20 de novembro, 2006 - 08h01 GMT (06h01 Brasília)
Marcia Carmo
De Buenos Aires
Autoridades do Peru e da Colômbia correm contra o relógio para tentar estender o acordo de preferências tarifárias com os Estados Unidos, que vence em 31 de dezembro, e para tentar “salvar” o Tratado de Livre Comércio (TLC) depois da vitória dos democratas nas eleições para o Congresso americano.
Nos últimos dias, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, esteve em Washington conversando com parlamentares republicanos (simpáticos ao TLC promovido pelo atual presidente George W. Bush) e com democratas (que passarão a ter maioria nas duas casas do Congresso a partir de janeiro).
Ao mesmo tempo, o presidente do Peru, Alan García, enviou uma missão de sete ministros do seu governo à capital dos Estados Unidos com os mesmos objetivos de Uribe: postergar o atual acordo de preferências tarifárias para os países andinos – chamado ATPDEA - e “fazer lobby”, como disse o analista peruano Carlos Aquino Rodríguez, para que o TLC seja aprovado no Congresso sem novas exigências.
O texto já foi aprovado pelos congressos do Peru e da Colômbia, mas depende da ratificação dos legisladores americanos e da assinatura do presidente dos Estados Unidos.
“Dependência”
Ouvidos pela BBC Brasil, os analistas Carlos Aquino Rodríguez, professor de economia na Universidade São Marcos, em Lima, e Alfredo Rangel, da Fundação Segurança e Democracia, em Bogotá, confirmaram a “dependência” das exportações destes países para o mercado dos Estados Unidos.
Há um grande temor de que as preferências “caiam” e que o TLC não seja ratificado pelo Congresso americano, onde a maioria passará a ser, no ano que vem, de democratas.
“Os democratas são mais rigorosos com regras trabalhistas e de meio ambiente. Com isso, poderão fazer novas exigências para que o TLC seja aprovado”, afirmaram os dois analistas.
Para Aquino, diante de questões como Iraque e Coréia do Norte, “que tanto preocupam os Estados Unidos”, os interesses do Peru e da Colômbia não parecem ter muita importância na agenda americana.
“Mas se o acordo de preferências não for postergado e, além de tudo, o TLC, que é, basicamente uma ampliação deste entendimento, não sair do papel, os mais prejudicados serão os operários peruanos”, acrescentou.
Bolívia e Equador
O Acordo de Preferências Tarifárias para Países Andinos inclui ainda a Bolívia e Equador, que não pretendem aderir ao TLC, mas que também esperam o adiamento do fim do acordo de preferências tarifárias. Em troca deste benefício, os países se comprometeram a combater a plantação da folha de coca.
“A saída é estender o acordo de preferências por um ano e ganhar tempo para aprovar o TLC”, disse o economista peruano. “Se não, como ficaremos em 2007?”, pergunta ele.
No ano passado, o Peru registrou exportações globais de cerca de US$ 17 bilhões, recordou o analista. Deste total, mais de 30% foram para o mercado americano – dos quais cerca de 16% com preferências tarifárias.
Os principais produtos peruanos beneficiados com a redução de tarifa (que pode chegar a até 50%) são os têxteis e agrícolas.
Para a Colômbia, destacou Rangel, o mercado americano é o principal destino das exportações (cerca de 60% do total).
Segundo ele, estima-se que, entre flores e produtos agrícolas, cerca de 40% das vendas colombianas aos Estados Unidos recebam redução de tarifas.
Postos de trabalho
“Nesse momento, a Colômbia não é prioridade para os Estados Unidos”, reconheceu. “Mas o TLC também beneficiará os americanos, que terão maior oportunidade de investir no país, especialmente na área de serviços, como bancos”.
Na opinião do analista, existe a possibilidade do acordo de preferências ser estendido, mas a decisão só deve vir nos primeiros dias de dezembro, quando parlamentares irão analisar a questão.
“Até lá estaremos torcendo e esperando que seja ampliado e que o TLC também seja aprovado no ano que vem”, disse Rangel.
“Hoje, 600 mil postos de trabalho dependem da indústria que exporta com redução de tarifas aos Estados Unidos e nossa expectativa é de que o comércio aumente com o mercado americano depois do TLC.”