07 de junho, 2007 - 09h11 GMT (06h11 Brasília)
Bruno Garcez
De Washington
Para o acadêmico russo-americano Sergei Khrushchev, falta aos atuais presidentes dos Estados Unidos e da Rússia - protagonistas da tensão que vem permeando a relação entre os dois países nas últimas semanas - a sabedoria de um líder como seu pai, Nikita Khrushchev, que comandou a União Soviética entre 1953 e 1964.
''Não creio que a atual tensão entre os dois países seja uma repetição da história. Trata-se apenas de o Ocidente se ajustando à nova Rússia. Antes, havia Gorbachev e Yeltsin, que eram líderes que só diziam 'sim, senhor'. Agora, quando a Rússia diz 'não', isso acaba causando choque'', afirma.
Khrushchev pertence ao Departamento de Estudos Internacionais da Brown University e já escreveu diversos livros sobre variados aspectos da Guerra Fria, entre eles um dos principais episódios da gestão de seu pai, a Crise dos Mísseis Cubanos, que quase levou os Estados Unidos e a então União Soviética à guerra. O contexto, frisa ele, é bem distinto daquele do passado.
''Trata-se apenas de uma troca de palavras mais duras. Mas não haverá um retorno à Guerra Fria. O Ocidente vai acabar compreendendo que a Rússia tem interesses distintos. Assim comos os britânicos, franceses e alemães têm suas diferenças. Não é sempre que Londres diz sim a uma proposta vinda de Bruxelas ou de Berlim.''
Existem temores de que a troca de farpas entre George W. Bush e Vladimir Putin, que deverão se encontrar nesta quinta-feira durante a reunião do G8 na Alemanha, possa ofuscar o evento. No entender de Khrushchev, a retórica dos dois líderes vem causando danos a americanos e russos.
''É claro que é prejudicial. É preciso medir o que se faz e se fala. Meu pai, que era um político sábio, costumava dizer o tempo todo: 'Qualquer tolo é capaz de começar uma guerra. Mas é preciso vários homens inteligentes para encerrá-la'. Ele não se referia apenas à guerra de fato, mas a qualquer tensão.''
Falta de sabedoria
Khrushchev crê que ambos os líderes chegarão a alguma espécide de consenso. ''Nenhum dos dois está demonstrando qualquer sabedoria. Espero que isso não vá muito longe. Estou procurando ser otimista com parte de minha alma americana e parte de minha alma russa.''
No entender dele, alguns dos motivos que estimularam a atual crise, os planos americanos de instalar um sistema de radar antimísseis na República Checa e dez interceptadores de mísseis na Polônia, remetem aos anos da Guerra Fria.
''Quando o presidente Eisenhower deixou o poder, ele disse que seria um desastre se o complexo militar-industrial passasse a ditar a política externa americana. A decisão de instalar esse radar na República Checa ocorreu por influência do complexo militar-industrial, que tem nostalgia dos anos 70. Da perspectiva de inteligência militar, essa decisão pode ser importante, mas, do ponto de vista político, foi um erro.''
De acordo com ele, a reação negativa da Rússia é justificável. ''Talvez se a Rússia decidisse instalar um sistema de radar como esses no México os Estados Unidos estariam ainda mais preocupados do que a Rússia se encontra agora.''
Reagan x Bush
A imprensa americana chegou a apontar a influência de um dos mais populares presidentes americanos, Ronald Reagan, quando George W. Bush passou a criticar com mais regularidade a situação dos direitos humanos na Rússia e os supostos desvios democráticos do país.
''Não creio que ele tente se assemelhar ao presidente Reagan, que foi um grande presidente e ajudou a mudar o mundo. Bush é um líder fraco, com uma diplomacia mal-sucedida. Por isso, tenta usar a força o tempo todo. Ele não sabe se portar de outra maneira. Mas isso acaba tendo uma influência muito negativa nas relações entre os Estados Unidos e outros países, especialmente os países mais fortes, como a China, a Rússia e a Índia.''
Para Khrushchev, a visão dos americanos sobre democracia é ''de um alto grau de ingenuidade''. E acrescenta: ''Eles acham que se alcança a democracia da noite para o dia. Mas é um processo muito longo. O mais importante é que Putin não tente violar as instituições russas. Ele quer controlar a imprensa e consegue fazê-lo. Talvez o governo britânico quisesse fazer o mesmo, mas não é capaz, porque lá existe uma democracia muito mais forte do que a russa.''
Putin e antecessores
No entender do analista, o atual líder russo tem divesas vantagens sobre seus antecessores. ''(Mikhail) Gorbachev era um sonhador. Ele abriu vários portões, mas foi varrido do Kremlin e não conseguiu completar suas reformas. Ele colocava o bem mundial, uma expressão que ele usava e que eu não sei bem o que quer dizer, acima das necessidades nacionais.''
Quanto a Boris Yeltsin, Khrushchev é inclemente. ''Yeltsin foi um desastre para a Rússia, uma força destrutiva. Você dava algumas bebidas a ele, e ele assinava o que você quisesse.''
Putin, em seu entender, é distinto. ''Não concordo com tudo o que ele diz, mas ele compreendeu que para se ter êxito como líder na Rússia é preciso satisfazer toda a nação. E parte dela quer viver no período soviético, parte na monarquia e parte no futuro. Ele está equilibrando estes interesses de uma maneira inteligente, muito mais do que Gorbachev e Yeltsin.''