14 de junho, 2007 - 10h22 GMT (07h22 Brasília)
- Caiu o sinal!
- Merda de TV a cabo!
Como, no momento mais dramático dos últimos anos da televisão americana, tudo fica preto?
Não aquele preto de queda de sinal com chuvisco. Preto, preto, preto.
A audiência era a maior da noite tanto na TV aberta quanto no cabo e milhões agarraram os seus telefones.
"Aqui também deu preto. Vai ver que termina assim mesmo. Tudo preto."
Ou termina em pizza?
Três Sopranos, o chefão Tony com a mulher e o filho estão sentados para jantar num restaurante popular de Nova Jersey. A filha está atrasada porque não consegue estacionar direito, uma destas banalidades aflitivas que reforçam a tensão.
Estaciona, entra e senta no restaurante onde, além da família, estão vários personagens acompanhados pela câmera e pelos olhos de Tony. Vários parecem suspeitos.
Faltam dois minutos para acabar o programa. A matança precisa começar....tic tac tic tac.
Dez da noite em ponto no relógio da caixa do cabo. A família lê os cardápios e fala sobre o cotidiano...
Pá! Não é tiro. É tela preta. Silêncio. Trinta segundos. Rodam os créditos.
No dia seguinte era manchete nos jornais e na internet. Blogueiros e críticos brigavam entre o "genial" e um cocô. O cocô liderava com grande vantagem, maior ainda nos estados conservadores, "os vermelhos" de Bush.
Fiquei com o criador. Final de mestre. Conseguiu gerar um suspense de dar coceiras e contrariou todas as apostas, expectativas e lugares comuns. Vai ter senso de humor assim no inferno.
Durante oito anos Os Sopranos foram o digestivo cultural da televisão americana nas noites de domingo. Rico em violência, sexo, cultura com alusões e referências a grandes obras literárias. Podia ser visto como um filme de gangster ou, como preferiam os eruditos, como uma alegoria à decadência dos Estados Unidos e outros valores.
David Chase, criador da série, produtor executivo, roteirista de vários, inclusive do capítulo final, é homem culto e avesso a celebridades e entrevistas.
Antes do último episódio embarcou para a França em busca de vinhos, comida, boa companhia e distância dos chatos.
Deixou um aviso de que não queria ser importunado e informou a seus outros produtores e colaboradores que não tinham nada que explicar. Estava tudo ali, na cara do telespectador.
A tela preta faz parte da linguagem da televisão. Quando uma morte é anunciada, o nome aparece na tela com as datas do começo e do fim e, logo em seguida, alguns segundos de tela preta.
Nos Sopranos, os personagens várias vezes conversaram sobre a sensação e o significado da morte. Num capítulo recente, um mafioso diz para outro: na morte fica tudo preto. É só". Como se alguém apagasse a luz e desligasse o som.
Há outras versões, complicadas. Maureen Dowd, a controvertida colunistas do New York Times, faz uma destas associações elásticas e compara o fim de Tony Soprano com o de Tony Blair. Ela esperava um final baseado no poema de Yeats - The Second Coming.
No dia seguinte ao programa fui a Baltimore entrevistar o sociólogo Giovanni Arrighi para o programa Milênio. Ele está lançando seu terceiro livro anunciando a decadência americana.
- Dívida, ganância, concorrência asiática e incompetência, disse ele. Não tem final feliz.
- Vamos pro preto. Para a pizza ou para o filme?