21 de maio, 2007 - 14h02 GMT (11h02 Brasília)
Dezenas de pessoas, entre elas vários civis, morreram em conseqüencia dos confrontos entre o Exército do Líbano e a milícia islâmica sunita Fatah al-Islam no norte do país.
Os confrontos, que já duram vários dias, são o mais recente episódio de violência em um país marcado por diferenças religiosas e étnicas e por uma história de conflitos sangrentos.
Outro episódio recente foi o conflito militar entre Israel e o grupo militante Hezbollah, em julho de 2006, que uniu a população libanesa durante os mais de trinta dias de bombardeio contra o país mas parece ter agravado muito as tensões internas no Líbano neste pós-guerra.
Os sinais da crise se tornaram mais claros em dezembro quando o Hezbollah liderou a oposição libanesa em gigantescos protestos no centro da capital pedindo a renúncia do governo.
Analistas dentro e fora do Líbano vêm falando sobre o risco de uma retomada da guerra civil em larga escala, 17 anos depois do fim do conflito que destruiu o país entre 1976 e 1991.
Mas nas ruas de Beirute uma grande parte dos libaneses diz que não há disposição no país em se retomar o ciclo de violência.
Abaixo, algumas respostas à possíveis dúvidas sobre o conflito.
Qual a origem deste novo conflito no norte do Líbano?
Aparentemente o conflito foi detonado pelo roubo a um banco, que teria sido realizado na sexta-feira por integrantes do grupo militante palestino Fatah al-Islam, que supostamente tem ligações com a rede Al-Qaeda e com a inteligência síria.
Quando as autoridades libanesas fizeram uma blitz em um prédio em Trípoli no dia seguinte em busca dos suspeitos, os militantes reagiram.
Após terem resistido à voz de prisão, os militantes atacaram postos do Exército na entrada do campo de refugiados de Nahr al-Bared, reduto do Fatah al-Islam, em que vivem 30 mil palestinos.
Horas mais tarde, um grande número de tropas libanesas contra-atacou.
Um acordo firmado há 38 anos impede que o Exército entre nos campos de refugiados do Líbano.
O grupo militante disse que foi uma agressão não provocada.
O Líbano abriga mais de 350 mil refugiados palestinos que deixaram suas casas originais após a fundação de Israel, em 1948.
O campo de Nahr el-Bared estava sob vigilância desde as explosões de dois ônibus em uma área cristã de Beirute em fevereiro, pelas quais os militantes baseados no campo foram responsabilizados.
Mas o governo e também grande parte da mídia libaneses dizem que tudo - a começar pelo assalto ao banco - seria um plano da Síria para desestabilizar o Líbano e impedir as investigações sobre o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri (em fevereiro de 2005), outro crime do qual Damasco é acusado.
Os sírios negam qualquer envolvimento com o Fatah al-Islam.
Por que a situação é tão explosiva no Líbano?
O Líbano é o país mais complexo politicamente e mais dividido religiosamente no Oriente Médio, o que faz dele um fator tão explosivo em uma região já instável.
O pequeno Líbano desconcerta as pessoas de fora. Até mesmo as pessoas no Oriente Médio consideram sua política confusa.
Estabelecido pela França após a Primeira Guerra Mundial como um Estado predominantemente cristão, o Líbano agora é cerca de 60% muçulmano e 40% cristão.
O país tem 18 grupos religiosos reconhecidos oficialmente, e a divisão de poder entre eles sempre foi um jogo complicado.
Os muçulmanos libaneses tendem a olhar para o Oriente em busca de apoio de parte de outros Estados árabes e do Irã. Os cristãos tendem a olhar para o Ocidente, para a Europa e os Estados Unidos.
A proximidade do país de Israel – e a presença de um grande número de refugiados palestinos em seu território – significa que ele também está intimamente ligado à disputa árabe-israelense.
O Líbano já tem problemas próprios suficientes, mas também se tornou palco de muitos dos conflitos e rivalidades regionais.
Qual é o papel do Líbano nos conflitos regionais do Oriente Médio?
O longo conflito que destruiu o país de 1975 a 1990 foi tanto uma guerra civil quanto uma guerra regional.
Ele deixou o Líbano fortemente sob o controle da Síria e com uma faixa ao sul de seu território ocupada por Israel como uma zona de proteção.
Israel interveio repetidamente no Líbano para proteger sua fronteira norte.
A guerra civil também envolveu o Irã, através do apoio do país aos xiitas libaneses.
Em 1982 o Irã teve papel essencial na criação do Hezbollah no Líbano, ou Partido de Deus, que evoluiu para se tornar uma peça importante da política libanesa e um importante aliado do Irã e da Síria.
As tropas israelenses se retiraram finalmente em 2000, e os sírios saíram em 2005.
Mas, enquanto a Síria não tem mais uma presença militar no país, ela manteve sua influência política por meio de seus laços com o Hezbollah.
Qual a origem da guerra entre Israel e o Hezbollah em agosto de 2006?
A captura de dois soldados israelenses pelo Hezbollah provocou um mês de ataques israelenses.
As áreas nas quais o movimento xiita tem mais apoio – o sul do Líbano e os subúrbios ao sul de Beirute – sentiram o peso da ofensiva israelense.
Os ataques provocaram mortes em larga escala e destruição, mas não conseguiram assegurar a libertação dos soldados ou a derrota do Hezbollah.
O Hezbollah afirmou ter conseguido uma “vitória divina”.
Após a guerra, o país começou a tarefa de reconstrução física, mas ainda está atormentado por suas antigas divisões.
Como é a divisão de poder no Líbano?
O governo está fortemente dividido em facções anti-Síria e pró-Síria.
O primeiro grupo é uma frágil aliança entre sunitas, cristãos e drusos (grupo religioso originário do islamismo) e tem o apoio dos Estados Unidos.
O segundo é essencialmente um agrupamento de xiitas dominado pelo Hezbollah, com o apoio da Síria e do Irã.
Simbolizando esta polarização está o fato de que o presidente é pró-Síria, e o primeiro-ministro, anti-Síria.
Duas coisas ajudaram a aumentar a temperatura até o ponto de ebulição.
Uma é a ameaça do Hezbollah de levar seus simpatizantes às ruas se não houver uma mudança de gabinete que dê ao grupo poder de veto sobre as decisões do governo.
A outra é a série de assassinatos de políticos anti-Síria, da qual a morte do ministro Pierre Gemayel é o último caso.
Raramente a situação do Líbano pareceu mais frágil do que agora.
O resultado da crise influenciará não somente o destino desse pequeno país, mas a balança de poder em todo o Oriente Médio.