27 de junho, 2007 - 09h31 GMT (06h31 Brasília)
Claudia Jardim
De Caracas
O assessor da Presidência da Venezuela para Assuntos Internacionais, Maximilien Arvelaiz, disse que o giro internacional do presidente Hugo Chávez para a Rússia, Belarus e Irã, às vésperas do início de uma reunião de cúpula do Mercosul, em Assunção, foi apenas uma "coincidência".
Em entrevista à BBC Brasil, Arvelaiz refutou as especulações que associavam a ausência de Chávez a um possível mal estar com os demais membros do bloco, supostamente provocado pela indefinição dos Congressos do Brasil e Paraguai sobre a ratificação do país como membro.
"Há meses nós nos havíamos comprometido com o presidente (Vladimir) Putin em visitar Moscou, e foi impossível conciliar as agendas", argumentou Arvelaiz.
Chávez esteve na Rússia e Belarus em julho do ano passado, quando acertou a compra de fuzis e helicópteros russos. Em janeiro deste ano, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad esteve em Caracas.
Arvelaiz negou que houvesse qualquer divergência entre os presidentes do Mercosul, especialmente entre os governos de Brasil e Venezuela.
Recentemente Chávez foi alvo de duras críticas por parte do Senado brasileiro por causa da recusa de seu governo em renovar a concessão do canal de TV privado RCTV.
Chávez disse que o caso da RCTV "não vai dificultar em nada" a sua adesão ao Mercosul, mas ameaçou se retirar do bloco caso a ratificação da adesão venezuelana não seja aprovada.
"Se estes grupos tentam impedir a entrada da Venezuela ao Mercosul, estariam atacando diretamente aos nossos povos, os principais beneficiários da integração", afirmou Maximilien Arvelaiz.
Recado ao Mercosul
Ainda que no discurso o governo venezuelano tente amenizar o significado da ausência de Chávez na reunião de Cúpula em Assunção, na avaliação do cientista político Alberto Garrido o presidente venezuelano envia um "recado" ao bloco.
A principal mensagem é que o "velho Mercosul", não interessa ao projeto venezuelano de romper com a unilateralidade imposta por Estados Unidos nas relações internacionais.
Por essa razão Chávez teria privilegiado à Rússia, Belorus e Irã em detrimento da reunião do Mercosul.
"Chávez manda o recado, inclusive ao Congresso brasileiro, de que este Mercosul não serve a seu projeto de multipolaridade. Chávez está testando o bloco", avalia Garrido.
Segundo o analista político venezuelano "o Brasil não quer ir aonde Chávez quer chegar, e o Congresso brasileiro quer frear o Mercosul de Chávez", disse.
Chávez expressou seu descontentamento com o bloco na semana passada, ao afirmar não estar interessado em participar do Mercosul "se não houver mudanças".
Para o presidente venezuelano, o Mercosul tem que deixar de ser um bloco meramente econômico para assumir também um caráter "político e social".
A ausência de Chávez deve preocupar principalmente ao governo argentino – que mantém estreitas relações com a Venezuela nos setores de energia, agrícola e infra-estrutura – e também aos empresários brasileiros.
A balança comercial brasileira com a Venezuela gira em torno de US$ 3 bilhões.
Defesa militar
Entre os acordos que Chávez pretende firmar com o presidente russo Vladimir Putin, poderia estar a compra de submarinos e novos helicópteros russos. O presidente venezuelano ainda não bateu o martelo em relação à possibilidade.
Desde 2006 Putin tem desafiado os EUA – que bloquearam toda cooperação em matéria de armamento à Venezuela – com a venda de armas e helicópteros para o sistema de defesa venezuelano.
Após o encontro com o presidente venezuelano, Putin se reunirá com o presidente dos EUA, George W. Bush.
Em Belarus, segunda escala da viagem, Chávez estaria disposto a comprar um sistema de defesa antiaérea, segundo informou a imprensa venezuelana.
Com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadnejad, Chávez deverá avançar em acordos de cooperação nas áreas de energia.