04 de dezembro, 2006 - 15h28 GMT (13h28 Brasília)
Maria Luísa Cavalcanti
Enviada especial a São Paulo, Salvador e Valente (BA)
O que esperam do futuro adolescentes que tiveram um passado de sofrimento e que, não fossem ações de ONGs ou do governo brasileiro, talvez nem estivessem vivos hoje?
A BBC Brasil entrevistou jovens que enfrentaram situações que o Unicef, em seu relatório "Situação da Infância no Mundo", de 2005, classifica como as que mais ameaçam essa faixa etária no país: a pobreza, a violência urbana e o HIV.
A paulista Daniela*, de 15 anos, nasceu com o vírus da Aids, perdeu o pai para a doença e chegou a passar quatro meses internada com suspeita de câncer cerebral. Em Salvador, Jonathas, 16, abandonou a escola e vivia de pedir dinheiro pelas ruas de Salvador. No semi-árido baiano, Tainá, 16, trabalhava na colheita de sisal desde os 4 anos e só começou a estudar aos 8.
Hoje, eles não só superaram as dificuldades como também estão empenhados em ajudar outras crianças e adolescentes na mesma situação. E sonham com um mundo sem guerras nem violência.
‘Mais vulneráveis’
Em entrevista à BBC Brasil, o oficial de programas do Unicef no Brasil, Mario Volpi, explicou que os temas apontados pelo relatório de 2005 são fatores que geram exclusão social.
“O jovem excluído é o que está mais vulnerável. Ele tem um percentual mais alto de abuso de drogas, de envolvimento em crimes, de gravidez precoce, de trabalho ilegal, de exploração e outros problemas”, afirmou.
Para Volpi, a sociedade brasileira precisa ajudar o adolescente a se fortalecer e, assim, se proteger. “O mundo só agora voltou a perceber o grande potencial que os jovens desta idade representam. E eles precisam de políticas governamentais específicas para ganhar mais participação e poder expressar seus interesses.”
Volpi afirmou ainda que, entre todos as questões envolvendo o adolescente brasileiro, a que mais preocupa o Unicef é a morte violenta dos jovens.
Já o combate ao trabalho infantil é a área que ele destaca como uma das mais positivas no Brasil.
Pesquisa
Além das dificuldades do passado e do engajamento no presente, Daniela, Jonathas e Tainá dividem o mesmo sonho para o futuro: conseguir um bom emprego.
Essa também é uma das principais preocupações de 97% dos adolescentes brasileiros entrevistados em uma pesquisa mundial encomendada pela BBC para o especial Geração do Futuro.
“O brasileiro tem uma crença muito forte de que o trabalho é a saída para se ter uma vida digna”, explica Pedro Américo Furtado de Oliveira, da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil. “Mas para isso o Estado tem que fazer o seu papel, criando novos empregos com qualidade e proteção dos direitos.”
Para Oliveira, o futuro do adolescente brasileiro no trabalho dependerá da garantia de que cada setor co-responsável por ele – a família, o Estado e a sociedade – assuma seu papel no respeito aos direitos dos jovens.