03 de março, 2007 - 05h31 GMT (02h31 Brasília)
O líder líbio Muammar Khadafi disse que seu país não recebeu a "recompensa adequada" por sua decisão de renunciar às armas nucleares, em 2003.
Em entrevista exclusiva ao correspondente de assuntos diplomáticos da BBC, James Robbins, o coronel Khadafi afirmou que o fracasso dos países ocidentais em recompensar a Líbia faz com que o Irã e a Coréia do Norte estejam relutantes em seguir o exemplo de Trípoli.
"Esse deveria ser um exemplo a ser seguido, mas a Líbia está decepcionada porque as promessas feitas pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha não foram cumpridas", afirmou Khadafi na entrevista, concedida na cidade de Sebha.
"E por isso esses países (Irã e Coréia do Norte) disseram: 'nós não vamos seguir o exemplo da Líbia, porque a Líbia aboliu seu programa sem receber compensação alguma'... Ninguém vai seguir aquele modelo."
As sanções contra a Líbia foram suspensas depois que o país encerrou seu programa de armas nucleares, em 2003.
O governo de Trípoli também foi retirado pelos Estados Unidos da lista de países que apóiam o terrorismo - um passo importante para a sua reabilitação internacional.
Programa pacífico
Estados Unidos e Grã-Bretanha reataram laços diplomáticos com o país - e agora sugerem que a Líbia é um exemplo a ser seguido.
Para Khadafi, no entanto, esses dois países falharam ao não ajudar a Líbia a transformar seu programa de armas nucleares em um programa de energia nuclear para fins pacíficos.
"Eles disseram: 'Se vocês abolirem seu programa de guerra nós vamos ajudá-los a tranformar suas capacidades nucleares em pacíficas'. Isso não aconteceu."
Segundo Robbins, Khadafi pode estar tentando barganhar por investimento estrangeiro, mas não parece estar disposto a um retorno às hostilidades do passado.
"A Líbia nunca irá retroceder. Eu acredito que a era de hostilidades e confrontos ficou para trás", disse o líder líbio.
Na entrevista, Khadafi falou também sobre o Iraque.
"O mundo está unido em sua posição em relação ao povo americano. Não é apenas uma questão de simpatia pelo povo iraquiano, mas também pelo povo americano, que pagou o preço em uma guerra desnecessária baseada em falsos fundamentos", disse.
"Milhares de americanos morreram devido a falsas informações. Quem vai trazer de volta os centenas de milhares de iraquianos que foram mortos? O que aconteceu no Iraque faz todos os povos do mundo se sentirem inseguros..."
Potências
Khadafi falou à BBC durante as comemorações do 30º aniversário de sua declaração do peculiar sistema de "administração popular" da Líbia, o Jamahiriya.
O líder líbio, há quase 40 anos no poder, continua sob pressão, tanto doméstica quanto internacional, para acelerar reformas econômicas em seu país, reduzir a dependência de petróleo e gás e dividir mais o poder com o povo.
Khadafi também participou de um raro debate com intelectuais ocidentais, no qual criticou o controle que as nações com poderes militares e econômicos têm sobre os países mais pobres.
Suas declarações foram feitas enquanto seis grandes potências - Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia, China e Alemanha - discutem a possibilidade de aplicar novas sanções contra o Irã por ter se recusado a interromper seu programa de enriquecimento de urânio.
Autoridades das Nações Unidas afirmaram que os embaixadores poderão começar a redigir uma nova resolução sobre o Irã na próxima semana.
Enquanto isso, em negociações no mês passado, a Coréia do Norte concordou em dar os primeiros passos para o desarmamento nuclear, em retorno de auxílio econômico e da doação de combustível.