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22 de novembro, 2006 - 09h35 GMT (07h35 Brasília)

Caio Blinder
de Nova York

Confluência de crises no Oriente Médio desafia governo Bush

Iraquização do Líbano ou Libanização do Iraque. Escolha o termo, mas o fato é que a confluência das crises nos dois países com seus componentes de violência sectária, colapso institucional e possível guerra civil não poderia acontecer em hora mais dramática para o governo Bush.

Nunca é demais dizer que o Oriente Médio é um barril de pólvora. Em um sucessão veloz e impressionante de eventos na região, o lance explosivo mais recente foi o assassinato, nesta terça-feira, de Pierre Gemayel, líder da minoria cristã maronita, integrante do gabinete ministerial e figura de proa do bloco anti-Síria.

Imediatamente descrito como um ato terrorista nos EUA, o crime ecoa o assassinato, no ano passado, do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri.

Para o embaixador americano nas Nações Unidas, John Bolton, o assassinato de Gemayel reforça um padrão de desestabilização do país engendrado pela Síria, Irã e o grupo xiita Hezbollah.

Os americanos alegam que sírios e iranianos estão fazendo o possível para impedir a formação de um tribunal internacional que julgue funcionários sírios implicados no assassinato de Hariri e, em última instância, usam o Hezbollah para implodir o Líbano.

Com o apoio de Teerã e Damasco, o Hezbollah de fato faz o que pode para capitalizar a percepção de vitória na guerra contra Israel em julho/agosto passado exigindo uma maior fatia no complexo bolo político libanês.

Este agravamento da crise libanesa (e as implicações de Washington de que Damasco e Teerã são parte essencial do problema) acontece em um momento em que o governo Bush precisa decidir se e como irá se aproximar de iranianos e sírios para tentar se safar do atoleiro iraquiano.

Enquanto os americanos vivem a agonia da decisão, os regimes de Teerã e Damasco assumem papéis cada vez mais proeminentes na crise do Iraque.

Nesta terça-feira, por exemplo, a Síria e o Iraque restauraram formalmente relações diplomáticas rompidas há quase 25 anos quando os sírios deram apoio ao Irã na sua guerra contra Saddam Hussein. E existem os planos para uma reunião de cúpula em Teerã com os líderes do Irã, Iraque e Síria, embora as informações são de que o presidente sírio Bashar Assad não deverá comparecer.

São lances que inquietam o governo Bush. Os americanos acusam os iranianos de apoiar milícias xiitas no Iraque e a os sírios de serem complacentes com militantes que cruzam sua fronteira com o Iraque para se juntar à insurgência. O general William Cadwell, porta-voz dos EUA em Bagdá, estimou que 20% dos 670 insurgentes estrangeiros presos no Iraque, são sírios.

Para os EUA, a Síria é uma espécie de quarto integrante do "eixo do mal" (hoje composto pelo Irã e Coréia do Norte e antes também pelo Iraque de Saddam Hussein), mas o regime Assad oferece seus préstimos no Iraque e nega o envolvimento nos assassinatos realizados no Líbano nos últimos anos.

Os sírios querem cooperar no esforço de retomar sua influência no Líbano e também para trazer a questão das colinas de Golã (ocupadas por Israel) para o contexto diplomático. Damasco inclusive se queixa que os americanos não expressam a devida gratidão por sua colaboração na chamada guerra global contra o terror.

O Irã tem mais peso do que a isolada Síria e ambiciona se projetar como potência regional. A dinâmica internacional funciona a favor do Irã na crise nuclear, pois não se consegue costurar um consenso sobre o que fazer com Teerã. Com seu papel relevante no Iraque (hoje com um governo que, por mais precário que seja, representa a maioria xiita do país), o Irã acompanha com satisfação as crescentes pressões para que o governo Bush trave diálogo com um país que integra o "eixo do mal".

Este diálogo poderá ser a mais importante recomendação da comissão bipartidária liderada pelo ex-secretário de Estado James Baker e até o fiel aliado de Bush, o primeiro-ministro britânico Tony Blair, fala que chegou o momento de novas escolhas estratégicas.

A confluência de crises no Oriente Médio (e aqui não podemos esquecer o conflito israelo-palestino) torna mais crucial a necessidade de o enfraquecido governo Bush fazer novas escolhas estratégicas, ou seja, assumir a dimensão regional destes problemas e conversar com os arquiinimigos Irã e Síria. O assassinato de Pierre Gemayel apenas deu um caráter ainda mais urgente ao desafio.