01 de dezembro, 2006 - 19h39 GMT (17h39 Brasília)
Paulo Cabral
do Cairo
A oposição libanesa, liderada pelo grupo Hezbollah e pró-Síria em sua maioria, disse que vai continuar a pressionar pela renúncia do governo do país com manifestações e "surpresas".
Centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de Beirute, a capital do país, na tarde desta sexta-feira, depois que o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, convocou um grande protesto, em uma declaração ao vivo na TV na quarta-feira.
Ao cair da noite, a multidão diminuiu, mas a expectativa é de que cerca de 30 mil pessoas continuem acampadas em vigília no centro da capital, ao redor do palácio do governo, exigindo a demissão do gabinete.
A aliança do primeiro-ministro Fuad Siniora, de tendência anti-Síria, tem maioria clara no Parlamento, mas já há dúvidas sobre quanto tempo ela vai conseguir resistir à pressão.
"Eles (os oposicionistas) têm muita capacidade de organização. A tendência é de que manifestações e greves continuem crescendo nos próximos dias, e não sei por quanto tempo o governo Siniora consegue resistir", disse a cientista política da Universidade Americana de Beirute, Rula Talj.
'Ilegal'
Um representante da TV Manar (a emissora do Hezbollah), Ibrahim Moussaui, disse à BBC que a oposição vai continuar nas ruas até a renúncia de Siniora, porque considera o atual governo ilegítimo.
"Os xiitas do gabinete de governo já renunciaram, então todos os ministros deveriam renunciar, e um novo governo ser formado. Esse gabinete já não tem mais nenhuma legitimidade para governar o país", disse Moussaui.
O lider do Hezbollah disse, ao convocar a manifestação que o governo Siniora "falhou em sua missão" no Libano.
O primeiro-ministro chegou ao poder no ano passado, à frente de uma coalizão anti-Síria, depois que grandes manifestações populares forçaram a renúncia do governo pró-Síria.
As mudanças foram provocadas pelo assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, que muitos suspeitam ter sido planejada em Damasco. Agora, é o grupo pró-Síria que toma as ruas pedindo a renúncia do governo.
Violência
O presidente do partido governista Bloco Nacional Libanês, Carlos Eddé, diz não acreditar que Siniora esteja ainda sob ameaça de cair.
"Ainda não, temos que observar a situação com muito cuidado. O maior risco é algum provocador cometer atos de violência para radicalizar a oposição e pressionar o governo", diz ele.
Mas Rula Talj observa que a violência também pode ser prejudicial para os oposicionistas.
"Algum agente pró-governo poderia provocar o Hezbollah para que o grupo use suas armas e seja acusado de estar atacando libaneses. Mas acho que o Hezbollah sabe deste risco e tem disciplina suficiente para controlá-lo", diz ela.
Correspondentes em Beirute dizem que o clima na cidade é tenso, com milhares de soldados e de policiais mantendo a segurança da capital.
Os manifestantes montaram barracas em torno do Grand Serail, o palácio do governo, fechando todas as entradas e saídas do edifício, que é protegido por um cordão de policiais.
Mas a manifestação vem transcorrendo de maneira pacífica.