08 de agosto, 2007 - 20h06 GMT (17h06 Brasília)
Marcia Carmo
De Buenos Aires
O congelamento do preço das tarifas dos combustíveis na Argentina, determinado pelo governo do presidente Néstor Kirchner, derrubou o rendimento da Petrobras no país.
O fato ocorre em meio a uma crise energética que há poucos dias provocou filas nos postos de gasolina, escassez de diesel no interior e ameaça de apagões de gás e eletricidade.
Segundo dados da empresa, divulgados nesta quarta-feira, a Petrobras Energia Participações (acionista majoritária da Petrobras Sociedade Anônima na Argentina) registrou queda de 66% em sua rentabilidade no segundo trimestre deste ano frente ao mesmo período do ano passado.
O resultado foi um faturamento de 101 milhões de pesos no período. Nos mesmos meses de 2006, o faturamento havia sido de 298 milhões de pesos.
A margem aumenta na comparação entre o primeiro semestre do ano passado (663 milhões de pesos) e o primeiro semestre deste ano (282 milhões de pesos).
Críticas brasileiras
Os números confirmam, como admitiram fontes do governo brasileiro, a insatisfação das autoridades da Petrobras no Brasil com a política econômica argentina.
Em março deste ano, o presidente da empresa, José Sérgio Gabrielli, criticou o sistema de preços da Argentina, alertando que poderia provocar escassez dos derivados de petróleo, incluindo o gás natural. Na Argentina, o gás é o principal produto da matriz energética.
As palavras de Gabrielli provocaram reação pública do ministro do Planejamento, Julio de Vido, homem forte do governo Kirchner.
"Esse senhor se acha o dono das reservas (energéticas argentinas)", disse o ministro. De Vido afirmou ainda que se a empresa não aceitasse as regras oficiais, poderia deixar a Argentina.
Nesta quarta-feira, o balanço das perdas na rentabilidade da Petrobras foi enviado, como é de praxe, à Bolsa de Buenos Aires.
Segundo assessores da empresa e analistas do setor, além das tarifas congeladas dos combustíveis, também contribuíram para essa forte queda nos rendimentos, o aumento da importação de derivados de petróleo para atender à demanda interna, a alta nos custos de produção e exploração e o ajuste nos salários dos que trabalham na área de petróleo.
Nos últimos 50 meses, a Argentina vem acumulando taxas recordes de crescimento econômico, mas as empresas reclamam, nos bastidores, que as tarifas congeladas e os maiores gastos e custos dificultam os planos de investimentos.
Reações como a de De Vido e a do próprio Kirchner - que atacou várias vezes a empresa Shell, por exemplo - têm levado empresários e executivos a evitarem novas críticas à política econômica do governo argentino.