05 de janeiro, 2007 - 10h21 GMT (08h21 Brasília)
2007 aí está, há alguns dias, e quem te viu e quem te vê diria que é a cara escarrada de 2006.
Não cuspamos no prato que nos comeu durante 365 dias. “Cara escarrada” vem de “mármore de Carrara”, coisa fina que, com os tempos, fomos aprendendo a cuspir em cima. Tá bom, vá lá que seja, mas Saddam não está mais entre nós, ou entre eles lá.
As primeiras notícias davam conta de que vestira o cachecol final tremendo de medo e covarde. Ubíquos celulares munidos de vídeo prontamente desmentiram: foi-se possivelmente como chegou, sendo xingado e xingando. Curioso, ninguém se lembrou de perguntar em que caverna de que Ali Babá Saddam escondera o raio das “armas de destruição em massa”.
Que a terra lhe seja leve. Ou pesada. O que for mais duro de aguentar para um brutamontes assassino que sofreu a burrice inominável de ser enforcado, quando era para deixar mofando numa cela qualquer, regando ou não suas plantinhas. Agora, güenta, gente.
Implicância
E por que tanta implicância com o primeiro ministro Tony Blair e sua excelentíssima senhora só porque o casal adora passar uns dias extras de férias no fim do ano hospedados ou por ricos e poderosos ou por pessoas pop insuportáveis? O poder pode se dar a esses luxos.
Esse ano, não fosse uma derrapagem do avião em Miami, Blair e Chérie passariam uma bela temporada no palacete daquele dentuço que sobrou dos Bee Gees, tal de Robin Gibbs, vizinho de Jennnifer Lopez, Matt Damon e Mick Jagger. Poderiam se reunir, finzinho da tarde, e discutir a questão do Oriente Médio, onde agora, com Saddam enterrado ao lado dos filhos, os palestinos mortos por israelenses triplicaram no ano que passou: 660 -- e isso segundo uma agência israelense de direitos humanos.
Dos 660, pelo menos 322 não estavam envolvidos em qualquer tipo de ação de protesto, pacífico ou não. Mais propício à paisagem miamesca, roqueiro e político, mais suas respectivas senhoras, poderiam (deveriam?) erguer seus copos em sentidos brindes de homenagem aos agora mais de 3000 americanos mortos no Iraque.
Resta a questão: mojito ou daiquiri pega bem nesses casos? Entende-se porque Margaret Thatcher nunca tenha tirado férias em seus onze anos no poder.
Satisfação
Talvez por essas e por outras tenha ficado provado por A mais B, incluindo H e Z, que os cidadãos britânicos estão mais satisfeitos de 2006 para cá (e até agora) do que antes. Quer dizer, egoisticamente satisfeitos, sem nada a ver com o país que os cerca.
É dessas pesquisas que eles adoram: sai uma porção de gente com um bloco e uma esferográfica e toca a fazer perguntas para as pessoas esperando o metrô ou o ônibus.A organização responsável pelos dados chama-se YouGov e, além de parecer nome de sítio da Internet, como tudo mais hoje em dia, é tida como merecedora de confiança, também como tudo mais (menos Saddam Hussein, claro).
A Iugóve (abrasileiro logo) chegou a uma porção de conclusões desinteressantes que reproduzo aqui por me encontrar em estado de espírito semelhante (desinteressante, para ser claro): 40% dos entrevistados acharam que 2006 foi pessoalmente para eles um ano bacaninha, ao passo que 55% juram que foi péssimo para as ilhas.
A questão não foi esmiuçada, assim como também não se esmiuça mais hoje em dia o motivo porque se vai morrer ou matar em terras d´além-mar. São pessimistas os ilhéus: com a entrada para a Comunidade Européia da Romênia e da Bulgária, entre outras coisas, a situação vai piorar e bastante nos próximos 5 anos, no entender de 53% dos questionados.
O que é pinto perto dos 58% que vêem as coisas pretas para o Reino Unido já a partir de hoje, aqui e agora neste comecinho de janeiro de 2007.
Cruzamento
Esse estado de espírito para baixo foi verificado antes mesmo das tempestades que varreram o norte da ilha e acabaram com a festa (entenda-se queima de fogos de artifício. Falar nisso, nunca entendi a graça) dos escoceses que cantam parcialmente em gaélico a “Valsa da Despedida”, a que nos acostumamos a ouvir na voz do Chico Viola, e comemoram o Ano Novo chamando-o de Hogmanay, além de praticar exotismos num nível de violência que me recuso a explicar ou traduzir.
Digamos que lembra um cruzamento da linha amarela com a linha vermelha no Rio. Por aí.