15 de fevereiro, 2007 - 07h49 GMT (05h49 Brasília)
Em trinta anos, das décadas de 30 a 50, Robert Moses construiu mais do que qualquer faraó do Egito.
São dele as maiores pontes de Nova York, o Brooklyn Battery Tunnel, treze vias expressas, vários parques públicos, entre eles o imenso Jones Beach, dez gigantescas piscinas que podiam acomodar 66 mil nadadores - ele era fanático por natação - e dezenas de outros projetos.
Construiu também em outros estados. Muitos projetos levam o nome dele.
Se não fosse por Moses, a sede das Nações Unidas estaria em São Francisco. E Moses nunca foi eleito para nada.
Judeu de origem alemã, bem educado, ele entendia de leis e engenharia melhor do que a maioria dos engenheiros e advogados. Perdeu uma eleição para governandor mas teve mais dinheiro público e poder do que cinco governadores e seis prefeitos de Nova York.
Para driblar a burocracia e as mutretas políticas, ele criou um órgão híbrido, nem público nem privado, que escapava do controle externo. Eram as "Public Authority".
Até hoje existem 640 delas em Nova York, a maioria inócuas, mas algumas são ainda poderosas como "The Port Authority of New York and New Jersey", que administra quase todo o sistema de transportes de Nova York, inclusive os aeroportos.
Quando Moses redigiu o texto criando as "Public Authority", nem o esperto prefeito Fiorello La Guardia sabia o que estava assinando. Na prática, ele transferiu para Moses o direito de recolher e investir as arrecadações dos pedágios e outras verbas provenientes das "Authorities". O estado e a cidade estavam falidos nas décadas de 30 e 40, mas Moses não parava de construir.
Sempre a critério dele e quase sempre em benefício dos automóveis. Embora nunca tivesse aprendido a dirigir, fez o possível para bloquear transportes públicos. Só hoje o metrô da Segunda Avenida está sendo reiniciado.
Moses não gostava de pobres em geral e de negros em particular. Nenhum dos parques dele foi construído no Harlem e, para afastar os negros das piscinas públicas, a temperatura da água era mais fria.
As pontes nas vias expressas eram mais baixas para não permitir a passagem de ônibus e nunca permitiu a construção de uma linha de trens para seu
monumental Jones Beach Park.
Suas estradas destruiram uma boa parte do sul do Bronx e ele não tinha nenhuma pena de vizinhaças antigas, históricas e íntimas, a menos que fossem ricas. As pobres ou de classe média baixa, Moses atropelava. O negócio era arrecadar pedágio para construir mais pontes e estradas. Por pouco não destruiu grande parte do Village e do Soho. Sua fama rompeu as fronteiras do estado e quase destruiu o French Quarter de Nova Orleans.
Robert Moses foi desmistificado em 74 por Robert Caro, na maciça biografia The Power Broker: Robert Moses and the Fall of New York. Caro ganhou os principais prêmios literários da época e seu livro entrou na lista dos cem indispensáveis do século na categoria de não-ficção da Editora Modern Library.
Moses foi implacável não só com os pobres e negros. Conseguiu roubar a herança do irmão, Paul, um arquiteto brilhante que ele sabotou a vida inteira. Paul não conseguiu empregos e nem mesmo onde morar. Robert não permitiu nem que o irmão miserável ocupasse um dos 28 mil apartamentos públicos construídos por ele.
Neste momento há três exibições e um novo livro sobre Robert Moses. Alguns urbanistas e arquitetos querem reabilitá-lo. Hillary Ballon e colegas da Universidade Columbia dizem que, se não fosse pela infra-estrutura criada por Moses, Nova York não teria se recuperado da fossa das décadas de 70 e 80.
Kenneth Jackson, o maior historiador de Nova York, explica que "Moses era um reflexo do tempo dele. Nova York estava em declínio por 15 anos. Agora está no período de maior otimismo e crescimento dos últimos 50 anos", em parte, graças a Moses.
O gênio era um canalha. Ou é o contrário?