08 de dezembro, 2006 - 13h58 GMT (11h58 Brasília)
Carolina Glycerio
Enviada especial a Cochabamba
Geralmente marcada por protestos nas ruas, a Cúpula Social – que acontece em paralelo à 2ª reunião presidencial da Comunidade Sul-Americana de Nações – foi organizada num grande centro de convenções com o apoio logístico do governo boliviano.
O fato de Evo Morales, um ex-líder do movimento cocalero, estar no poder na Bolívia, mudou o caráter do evento, que desta vez contou com diversos movimentos de apoio ao presidente anfitrião, além de organizações de outros países alinhadas com o seu discurso, como o brasileiro MST.
Morales até convidou os presidentes das organizações para participar da festa de encerramento da reunião presidencial – a organização do evento diz não ter recebido nenhuma confirmação.
O ativista Rafael Freire Netto, da organização não-governamental Aliança Social Continental, diz que a realização da Cúpula Social nos moldes em que foi feita este ano em Cochabamba mostra que os movimentos sociais latino-americanos passam por um momento inédito.
"As condições de aceitação das nossas propostas nunca foram tão boas quanto agora, com Morales, Lula, Kirchner e Chávez (no poder)", disse Netto.
Risco ideológico
André Abreu de Almeida, responsável por América Latina da ONG francesa France Libertés, também disse considerar positiva a "construção de pontes" para o diálogo entre os governos e os movimentos sociais, mas alertou para a "ideologização" de propostas concretas desses movimentos.
Abreu, que veio a Cochabamba tratar da falta de acesso à água tratada na cidade, teme que a politização afaste organizações que não queiram se associar a uma plataforma política específica.
"Eu não acho que seja representativo do conjunto de movimentos sociais que participam, por exemplo, do Fórum Mundial Social", disse Abreu, ressaltando a diferença na dimensão dos dois eventos.
Representantes das cerca de 50 ONGs que participam do evento paralelo deverão entregar uma declaração aos presidentes neste sábado de manhã.
Crise interna
A Cúpula de presidentes sul-americanos ocorre em meio a uma onda de protestos domésticos contra o presidente Evo Morales, movidos pela polêmica vitória presidencial que recentemente aboliu a necessidade de se dois terços dos votos parlamentares para aprovar projetos na Assembléia Constituinte.
Com a mudança, as decisões referentes à redação da nova Constituição boliviana podem ser aprovadas por maior absoluta, o que torna prescindíveis os votos da oposição. A eleição do órgão legislador deu a Morales a maioria na casa.
Há semanas, parlamentares, governadores e artistas protestam contra a mudança, com uma greve de fome que já se estendeu por seis regiões do país, embora esteja concentrada nas regiões dominadas pela oposição a Evo Morales – Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija.
Para o pastor Manuel Mercadi Perez, no entanto, o protesto não passa de uma tentativa da "oligarquia" de retomar o poder das mãos do povo.
"Os papéis se inverteram, agora o povo está no poder e eles estão protestando", disse Manuel que, como a maioria dos moradores de Cochabamba, apóia o governo de Morales.