23 de março, 2007 - 11h34 GMT (08h34 Brasília)
Nada mais útil, para quem tem o dinheiro e o apetite, principalmente o primeiro, ter à mão, quando em viagem, um Guia Michelin para restaurantes.
Mesmo aqui em Londres, para os londrinos, o guia é vital: onde ser visto passando bem.
Há mesmo a classificação segundo os ditames do esnobismo: quem come em restaurante Michelin de uma única estrela é praticamente ridicularizado pelos que freqüentam os de duas ou – magnífica conquista – os de três estrelas.
Forçoso esclarecer que o guia Michelin só distribui seus preciosos astros pela Europa e pelos Estados Unidos. Acontece que agora, pela primeira vez, o Michelin vai dar uma chegadinha a outras plagas, ao outro lado do mundo, a saber, o Japão.
Seria de mau gosto dizer que a notícia estourou como uma bomba em Tóquio, Hiroshima e Nagasaki.
Mas os chefs japoneses estão fulos da vida. Para eles, trata-se de uma questão de honra. Quem já viu filme de samurai sabe da importância da honra para eles. Perda de honra traz o perigo de, inevitável usar o termo, sushi.
Água na fervura
A organização Michelin já procurou botar água na fervura alegando que os japoneses não têm com o que se preocupar, uma vez que, da equipe de inspetores, farão parte também japoneses e não apenas europeus ou americanos entendidos no que é tido, pelos locais, como mais do que alimento ou refeição, uma vez que para eles sushi beira, ou submerge completamente, na arte.
Para eles, japoneses, aliás, a décima-terceira arte, já que há seis outras totalmente desconhecidas por nós, meros – adjetivo e não substantivo – ocidentais.
Ponderou-se, de alto a baixo no país-ilha, que nenhum "forasteiro" estaria apto a julgar os méritos de um nigiri sushi, hosomaki ou mesmo de um humilde futomaki.
Os franceses que continuassem curtindo seus faisões mal cheirosos, os americanos o cachorro quente e o hambúrguer e não se metessem com nada que lembrasse vagamente peixe cru, arroz e vinagre (também de arroz) com uma pitada de wasabi, para ficar apenas na base, no feijão (esclarecendo: feijão não entra na história; entrou aqui como força de expressão) com arroz do sushi.
A Michelin voltou a insistir que o guia estará nas livrarias em novembro, e vai se limitar, conforme é sua tradição, a julgar apenas a comida, o serviço e a decoração dos restaurantes. O que não despreocupou japonês algum.
Pensemos: você aí, "seu" Mané, gostaria que uns gringos, acompanhados de alguns brasileiros a soldo do capital estrangeiro, viessem ao Brasil e passassem a distribuir estrelinha para feijoada, vatapá, cuscuz paulista e picanha? Não, claro que não.
Nós mesmos cuidamos de nossas estrelas, pois nossos céus as têm mais que os outros, e publicamos nossos guias gastronômicos em papel cuchê com ilustrações pitorescas e artística de nossos melhores cartunistas.
Nossa solidariedade portanto aos japoneses. Inclusive no que diz respeito a essa pesquisa, realizada por um ministério japonês, segundo a qual os japoneses preferem dormir a ter relações sexuais.
Kunio Kitamura, diretor da Associação Japonesa de Planejamento Familiar, declarou que isso é uma péssima notícia para o país e que o povo japonês precisa redescobrir seu apetite sexual.
O fato não deverá ser levado em conta ou julgado pelos inspetores do primeiro Guia Michelin japonês.