09 de janeiro, 2007 - 08h13 GMT (06h13 Brasília)
John Simpson
De Bagdá
Uma semana após Saddam Hussein ser enforcado em Bagdá e ridicularizado em seus momentos finais na Terra por seguidores do clérigo militante xiita Moqtada Sadr, nenhuma das emoções que isso provocou arrefeceu.
Pelo contrário, a aversão sentida no ocidente e entre os muçulmanos sunitas aumentou ainda mais.
Também aumentou a sensação de triunfo entre os xiitas no Iraque e em outros locais.
Na morte assim como na vida, Saddam continua a dividir seus inimigos.
Sua execução foi como uma explosão ao longo da cratera que divide as duas principais vertentes do Islã.
Maioria xiita
Sob Saddam, que era um sunita e governou por meio da minoria sunita, o Iraque era considerado como um país sunita apesar de ter a grande maioria da população xiita.
Quando invadiu o Irã em 1980, e logo após a revolução islâmica xiita contra o xá, a guerra Irã-Iraque era vista por muitas pessoas no mundo muçulmano como uma guerra entre sunitas e xiitas.
O Iraque de Saddam recebeu grandes quantidades de dinheiro e assistência dos países sunitas da região, que ansiavam, por razões próprias, que o movimento xiita não fosse vitorioso.
Mas não foi, porque nenhum lado venceu a guerra Irã-Iraque. Ela terminou após oito anos como um empate terrível e destruidor.
Mas quando os Estados Unidos, com o crucial apoio da Grã-Bretanha, decidiu invadir o Iraque em 2003 e derrubar Saddam Hussein, o controle sunita sobre o Iraque foi destruído.
E a realização de eleições propriamente democráticas garantiu que a maioria tomasse o poder – ou seja, a maioria xiita.
O Iraque foi perdido para o mundo sunita, e então se tornou um país xiita com uma minoria sunita.
Sectarismo
Um grande número de sunitas agora acredita que o Iraque é pouco mais do que uma colônia do Irã, fazendo exatamente o que os mulás determinam. E claro que a opinião pública no Irã ficou radiante com a execução do homem que havia matado tantos iranianos durante a guerra de 1980 a 1988.
Na verdade, a decisão do primeiro-ministro Nouri Maliki de executar Saddam foi tomada por causa da política interna iraquiana.
Considerado por um número crescente de iraquianos como fraco e inoperante, Maliki agiu com um sentido de decisão extraordinário ao executar Saddam assim que seu apelo final foi rejeitado.
Mas apesar de ter deleitado seus seguidores, ele dividiu o mundo muçulmano com ainda mais força.
Até mesmo a data da execução foi prejudicial.
Eid
Uma das divisões menores entre os sunitas e os xiitas é a data em que seus seguidores começam a celebrar a festa religiosa de Eid al-Adha.
Neste ano os xiitas consideraram o domingo retrasado como o início do Eid, então não havia problemas para eles executar Saddam no dia anterior, 30 de dezembro. Mas esse foi o dia em que os sunitas começaram a celebrar o Eid.
Isso não poderia ser mais ofensivo.
O presidente Hosni Mubarak, do Egito, diz ter alertado o presidente George W. Bush de tudo isso. O presidente Bush aparentemente não fez nada para intervir.
Agora Mubarak está frustrado e bravo. “Por que eles tinham que correr? Por que enforcá-lo quando as pessoas estavam recitando suas preces do feriado?”, questionou.
E ele considerou a forma de execução “revoltante e bárbara”, com os guardas xiitas gritando o nome de seu líder para Saddam e puxando a alavanca para seu enforcamento antes de que pudesse terminar sua profissão de fé islâmica.
Um homem na cidade jordaniana de Amã coloca as coisas de maneira mais simples: “Eu costumava ter pena do Iraque por ter sido destruído pelos americanos e britânicos. Agora eu estou satisfeito de que eles tenham destruído. O Iraque merece”.
Saddam está se provando tão perigoso quanto antes para seus inimigos agora, após uma semana no túmulo.