30 de novembro, 2006 - 08h24 GMT (06h24 Brasília)
Claudia Jardim
De Caracas
A campanha dos dois principais candidatos à presidência na Venezuela trouxe à tona várias divergências políticas entre ambos, mas em poucos setores as diferenças ideológicas ficaram tão evidentes como na área da política externa.
Se reeleito, o presidente Hugo Chávez deve manter o curso do constante confronto com o que considera a política imperialista dos Estados Unidos nos palcos internacionais, que o consagrou como uma referência de antiamericanismo no mundo inteiro, e deve continuar priorizando a aproximação política com países do hemisfério sul - investindo em associações como o Mercosul - em detrimento da busca por acordos comerciais.
Já o candidato da oposição, Manuel Rosales, quer despolitizar a atuação do país no cenário geopolítico, se aproximar dos EUA e negociar acordos bilaterais priorizando os interesses comerciais e econômicos do país.
Entre os poucos pontos comuns entre Chávez e Rosales, está a busca por boas relações com o o maior vizinho do continente, o Brasil.
Rosales
Em entrevista à BBC Brasil, diretor de Assuntos Internacionais da campanha de Rosales, Timoteo Zambrano, afirma que a política externa de Rosales deverá ser de consenso, sem confrontação e não-partidária.
“Vamos desideologizar a política externa. Não vamos utilizar o petróleo como ferramenta de chantagem ideológica. Vamos despolitizar a política exterior”, disse Zambrano.
“ Voltaremos a integrar a Comunidade Andina de Nações (CAN), vamos dar prioridade a essa relação. Isso não significa sair do Mercosul”, disse Zambrano.
Na Venezuela, o Mercosul necessariamente é associado ao Brasil. A última visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 13 de novembro, para participar da inauguração de uma ponte, incomodou a oposição e foi considerada “inconveniente” pelos adversários de Hugo Chávez.
Ainda assim, se conquistar o governo, a atual oposição promete manter as relações diplomáticas com o Brasil tal como estão.
No ato de inauguração, Lula disse, dirigindo-se a Chávez: "o mesmo povo que elegeu a mim, que elegeu Kirchner, que elegeu Daniel Ortega, que elegeu Evo Morales, certamente irá te eleger presidente da República da Venezuela".
“Lula tem uma relação pessoal com Chávez e por isso nunca gostou da oposição, nunca quis estabelecer um diálogo conosco. Ainda assim, o apreciamos. Isso não afetará as relações entre os dois países”, afirmou o diretor de Assuntos Internacionais de Manuel Rosales.
Chávez
O governo Chávez, por sua vez, continua entusiasmado com a demonstração de apoio do presidente brasileiro e promete retribuir.
“No próximo mandato vamos continuar fortalecendo a integração com América do Sul. O primeiro país que o presidente Chávez visitará será o Brasil. Temos que concretizar os planos para o próximo ano”, anunciou Maximilien Arvelaiz, assessor de Assuntos Internacionais do presidente Chávez.
Chávez deve visitar o Brasil antes de participar da Cúpula Sul-Americana de Estado que será realizada na Bolívia entre os dias 8 e 9 de dezembro.
O assessor do presidente venezuelano afirmou que, se garantir a reeleição, Chávez dará continuidade ao projeto de fortalecimento da multipolaridade.
“Estamos convencidos que a América do Sul é um dos pólos a ser fortalecido”, disse Arvelaiz.
De acordo com todas as pesquisas, Chávez poderá ser reeleito no próximo domingo.
Livre comércio
Os Tratados de Livre Comércio (TLC) – o último firmado entre Colombia e EUA – são outro ponto de antagonismos entre os dois projetos em disputa.
Para o atual governo, os acordos políticos e de cooperação devem ser privilegiados em detrimento de acordos com caráter essencialmente comercial.
“Os três pilares de nossa política exterior são complementação, cooperação e solidariedade. O objetivo é complementar-nos. Não podemos ter uma visão meramente mercantil”, afirmou Arvelaiz.
Chávez critica severamente a estratégia dos EUA em firmar acordos bilaterais com os países latino-americanos. A seu ver, os TLCs são “alquitas”, em referência à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), iniciativa dos EUA para formar um bloco regional.
No entanto, em um eventual governo de Manuel Rosales, nenhuma possibilidade de ampliação de mercados e livre comércio está descartada, incluindo a assinatura de um TLC.
“A Venezuela estará aberta a discussões. Nós não nos fecharemos para nenhum tipo de negociação, inclusive um TLC. O importante é avançar rumo à abertura de mercados”, disse Timoteo Zambrano.
Zambrano afirmou que seu país, “na prática”, já tem um acordo de livre comércio com os EUA, referindo-se às exportações de petróleo a esse país e à dependência venezuelana a esse mercado.
Ainda que a diplomacia entre Caracas e Washington se mantenha em permanente conflito, os contatos comerciais entre os dois países funcionam sem problemas.
A Venezuela - quinto maior exportador mundial de petróleo - destina diariamente aos EUA a média de 1,1 milhão de barris de petróleo. A produção total do país varia entre 2,8 milhões e 3,2 milhões de barris diários.
EUA
Sobre a relação conflituosa com os EUA, que marcou o mandato de Chávez, Maximilien Arvelaiz disse que o governo pretende ter boas relações com todos os países, incluindo o governo da Casa Branca.
A última contenda entre os dois países foi durante a eleição de membro não-permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Venezuela e EUA – que apoiavam a candidatura da Guatemala – se enfrentaram abertamente.
Ao final, sem nenhum dos dois países haver conquistado a maioria dos votos, chegaram a um consenso e Panamá ficou com a vaga rotativa de dois anos.
Em tom provocador, ao ser questionado sobre as propostas da oposição para a política externa, o assessor de Chávez afirmou que na Venezuela estão em debate dois projetos: “Um corresponde à doutrina Monroe, de acumulação de capital. A nossa é a doutrina Bolívar, de integração a favor dos povos e com os povos”.