08 de dezembro, 2006 - 21h53 GMT (19h53 Brasília)
Marcia Carmo
De Buenos Aires
Pelo menos quatro dos doze integrantes da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa) têm manifestado pouco interesse e algumas ressalvas em relação ao bloco, que é uma iniciativa brasileira para integração regional dos países do Mercosul e da Comunidade Andina, além de Chile, Guiana e Suriname.
Por diferentes razões, Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai integram o bloco, mas com ressalvas.
Nos bastidores do governo argentino, com conhecimento das autoridades brasileiras, o presidente Néstor Kirchner não seria simpático à Casa, entre outros motivos, porque ela confirmaria a “liderança” brasileira na região.
Kirchner, segundo assessores do Ministério das Relações Exteriores, não participará do encontro, deste fim de semana, em Cochabamba, na Bolívia. O representante argentino será o chanceler Jorge Taiana.
“Todos sabem que o presidente Kirchner não gosta destas reuniões formais e tão seguidas”, disse um diplomata argentino. “Além disso, os grupos se sobrepõem. Já temos Mercosul e Comunidade Andina. Alguns se perguntam para que criar mais blocos.”
"Ego nacional"
De Montevidéu, onde o ministro da Economia do Uruguai, Danilo Astori, criticou esta semana a falta de liderança do Brasil, o ex-embaixador do país na Argentina, Alberto Volonté, disse, em referência ao Mercosul: “Se o Brasil não lidera um bloco de quatro, como pode sugerir e promover a Casa?”
Segundo ele, o Uruguai aprovou logo no início a idéia de unir Mercosul e Comunidade Andina em um bloco.
“O Uruguai confiava na Casa porque acreditava no fortalecimento do Mercosul e entendia que seria uma ampliação do bloco. Mas isso não está ocorrendo.”
Volonté disse ainda que a proposta é boa para o “ego nacional” brasileiro, mas ela exige “responsabilidades”.
Bilateral
No Chile, como observa o cientista político Guillermo Holzman, da Universidade do Chile, a presidente Michelle Bachelet vem mostrando maior interesse pela aproximação com vizinhos em relação ao seu antecessor, Ricardo Lagos.
“Bachelet quer aumentar a relação com a região, mas desde que isso não afete os interesses do Chile, que vêm sempre em primeiro lugar”, disse Holzman.
Para ele, a Casa é vista no Chile como palco ideal para os encontros bilaterais entre os que formam o bloco.
“Um lugar de diálogo, que pode chegar a ter peso multilateral, mas sem ser capaz de impor acordos que superem interesse individual ou dos blocos já existentes, como Mercosul e Comunidade Andina.”
Segundo o jornal El Mercurio, Bachelet se reunirá na cidade boliviana com os colegas do Brasil, da Bolívia, e com o presidente eleito do Equador, Rafael Correa.
O Chile foi o primeiro país da América do Sul a assinar um tratado de livre comércio com Estados Unidos, o que impede seu ingresso no Mercosul.
Colômbia
A ausência do presidente colombiano, Álvaro Uribe, na reunião da Casa acontece por duas razões, uma interna e outra externa.
Os últimos dias têm sido difíceis para o presidente Álvaro Uribe, segundo o analista Alfredo Rangel, de Bogotá. Internamente, Uribe enfrenta o surgimento de novos grupos paramilitares e investigações sobre envolvimento de rebeldes com políticos.
Além disso, observa Rangel, a Colômbia tem “interesses específicos” na região, como o incremento das relações comerciais com a Venezuela, além da implementação de um tratado de livre comércio com os Estados Unidos, que aguarda aprovação do Congresso americano.