira parcial era meia bomba. Eu já estava repetindo a segunda série pela terceira vez - acho que o Henfil repetiu seis - e se tomasse outra bomba não continuaria estudando.
Fui parar num internarto, com um professor de português maníaco que nunca dava nota acima de 7.
Enfiei a cara, fui o primeiro aluno em português e todos os meses entrava no quadro de honra. Aprendi a gostar da língua e de livros. Milagre do Fradim Henfil.
Depois que saí do Arnaldo tivemos alguns encontros nas noites mineiras e na missa das 6h da JEC na igreja São Jose. Para os engajados era missa-política, para nós era missa-paquera.
Mudei para o Rio e, quatro anos depois, quando vim para Nova York, perdemos o contato.
Uma tarde estava no escritório quando a secretária disse que tinha um homem, parecia vendedor de telescópio. Atendi.
"Você sentou no colo do padre prefeito."
Foi nosso período de maior convivência. Jantares, muitas vezes com o Francis, que às vezes assombrava o Henfil.
Nos domingos à noite costumava assistir com ele Monty Python e ouvir uns discos estranhíssimos, coisas do interior, de bandas e duplas que ninguém conhecia. Ele delirava com as letras que sabia de cor.
Era um colecionador e criador de absurdos, mas quando criou a expressão "diretas já" estava com o pé no chão.
Com gênio para debochar de tudo, em especial do nordeste e do sul maravilha, a simpatia dele sempre foi pela esquerda, mas tinha pavor de extremos.
Onde colocaria o Hugo Chávez? Seria lulista? Provável.
Fora dos Fradinhos, meu Henfil favorito era o das cartas, em especial das dirigidas à mãe, a doce dona Maria.
Um dia fui com ele e sua mulher, Berenice, buscar ambas mães no aeroporto Kennedy. Na volta ele começou a falar sobre recentes motins de negros em Boston: "Preto aqui é bravo, mãe, não é feito o nosso, que conhece o lugar dele". E preto isto, preto aquilo.
Percebi que era uma provocação para a mãe. Ela acabou caindo na armadilha e fez um comentário negativo sobre negros.
"A senhora sabia que a mulher do Lucas é preta?"
A mãe se contorcia de constrangimento e pedidos de desculpas. Puro Henfil.
Apesar dos problemas de saúde, o trabalho dele aqui de repente pareceu que ia engrenar, mas na semana da estréia dos Fradinhos a reação da Igreja foi rápida e devastadora.
Desencantado com a medicina e o mercado americanos, Henfil fez as malas.
Não sei o que teria acontecido com ele se tivesse dado certo, mas ele voltou para outra bem sucedida segunda carreira no Brasil e todos os meses me mandava o Fradim com algumas das nossas cartas, desenhos e comentários.
No número 1 ele escreveu: "Lucas, volte para casa. Muita sacanagem para a gente viver aí".
Seria mais uma sacanagem dele?