02 de abril, 2007 - 09h51 GMT (06h51 Brasília)
Está lá na gravação clássica de um clássico de nosso cancioneiro, a Aquarela do Brasil, do Ary Barroso, na voz de Francisco Alves, o propalado (quando cantor ainda propalava) “Rei da Voz”. Primeiro, os acordes famosos do arranjo, também clássico, de Radamés Gnatalli, e, logo em seguida, Chico Viola (propalemos menos e com mais intimidade) começando a cantar: “Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato rizoneiro…”.
A coisa nascera tão clássica, mas tão clássica, que mereceu uma bolacha de 78 rotações com dois lados, o A e o B – e se pudesse e houvesse tecnologia, teria também um lado C.
Quem quiser conferir pode ir lá e ouvir com os próprios ouvidos que nossa terra generosa há de comer: “mulato rizoneiro”.
Ora, já tinha muita gente, e gente preciosa, que implicava na época com o “Brasil brasileiro”, argumentando que não poderia ser “Brasil argentino” ou, muito menos, “Brasil estadunidense”. Como disse, uns preciosos.
No “rizoneiro”, a coisa toda muda, para citar, meio cifrado, outro samba da época.
“Rizoneiro” não tem. Não existe. Não está nos dicionários. Não se ensinava nos colégios.
O “Rei da Voz”, armado com a letra do Ary, em forma de partitura ou, quiçá (quiçá era um quitute muito popular na época), batida à máquina, olhou, viu escrito lá “inzoneiro”, ou mesmo “enzoneiro” (conferir no dicionário Houaiss), que também existe, e deu um dó de peito lá para seus botões, “O Ary bobeou. Ou então é erro da gráfica ou de quem datilografou. Não pode ser isso.”
O mistério se aprofunda
Aí começam as especulações. Ou o “Rei da Voz” não sabia coisa alguma da língua portuguesa, ou sabia demais. Como uma simples verificação de seu legado como letrista confirmará (nunca vi ninguém o acusar de comprador de música. Também nunca vi ninguém botando a mão no fogo por ele), Francisco Alves compôs (ou comprou, como querem as más línguas) coisa que não acaba mais. E tudo coisa fina, do bom e do melhor.
Portanto, não é preciso ser um Sherlock Holmes para se concluir que Chico Viola sabia que “inzoneiro” não podia ser, conforme o prestimoso Houaiss informa - “inzoneiro”, ou “enzoneiro”, conforme disse acima, quer dizer sonso, manhoso, enganador.
Ninguém, nem mesmo em 1939, ano pródigo em ditaduras e racismos assumidos (Hitler, Getúlio, Mussolini), assinaria um desaforo desses logo no começo do que deveria ser um hino de exaltada e patriótica louvação.
Seria uma burrice e uma contradição, mesmo com os coqueiros dando cocos e não jacas e as onças bebendo água de fonte lado a lado com brasileiros “inzoneiros”, “enzoneiros” ou “rizoneiros”.
O “Rei da Voz” mostrou seu sangue azul como letrista e improvisador e, na hora de gravar, tacou lá “meu mulato rizoneiro”. O querido intérprete tirou do bolsinho de cima do paletó de brim branco, aquele onde ficava o lenço, o “rizoneiro” e foi em frente, sem desafinar, ao que parece.
Uma especulação e um esclarecimento
Não é preciso cantar feito o Francisco Alves, nem mesmo a capella: rizoneiro. Ri-zo-nei-ro. Ouvindo assim, e principalmente em voz de rei, só pode ser algo, ou melhor alguém, de peito nu, bronzeado, com um sorriso alegre nos lábios, apesar de dar duro de 8 da matina às 8 da noite.
Ri-zo-nei-ro. Claro, mulato e brasileiro, só pode ser “rizoneiro”. Quanto à cor da pele, na época muito chamada de “tez”, não havia o menor desmerecimento. Getúlio nem pensou em instituir ministério para a promoção da igualdade racial. Valia mulato e, graças ao improviso de Francisco Alves, digno de um grande músico de jazz, passou a valer o “rizoneiro”.
Infelizmente não pegou, apesar de, em nosso Brasil, que continua brasileiro, apesar dos pessimistas, existirem mulatos rizoneiros em atraente e, para muitos, tentadora profusão.