17 de abril, 2007 - 05h02 GMT (02h02 Brasília)
Daniel Schweimler
De Quito
O Equador é um país cheio de divisões. Divisões entre ricos e pobres, entre o litoral e a serra, entre indígenas e mestiços, entre a cidade e o campo.
Uma das poucas coisas com que todos concordam é a decepção com o sistema político do país.
O Equador atravessou dez anos de turbulência política - oito presidentes em uma década, três deles destituídos do poder por multidões furiosas.
O Congresso ficou fechado por semanas, desde que o governo afastou 57 deputados de oposição.
O presidente Rafael Correa tomou posse em janeiro prometendo mudanças radicais para tirar o país do que ele chama de "buraco de miséria" no qual o Equador afundou.
O referendo realizado no último domingo foi o primeiro passo nesse processo, e teve um resultado melhor do que o próprio Correa poderia ter sonhado.
A sua proposta de formar uma Assembléia Constituinte para reescrever a Constituição ganhou o apoio de 78% dos eleitores - segundo resultados extra-oficiais, com mais de 90% dos votos apurados.
"Meu único objetivo é ajudar a tirar o meu país dessa miséria - da pobreza na qual afundamos, que sempre nos dominou", disse o presidente no discurso em comemoração à vitória do "sim".
Fé perdida
Mas não deveria ser assim. O Equador é o maior produtor mundial de bananas, tem vastas reservas de petróleo e um setor de turismo florescendo.
Mas muita da riqueza está - e sempre esteve - concentrada nas mãos de poucas famílias.
Cerca de 40% da população vive abaixo da linha de pobreza e centenas de milhares de equatorianos deixaram o país em busca de uma vida melhor - a maioria deles em direção aos Estados Unidos e à Espanha.
As pessoas perderam a fé nos políticos e nas instituições políticas.
Na Praça San Francisco, no coração do centro colonial de Quito, as pessoas davam a sua opinião com entusiasmo.
"As antigas constituições que nós tivemos foram manipuladas e controladas pelos partidos políticos", disse a dona de casa Carmen Maurillo.
"Os mesmos partidos de sempre. Essa nova Assembléia Constituinte e a nova Constituição serão do povo. É essa a mudança que nós queremos ver."
"O presidente Rafael Correa está agindo de acordo com a vontade do povo, porque o povo quer mudança", disse o professor universitário Gustavo Pazmiño.
"Durante mais de 30 anos, com o mesmo Congresso e os mesmos congressistas, nós não vimos nenhuma mudança ou melhora. Mas em três meses, esse novo presidente fez as coisas andarem para frente", afirmou o motorista Arnoldo Saona.
"Neste país nós temos petróleo, temos recursos naturais, temos alguns dos lugares mais lindos do mundo, como as Ilhas Galápagos, e mesmo assim há pessoas com tanta fome", disse William Tapia.
"A nova Constituição vai tentar combater essa desigualdade, e aquelas pessoas que votaram pelo 'não' são apenas parte do velho sistema político ou da oligarquia do Equador."
Concentração de poder
A oposição, derrotada com folga nas eleições do ano passado e agora no referendo, reclama que Correa está agindo ilegalmente.
Um dos 57 congressistas afastados no início do ano é o presidente do Partido Democrata Cristão, Carlos Larrategui.
Ele admite que os políticos e o Congresso decepcionaram o povo equatoriano.
"Nós não somos contrários à mudança. Mas nós sentimos que essas mudanças estão apenas concentrando poder nas mãos do presidente, assim como na Venezuela", afirmou Larrategui.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é um assunto delicado no Equador.
Correa não esconde a amizade com seu vizinho radical, mas é rápido em salientar que o Equador tem os seus próprios problemas e deve encontrar as suas próprias soluções.
Horas depois de sua vitória no referendo, Correa já estava em Caracas para um encontro com o aliado venezuelano.
Muitos analistas vêem semelhanças no que está ocorrendo na Venezuela, na Bolívia e no Equador - uma revisão radical das instituições políticas em um esforço para dar aos pobres e aos marginalizados mais voz no governo de seus países.
Os Estados Unidos estão assistindo a esse desenrolar com alguma preocupação.
Correa fala em reestruturar a dívida externa do Equador. Ele disse que vai fechar a base militar americana da cidade de Manta, no oeste do país. Investidores potenciais estão nervosos com a instabilidade.
Mas a larga vitória no referendo significa que Correa ganhou agora um reforço no seu mandato para executar mudanças fundamentais.
Mais voz para os pobres
O primeiro passo é convocar uma nova eleição para escolher representantes para a Assembléia Constituinte.
O trabalho dessa assembléia será reescrever a Constituição, reformando radicalmente as instituições políticas, o Judiciário e o modo geral como o país é governado.
O objetivo será dar mais voz aos pobres, às comunidades indígenas e às mulheres.
Eles irão ignorar o atual Congresso e tentar assegurar que as elites econômicas e políticas que sempre comandaram o Equador tenham seu poder e sua influência reduzidos.
Não causa surpresa que a oposição não esteja feliz com isso. Há boatos de que milhares de dólares estão sendo retirados do país rumo a contas bancárias no exterior.
Apesar do apoio popular, o governo de Correa está bem ciente do enorme desafio que tem nas mãos.
O principal conselheiro do presidente, Fernando Bustamente, disse que o futuro do Equador era incerto.
"Mas", acrescentou, "o governo simplesmente não pode se dar ao luxo de fracassar. Todos os elementos, todas as divisões estã aí. Se não formos bem-sucedidos, teremos um Estado falido."