13 de abril, 2007 - 17h10 GMT (14h10 Brasília)
Assimina Vlahou
De Roma
O papa Bento 16 diz em seu livro Jesus de Nazaré, que está sendo lançado nesta sexta-feira no Vaticano, que fé e política devem ficar separados.
Na obra, o pontífice afirma que "a luta pela liberdade da Igreja, para que o reino de Jesus não seja identificado com nenhuma estrutura política, deve ser conduzida em todos os séculos" e que o "reino de Deus não está nos mapas, mas dentro dos homens".
"O Império cristão tentou transformar a fé em fator político. A fraqueza da fé, a fraqueza terrena de Jesus, devia ser substituída pelo poder político e militar."
"Ao longo dos séculos, esta tentação se apresentou de formas diferentes, e a fé sempre correu o risco de ser sufocada pelo abraço do poder. A fusão entre fé e poder político tem sempre um preço", escreveu o papa.
Anticristo
No texto, de 488 páginas, o papa analisa a figura do fundador do Cristianismo, do batismo no Rio Jordão até a Transfiguração.
A tese central é o reconhecimento da validade dos Evangelhos como fonte histórica no estudo da vida de Cristo.
Na visão de Joseph Ratzinger, a luta entre Jesus e o diabo não aconteceu só nos textos que contam a vida de Cristo, mas ocorre "em todas as épocas", na disputa por uma correta interpretação da Bíblia e de uma definição de Deus.
Esta disputa é descrita no capítulo dedicado às tentações que Cristo sofre por parte de Satanás, pouco antes de ser preso e crucificado.
Neste capítulo, o papa cita o anticristo e compara esta figura a quem diz que interpretar a Bíblia por meio da fé é fundamentalismo.
"O anticristo nos diz então, em atitude de grande erudito, que uma exegese que interpreta a Bíblia na perspectiva da fé em Deus vivente, dando-lhe ouvidos, é fundamentalismo; apenas a sua exegese, a exegese considerada como autenticamente científica, em que Deus não diz nada e não tem nada a dizer, é atual."
A adoração ao diabo na atualidade pode ter a forma da excessiva valorização da razão, diz Bento 16.
Marx
O texto cita também algumas histórias contadas por Jesus a seus discípulos e faz comparações com a atualidade, elogiando Karl Marx, teórico do comunismo.
Jesus de Nazaré foi traduzido em 20 línguas e estará à venda a partir de 16 de abril, quando o papa faz 80 anos.
A obra está sendo lançada primeiro em Itália, Alemanha e Polônia. No Brasil, o lançamento deve ocorrer durante a visita do pontífice ao país, em maio.
O livro é a primeira parte de uma obra em dois volumes. O segundo, que ainda não tem data para ser publicado, vai tratar da infância de Jesus, da paixão e da ressurreição.