25 de maio, 2007 - 09h37 GMT (06h37 Brasília)
Assim também não. Agora exageraram. Eu aceito turista fazendo fila para musical de Andrew Lloyd Webber. Cansei de lutar pelo bom gosto.
Eu aceito o museu de cera de Madame Tussaud. Convenceram-me de que o axioma "há gosto para tudo" tem lá sua dose de verdade. Até o popular (não comigo) "Olho de Londres", essa roda gigante fingindo cultura no meio da cidade, eu já olho e nem noto que está lá, firme, me olhando também.
Stratford-on-Avon, a cidade de Shakespeare, com suas lojinhas vendendo tolices supostamente ligadas ao Bardo Imortal, eu deixo existir de levinho em minha vida consciente e subconsciente.
Lá não vou, que não sou besta e prefiro fazer feito o Cisne de Avon, que a evitou o quanto pôde, quase nada deixando em seu testamento, além de um colchão velho para sua mulher, Mary, a não ser seu nome para – essa, sim – a esplêndida companhia do Royal Shakespeare Company, no momento com sir Ian McKellen vivendo um Rei Lear já comparado aos melhores a enlouquecer e carregar uma Cordélia morta nos braços pelos palcos britânicos.
Sei que é difícil de acreditar, mas parece que o magnífico ator está mais esplêndido no papel que nosso grande, nosso imenso Paulo Autran, que, faz alguns anos, castigou lá, ou por aí, o seu "Rei Leár" (assim mesmo, com acento no "a").
O desmando
Aliar-se ao presidente George W. Bush e embarcar na aventura iraquiana foi um pecado do primeiro-ministro Tony Blair, ora em vias de extinção, como um mico-leão dourado destas ilhas.
Nada, nem Deus do céu, perdoará os responsáveis pelo horror que se abate na, e pela, Inglaterra, neste final de maio: o parque temático dedicado a Charles Dickens.
Ficará situado no condado de Kent, que até agora era conhecido como "o jardim da Inglaterra", na cidade de Chatham.
Seu nome de pia batismal, ou melhor, oficial, é "Dickens World". Custou mais de 120 milhões de dólares, fica todo abrigado, jamais sujeito às intempéries destas ilhas, e suas atracões são todas e completamente baseadas na vida, nos livros e nos tempos do formidável escritor britânico, segundo seus responsáveis (responsáveis?).
Diz a publicidade que se trata de um complexo repleto de cativantes atracões.
Vai ter, ou já tem, já que sua inauguração deve ter ocorrido nesta sexta-feira, 25 de maio, uma data negra não só na história da vida e dos costumes da Inglaterra como também para todo o patrimônio literário da humanidade.
Fahrenheit 451 para um
Atenção para os vexames: passeios de barquinho no que afirmam ser o mais vasto e sombrio – dark! -- lago artificial da Europa.
A casa fantasma de Ebenezer Scrooge (é, aquele mesmo: o velho sovina do Conto de Natal, que serviu de inspiração para o Tio Patinhas, este último aceitável num mundo Disney qualquer desta vida), um espetáculo animatrônico no qual não quero nem pensar, uma sala de aulas vitoriana, um show em 4 dimensões (what?) e alta definição.
Por todos os lados, gente vestida a caráter (possivelmente poloneses todos, que eles não param de chegar aqui) oferecendo quinquilharias e lembranças para vender.
A camisa de meia ainda não vi anunciada. Nem o quepe. Ou o logotipo. Acredito ser uma simples questão de tempo para se propagarem.
Encerro num jogo de palavras com títulos de livros de Dickens digno da empreitada: eles têm "Grandes Esperanças" para todos, eu prevejo "Tempos Duros" para a humanidade.
Os dickensianos na platéia sacaram? "Great Expectations, Hard Times".
Pego meu boné e me mando. Não quero mais saber de Dickens nem que passem na televisão nos próximos 3 meses o David Copperfield da Metro (1935).