22 de janeiro, 2007 - 08h16 GMT (06h16 Brasília)
Marina Wentzel
De Hong Kong
A quarta maior economia do mundo floresceu aportando investimento estrangeiro e acumulando capital com manufaturas para exportação. Agora a estratégia é voltar-se para o mercado doméstico, desenvolver outros setores e investir no exterior, dizem especialistas.
Frank Song, professor e pesquisador do Centro de Estudos Financeiros Chineses da Universidade de Hong Kong acredita que recorrentes reformas institucionais, investimento estrangeiro direto e o grande acúmulo de capital foram alguns dos ingredientes que permearam o sucesso chinês.
“Com o crescimento médio do PIB em 10% ao ano há quase três décadas, um Estado do tamanho da China só pode ter conseguido isso se reinventando”, defende Song.
E “precisa seguir reformando, se quiser continuar crescendo”, argumenta o professor. Song advoga que é hora de rever alguns conceitos, a começar pelo acúmulo de capital.
Em 2006 o superávit comercial do país passou de US$177 bilhões, o que fez o ministro do Comércio Exterior, Bo Xilai, declarar que reduzir o saldo positivo é “prioridade máxima” em 2007.
O governo anunciou uma série de medidas para frear as exportações e estuda inclusive deixar a moeda nacional, o yuan, apreciar em até 9% em relação ao dólar neste ano.
Crescer racionalmente
A China quer ver sua economia evoluir positivamente, mas teme um super-aquecimento. O 11º plano qüinqüenal, que estabelece as metas de 2006 a 2010, tem como um de seus objetivos desacelerar o crescimento para uma média de 7,5% ao ano.
O destino das mercadorias anteriormente exportadas é o mercado interno. “No começo não tínhamos poder aquisitivo”, recorda Song, “mas agora que prosperamos, nosso mercado interno tornou-se relevante, especialmente se considerarmos seu tamanho”.
Em números redondos, o setor industrial corresponde a mais de 47% do PIB, enquanto a agricultura contribui com 13% e os serviços com 40%.
O doutor em economia Dr. Cheng Yuk-shing, da Universidade Batista de Hong Kong, ressalta que o setor terciário está florescendo e cita como prova disso a chegada de inúmeros bancos internacionais ao país atualmente.
No fim de 2006 se esgotou o prazo de cinco anos dado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) aos bancos domésticos para se adaptarem à livre concorrência.
Investimento estrangeiro
Números oficiais revelam que em 2006 os investimentos estrangeiros diretos foram da ordem de US$ 63 bilhões, um aumento de apenas 5% em comparação ao ano anterior.
Em contrapartida, no mesmo período, os investimentos feitos pela China no exterior aumentaram 32%, totalizando US$16,1 bilhões.
David O'Rear, empresário e economista chefe da Câmara de Comércio de Hong Kong, estima que a importância do investimento estrangeiro direto no crescimento econômico da China atualmente seja pequena.
“No senso estritamente financeiro é um fator pequeno, acredito que corresponda a 8%, 10% de todo o investimento. Entretanto, os aspectos não-financeiros, como a transferência de tecnologia, são muito mais significantes que o próprio fluxo de capital”, diz O'Rear.
“A China agora é uma país rico, que passou de recipiente de investimento estrangeiro a investidor internacional”, observa Charles Li, professor de economia da Universidade City de Hong Kong.
A quem duvida, “basta ver o que estamos fazendo na África”, diz Li.